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02/12/2008 - 14:29:54

A dor da crise

Nádia RebouçasNádia Rebouças

“Não é o mais forte da espécie que sobrevive, nem o mais inteligente; é o que melhor se adapta às mudanças”.

Charles Darwin

Você já viveu a experiência de estar dançando, totalmente entregue ao ritmo da música, e de repente a orquestra parar? Você fica com aquele olhar de interrogação, tentando parar os movimentos e encontrar o movimento certo para parar.

Pois é…esse é o instante que estamos vivendo. Tardiamente estávamos pensando que o tal futuro do Brasil tinha chegado. Nós estávamos no centro do movimento espiralado, descobrindo nossa auto-estima e encontrando nos nossos corações um protagonismo para chegar lá: no global.

E então a orquestra parou de repente. Estamos sendo chamados a compartilhar prejuízos dos quais não participamos da construção. Ao contrário, estávamos distraídos construindo nosso futuro quando a realidade mudou.

A música parou e agora ouvem-se ruídos, tudo desafinado. Entraram na partitura: o medo, a certeza das incertezas, a necessidade de nossos planejamentos, a revisão de projetos, fins de contrato, redução de equipes, férias sem planos, a intensa rádio corredor e os sussurros. A recomendação dos corredores é o silêncio, quanto mais desaparecidos melhor. Estamos naquele triste momento em que somos tentados a esconder todas as nossas humanidades para desempenharmos somente nossos “papéis” dentro das organizações. A dor está presente nos empregados e nos líderes. Todos agora fazendo parte de uma nova espiral, aquela onde falta uma música com o mínimo de harmonia.

E o que fazer? Como viver a dor? Como entender a dor? Ódio dos americanos que não pagaram seus créditos imobiliários? Não. Nossa consciência pode ir além. Entender que estamos numa oportunidade, num turning point. Independente da crise ser mais dolorida para uns do que para outros, todos nós estamos envolvidos num novo momento histórico: o momento de se dar conta dos limites e em que o papel das empresas se transforma. Limite da fantasia econômica que dominou a última década, do esgotamento do planeta, do fim da euforia do dinheiro de mentira, do consumo sem sentido, da incapacidade de pensar sistemicamente, do desperdício, da inconsistência de nosso sistema. Como e em que condições partiremos para a nova etapa, se ainda está para ser construída? Só precisamos ter claro que nós todos somos responsáveis por essa construção dos próximos passos. As vozes do consumidor, do cliente e dos empregados serão importantes, como foi a do eleitor na principal economia mundial, tão poderosa que parou a orquestra aqui no Brasil e no mundo todo.

E a comunicação, o que pode fazer por isso? A comunicação, como já sabemos,deixa de ser responsabilidade apenas de um departamento. A comunicação vem ganhando dimensões sistêmicas, envolvendo a cadeia produtiva e as comunidades da qual as empresas fazem parte. O papel das lideranças se acentua. Estão muitas vezes sofrendo e ao mesmo tempo precisam enxergar novas oportunidades. Mesmo que precisem mudar os planos, precisem demitir em algum momento, deverão ser capazes de motivar suas equipes. Há muito que já está difícil administrar as incertezas e a sobrecarga de trabalho.

A melhor alternativa é não fingir que estamos num momento especial. Mais uma vez a transparência e o diálogo são os trilhos seguros para dar sentido às dores que podem se seguir. Agir com consciência produzindo mais consciência. Uma comunicação fluida, que perceba que crise tem gestão e mais ainda, que crise contém oportunidades. Ela pode não estar visível, mas está ali. Mais do que nunca o momento exige uma comunicação de qualidade. Conversa. Falar e aprender a ouvir. É preciso agora uma comunicação que dê sentido à desaceleração, como acontece com as ondas do mar. Recua e toma força para nova onda.

Monitorar o clima, apoiar os que se vão, apoiar nosso próprio desânimo para sair em busca das alternativas. Elas sempre existem e não nos faltarão dessa vez. O Brasil definitivamente sentirá a crise, mas num momento da espiral que estamos mais confiantes no nosso protagonismo.

Comunicação é oxigênio, essa é a mensagem da Rebouças & Associados para todos que estão liderando em meio às transformações, procurando os novos ritmos confiando que, todos nós, às vezes precisamos de choques para aprender. E certamente a humanidade necessita se transformar profundamente para perceber que os velhos modelos não nos levarão à tão desejada sustentabilidade.

Menos, menos!

Uma forma de pensar e agir está se esgotando, vamos torcer pelo parto do novo mundo.

Nádia Rebouças é consultora de comunicação para transformação, diretora da Rebouças e Associados.

COMENTÁRIOS

Ciro Rolli 7/12/2008 às 16:49

O “parto” do novo mundo,está em andamento,e os médicos,parece que ainda não perceberam.
As autoridades(e os q comandam),calcadas ainda no capital e na produção,se debatem;penso que SEM FILOSOFIA,não conseguirão mesmo,conduzir a nova era…terão que se retirar desse cenário “REAL” de miséria e dor que ajudaram a construir.
As gerações vindouras,serão MAIS HUMANAS,e aí SIM…O belo se revelará.

SUSTENTABILIDADE É AMAR O PRÓXIMO!

cidadão e voluntário

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