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14/10/2009 - 17:51:18

A nova classe média

É a classe média dos países emergentes, uma massa de pessoas destinada a se duplicar até 2020. Do técnico em informática chinês ao negociante indiano. São eles que nos ajudarão a sair da crise. Amaldiçoamos-lhes até ontem, quando, com os seus consumos, mandaram às estrelas o preço do pão e do combustível. Mas amanhã iremos lhes agradecer, porque serão eles o fermento que nos tirará da mais grave recessão dos últimos 70 anos.

A reportagem é de Maurizio Ricci, publicada no jornal La Repubblica, 12-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um exemplo está em Pequim, onde, atrás da praça Tienanmen começa a Qianmen Dajie, a rua construída como devia ser há um século, onde o poder decidiu criar o perfil consumista do novo “chinês médio”. Às vésperas do dia 1º de outubro, como que por encanto, a Qianmen Dajie levantou a sua cortina estupefaciente. No mesmo instante, por ordem presidencial, foram inauguradas 103 lojas e 30 restaurantes. É aqui que o protagonista “do caminho chinês ao consumismo” poderá gastar de modo glorioso, porque fazer isso à moda asiática é acrescentar o indispensável patriotismo à contribuição ao crescimento global.

Entre 2007 e 2008, o preço mundial do leite cresceu 30%, o do trigo e o da soja, 80-90%, o petróleo chegou a 147 dólares por barril. Em grande medida, por causa da avalanche de nova demanda que chegava dos países emergentes. Hoje, em plena recessão, o boom dessas novas classes médias é uma ótima notícia. No Goldman Sachs, dizem que, no horizonte previsível, a grande pressa da população dos países emergentes, nem muito rica, nem muito pobre, moverá 57% do produto mundial, contra os 31% atuais (números em paridade de poder de aquisição, que é o que conta aqui: em dólares, hoje, estamos só em 15%). Só podemos esperar que o façam de verdade. Porque nós não podemos mais gastar. A ascensão das classes médias no ex-Terceiro Mundo é simétrica ao declínio das classes médias no Ocidente.

Agora, todos dizem que a crise atual é o resultado do colapso do consumidor norte-americano, envolvido em dívidas. Durante anos, o motor da economia mundial foram as importações de bens de consumo nos EUA. Mas os norte-americanos compravam a crédito, porque as suas rendas eram fixas. Branko Milanovic, do World Bank, nota que, nos últimos 20 anos, o salário norte-americano, sem contar a inflação, não se mexeu: metade dos incrementos da renda, entre 1976 e 2006, foram embolsados pelos 5% mais ricos.

Com a recessão que veta todo sonho de aumento do contra-cheque e a necessidade de sair das dívidas, os norte-americanos fizeram a única coisa possível: cortaram os consumos e começaram a economizar. Com o aumento das economias das famílias norte-americanas e a paralela diminuição dos seus consumos, faltam ao apelo da demanda mundial 400 bilhões de dólares, que, antes, eram gastos pelos cidadãos norte-americanos. Quem os coloca? É difícil que venham do resto do Ocidente.

Na Itália, diz o Banco da Itália, nos últimos 15 anos, o salário médio do trabalhador empregado cresceu 3,3% no total, sem contar a inflação. O único motivo pelo qual não se pode falar no nosso país, segundo a Via Nazionale, de encolhimento das classes médias é que houve um grande separação em seu interior, entre trabalhadores contratados e autônomos.

Em geral, a renda disponível cresceu, ainda sem considerar a inflação, 1,2% ao ano: mas 2,6% ao ano para os autônomos, 1,5% para os dirigentes, 1,6% para os pensionistas, 0,6% para os operários, 0,3% para os empregados e quadros de funcionários. E, também sem contar a renda, essas classes médias, nas palavras do Banco da Itália, se sentem mais “vulneráveis” diante da crise. Um quarto das famílias italianas obtém a sua renda, total ou parcialmente, de trabalhos precários. Cerca de 40% não dispõem, em caso de emergência, de recursos líquidos suficientes para se manter acima da linha da pobreza. A situação é melhor em outros países europeus, mas a recessão também os freia.

Resta o Resto do Mundo. Para sair da crise, defende o World Bank, “é preciso um novo motor de crescimento da demanda privada, e um provável candidato é o potencial de consumo ainda amplamente não explorado das classes médias em rápida expansão nos grandes países emergentes”. Em outras palavras, se a estagnação norte-americana e europeia impede as exportações para o Ocidente, China, Índia e os outros terão que estimular a demanda interna, alimentar o crescimento das suas classes médias. Mas quem são essas classes médias?

Esqueçam o técnico em informática chinês que compra uma BMW. Imaginem, pelo contrário, uma loja em Gulbarga, no Karnataka, Índia central. O relato é de Abhijit Banerjee e Esther Duflo, dois economistas do MIT. A loja é um canto da casa em que os proprietários moram. Tudo está em potes de plástico: um contém snacks, três expõem doces, dois têm grão-de-bico, mais 20 sachês de chá e três pacotes de sabão. No total, 22 produtos em oferta. Em duas horas, chegam dois clientes: um compra uma caixa de incenso, o outro, um cigarro solitário. Renda do negócio: entre dois e quatro dólares por dia. É aqui que o consumidor norte-americano será substituído e o mundo será salvo da recessão? A resposta é sim. Simplesmente (ainda) não há muitos técnicos em informática chineses para fazer massa. Para fazer girar a economia mundial, é preciso o exército dos negociantes de Gulbarga.

Os especialistas localizam, de fato, duas classes médias nos países emergentes. Se é verdade que classe média é, sobretudo, um estado de ânimo, as diferenças psicológicas podem ser modestas. Mas aqui nos interessa o dinheiro. A primeira classe média, com uma renda entre a brasileira (12 dólares por dia) e a italiana (50 dólares) é igual em aspirações, veleidades, desejos, possibilidades à do mundo desenvolvido. Cresce de forma maciça e rápida: 70 milhões de pessoas a mais a cada ano, segundo o Goldman Sachs, 20 excluindo a China e a Índia.

Mas ainda são muito poucas. Na Índia, entre 1995 e 2005, essa faixa passou de 2% a 5% da população. Atualmente, porém, quem dispõe de uma renda entre seis e 12 dólares por dia passou de 18% para 41% dos indianos. Segundo Martin Ravallion, do World Bank, entre 1990 e 2005, as pessoas com renda, de acordo com o poder de aquisição, entre dois e 13 dólares por dia passaram de 1,4 bilhões para 2,6 bilhões: eram um terço da população dos países emergentes; hoje são a metade. Na Índia, aumentaram de 147 milhões para 264 milhões. Na China, de 174 milhões para 806 milhões. Esses são os números que podem fazer a diferença.

Mas bastam pouco mais de dois dólares por dia (a linha da pobreza) para se pensar em consumos regulares e crescentes: carros, geladeiras, celulares? Em 2008, foram vendidos mais carros nos países emergentes do que nos EUA. Em 2007, havia mais celulares na Índia do que nos EUA. E, na China, eram o dobro. Trinta milhões de crianças chinesas, referiu o Economist, estão aprendendo a tocar piano. O Brasil é o primeiro no mundo em número de lipoaspirações, segundo lugar em cirurgias plásticas, quarto em quantidade de academias. Na realidade, enquanto a primeira classe média (aquela entre os 12 e os 50 dólares por dia) pode ser definida como a “classe média global”, a segunda (entre os dois e os 12 dólares) é “classe média nacional”, segundo os parâmetros de renda desses países.

O ponto central, mais do que os números exatos da renda, é superar aquela que Diane Farrell (do McKinsey, antes de fazer parte da equipe de Obama) localiza como a linha da classe média: ter ainda um terço da renda à disposição, depois de ter satisfeito as necessidades básicas, em matéria de teto e comida. Nesse ponto, pode-se começar a comprar o que se deseja, talvez começando pelos brinquedos e pelos dispositivos eletrônicos que, até ontem, eram exportados ao Ocidente. E continuando com a importação daquilo que o Ocidente tem a oferecer.

Se o desenvolvimento retornar a nós a partir dos países emergentes, porém, pagaremos o preço. Passada a recessão, será retomada a corrida das matérias-primas (do petróleo aos metais) e dos produtos alimentares. Outras coisas custarão mais caro, por causa da concorrência dos compradores do ex-Terceiro Mundo. Outras, menos, talvez porque também nós estaremos correndo para comprar o Nano, o carro indiano mais barato do mundo, a 2.500 dólares cada um. Afinal, já mudou a percepção das relações de força no mundo: a passagem da liderança global do G8 ao G20 não foi só uma graciosa homenagem da diplomacia. Goldman Sachs nos adverte: em 2050, em uma hipotética cúpula dos Sete Grandes da economia mundial, haverá um só país - os EUA - do atual G7. Os outros? China, Índia, Brasil, Rússia, Indonésia e México.

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(IHU On-Line)

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