Sobre Silvia Marcuzzo

Silvia Marcuzzo é jornalista e trabalha a temática socioambiental desde 1993. Já transitou em diversos “ecossistemas” e arranjos energéticos do jornalismo. Ao passar por assessorias de ONGs, governos e consultorias para empresas, em Porto Alegre, São Paulo e Brasília, sempre manteve a convicção de que é possível melhorar a relação entre os “ambientes” e a comunicação. Por isso, fundou a ECOnvicta Comunicação para Sustentabilidade.

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25/01/2012 às 13:05 (3 comentários)

A marcha sob outros ângulos

Fotos: Silvia Marcuzzo

A marcha do Fórum Social Temático – Crise Capitalista, Justiça Social e Ambiental sofreu com as condições climáticas em vários aspectos. Sob um calor escaldante, a manifestação foi puxada por ambientalistas preocupados com o agravamento do aquecimento global, seguidos pela turma da Fundação SOS Mata Atlântica que trouxe um ônibus de voluntários de São Paulo para chamar a atenção do que representa as mudanças na legislação ambiental. Em menos de 40 minutos do primeiro pingo, o sol irradiava gerando do lado oposto ao anfiteatro Por do Sol, a beira do Guaíba, um arco íris incompleto.

A cidade onde o Fórum Social Mundial foi realizado pela primeira vez, recebe um evento um pouco diferente daquele que moveu chefes de Estado e políticos “modernos”, de esquerda, centro esquerda, dez anos atrás. Desta vez, o Fórum trata de assuntos que nem ocupavam a programação da edição pioneira: a sustentabilidade, a situação da Mãe Terra e o que o Capitalismo tem a ver com isso.

No início deste século, houve gente da organização do Fórum que precisou ser convencida da importância da inclusão dessas questões. Afinal, Agenda 21, Convenção da Biodiversidade, preceitos estabelecidos na Rio 92 etc. eram (e infelizmente ainda são para muitos) encarados como pautas menos urgentes.

Cabe lembrar que o tripé da sustentabilidade foi defendido em uma programação paralela durante a segunda edição do Fórum. Na época, o evento “Um mundo sustentável é possível: Desafios da Sustentabilidade Planetária”- Fórum Preparatório Rio+10 foi realizado nos dias que precederam à intensa agenda do Fórum para abordar a importância do encontro que foi realizado em Johanesburgo, África do Sul, em 2002.

O primeiro parágrafo do manifesto do evento, que foi impresso e distribuído em quatro línguas – português, inglês, francês e espanhol – dizia: “Nós, representantes de 40 países reunidos no Fórum Preparatório da Rio+10, manifestamos a todos os participantes a importância de incorporar a questão da sustentabilidade ambiental nas discussões deste II Fórum Social Mundial. O mundo que exclui é o mesmo que destrói a base da Vida e da Natureza.”

Naquele tempo, o governo do Estado do Rio Grande do Sul tinha recém criado sua Secretaria de Meio Ambiente. A questão ambiental era considerada estratégica pela gestão de Olívio Dutra, onde Dilma ocupava o cargo de Secretária de Minas e Energia. Lula e Marina Silva eram ovacionados e muitos petistas e simpatizantes exibiam com orgulho a bandeira vermelha com estrela amarela (no RS, a estrela não é branca como em outros estados) pelas ruas de Porto Alegre.

Hoje, a marcha deu sinais de como o contexto mudou rápido daquele tempo pra cá. Tribos variadas, menos internacionais e mais brasileiras, menos locais e mais de fora, percorreram o trajeto até o final. Houve uma tímida participação de cidadãos porto-alegrenses em relação a outros anos.

O calor de “Forno Alegre” e a tempestade de verão talvez impediram a caminhada de políticos e lideranças, com raras exceções, é claro, como o deputado estadual do PT, Raul Pont, e o vereador da Capital gaúcha, Beto Moesch, do PP. Grande parte dos políticos, como o governador Tarso Genro, marcou presença na largada, próximo ao Largo Glênio Peres.

A marcha foi distinta da que presenciei em Belém, no Fórum Social Mundial de 2009, onde também a chuva alagou ruas e avenidas, e também dos demais Fóruns Sociais de Porto Alegre. Este ano não fui ao Centro, aguardei a passagem a partir do prédio do Departamento Autônomo de Estradas e Rodagem (Daer), depois da Ponte de Pedra, mais ou menos na metade do caminho. A partir dali notei que a empolgação por “outro mundo é possível” estava diferente. Quem sabe isso denote que sair às ruas como um ato político, de reivindicação, não seja mais tão festejado na terra do Grenal como nos tempos dos comícios lotados, que contavam com venda de estrelinhas, botons e bandeiras para o caixa de campanha.

As pessoas que acreditam num outro rumo, mais solidário e com mais sentido no fazer cotidiano, terão oportunidade de conferir atrações talvez mais emblemáticas que a de ontem, dia 24 de janeiro. A programação ocupa espaços além da margem esquerda do Guaíba: Novo Hamburgo, São Leopoldo, Canoas – todas, com exceção de Porto Alegre, administradas por governos petistas. Para uns, essa pulverização enfraqueceu o Fórum. Para quem trabalha na cobertura, é mais difícil acompanhar e ter uma noção do todo. Era muito confortável poder conferir a programação em locais concentrados, como na PUCRS ou na orla do Gasômetro.

Mas para quem vem participar sabe que o que vale mesmo é o contato com tanta gente diferente, caras da criatividade de tantas tribos incomodadas pela desigualdade e pela falta de ações sincronizadas em direção à sustentabilidade. Gente que faz a diferença no seu ambiente, que quer mostrar, trocar e aprender com os outros o quanto as ações de cada um interfere no contexto de um país, estado ou município. E, como base para rolar tudo isso, uma cidade que traz em sua história dias de glória em termos de mobilização popular oferece elementos para reflexão diante desse cenário 20 anos depois da Rio 92.

Se pelo menos os secretários municipais e estaduais, entre outros líderes, executivos e formadores de opinião, lerem e compreenderem as propostas formuladas pelos participantes do Fórum para a Cúpula dos Povos, que ocorrerá em junho de 2012 no Rio de Janeiro, paralelo à reunião de cúpula das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, o Fórum Temático já terá conseguido muita coisa, pois é a prática e não o discurso que convence e torna um outro mundo possível.

(Silvia Marcuzzo/Mercado Ético)

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Comentários

silvia marcuzzo - 26/01/2012 às 19:23

O grande destaque desse Fórum está nas capacitações em mídias digitais. Os encontros que vi, li ou fiquei sabendo continuam nos mesmos dilemas... Ou melhor, em alguns casos piorou muito... pois o retrocesso na gestão e na legislação ambiental está pra lá de assustador! Mas todos pintam como amiguinhos do verde.

Adriana Ramos - 26/01/2012 às 11:12

Finalmente o tema da sustentabilidade chega ao Fórum Social Mundial. Mais um grande desafio para o Fórum! Outro desafio será discutir um novo mundo possível com a presença massiva do governo federal, cuja lógica de governabilidade tem imposto limites esdrúxulos a esse sonho!

Lilian Dreyer - 25/01/2012 às 14:59

Realmente, quantas coisas mudaram nas duas décadas pós Rio-92, talvez mais ainda na última década após o primeiro FSM. A questão do ambiente, que era marginal também para muitos dos que sempre se preocuparam com a questão da desigualdade social, agora se coloca em destaque. O FST, ao priorizar o tema, indica uma evolução. Em meio a ambientalismos de fachada e posturas autenticamente novas, ficam as especulações sobre o que virá nos próximos dez anos... Uma pena que o Fórum em Porto Alegre se dê sempre nos piores dias do verão. Um calor às raias do revoltante. Quem sabe os administradores públicos venham a buscar meios de amenizar o problema nas próximas edições, para que tenham mais conforto as milhares de pessoas que buscam no Rio Grande do Sul um clima bom para refletir e agir.

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