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A produção biopolÃtica é constitutiva ao capitalismo cognitivo
“Os últimos anos do século XX imprimiram uma nova configuração à sociedade do trabalho. Assiste-se a mudanças profundas que alteram significativamente o modo produtivo e desorganizam o mundo do trabalho que se conhece. No epicentro do deslocamento, encontra-se a emergência da economia do imaterial e do trabalho imaterial. Essas caracterÃsticas estão modificando o modo produtivo e, mais do que isso, a relação do trabalhador com o seu trabalho. Estamos transitando da sociedade industrial para a sociedade pós-industrial, da sociedade do trabalho da reprodução à sociedade do trabalho da bioprodução. Uma passagem da reprodução da vida à produção da vida. Da sociedade do biopoder à biopolÃtica”.
A análise é de Cesar Sanson em artigo publicado na Liinc em Revista, Vol. 5, Nº 2 - 2009. ‘Capitalismo cognitivo em debate’ foi o tema da revista eletrônica, uma publicação do Laboratório Interdisciplinar em Informação e Conhecimento da Universidade Federal do Rio Janeiro (UFRJ). Cesar Sanson, doutor em sociologia do trabalho pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), é pesquisador do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (CEPAT), parceiro do Instituto Humanitas Unisinos (IHU).
Eis o artigo.
“Trinta anos atrás, em muitas fábricas, havia cartazes que intimavam: ‘Silêncio, aqui se trabalha!’. A principal novidade do pós-fordismo consiste em ter colocado a linguagem a trabalhar. Hoje, em algumas fábricas, podemos fixar dignamente cartazes invertidos aos de outros tempos: ‘Aqui se trabalha. Fale!” - Paolo Virno.
A descrição de Virno define o caráter da radical mudança que se processou no mundo do trabalho nos últimos anos. O capital em seu novo estágio de acumulação adotou uma cruzada contra o caráter monológico do trabalho. O que antes era ocultado agora precisa vir à superfÃcie, o que não era valorizado, enquanto ação individual ou grupal para melhorar o processo produtivo, tornou-se central na nova forma de organizar o trabalho.
No capitalismo clássico, o trabalhador é encerrado em uma “jaula de ferro”, expressão de Weber, reapropriada por Sennett (2006). As suas caracterÃsticas pessoais são desconsideradas, o seu conhecimento é desqualificado, o seu saber não é reconhecido e a sua subjetividade é dispensada. O trabalhador entra no processo produtivo como um “acessório da oficina capitalista” descreve Marx (1985 vol. I: 283). Na fábrica, ele se torna um numerário, sem rosto e sem fruição a ser manifestada. A sua energia fÃsica é consumida, o seu tempo de trabalho é roubado e o seu conhecimento, quando exigido, é usurpado. Coisificado e assujeitado, assim é o trabalhador da sociedade industrial. Assim como a mercadoria, produto do trabalho fordista é estandardizada, o trabalhador também é estandardizado.
Em contraponto ao trabalhador calado do modo de produção do capitalismo fordista, o capitalismo cognitivo, em sua versão pós-industrial, demanda um trabalhador comunicativo. Agora se pede ao trabalhador que se disponha a inventar e a produzir novos procedimentos cooperativos, que colabore, que se explicite, apresente idéias. “É a alma do operário que deve descer na oficina”, afirmam Lazzarato e Negri (2001) acerca da nova exigência do capital. É a sua personalidade, a sua subjetividade que deve ser organizada e comandada.
Assiste-se a uma ruptura da concepção de trabalho da sociedade industrial. Na sociedade fordista do capitalismo industrial, o trabalho insere-se na esfera da reprodução, está preconcebido e atende a um padrão tecnológico e organizacional estruturado de antemão. As tarefas são rotineiras, repetitivas, e podem ser pré-codificadas e programadas para que as máquinas as executem. A relação homem/máquina é despojada de qualquer enriquecimento. Trata-se de uma relação racionalizada por procedimentos que manifestam uma interação mecanicista. O saber operário não é reconhecido, ou apenas parcialmente, por encontrar-se circunscrito nos padrões pré-estabelecidos pela máquina. Há um limite interposto pelo ‘saber morto’ objetivado na máquina que bloqueia a possibilidade do ‘saber vivo’ do operário. Na sociedade industrial da manufatura e do fordismo, a relação com a produção faz-se silenciosamente, pois a máquina-ferramenta não permite uma interação colaborativa.
Agora, com a introdução das Novas Tecnologias da Comunicação e Informação (NTCI), as mudanças são significativas. Cada vez mais a valorização do trabalho repousa sobre o conhecimento, sobre a capacidade de interação com a máquina, superando a mera subordinação. Trata-se do que Corsani (2003) denomina de “sistema de produção de conhecimentos por conhecimentos”. É nesse sentido que a forma de trabalhar associada ao capitalismo cognitivo é vista como a passagem de uma lógica da reprodução para uma lógica da inovação, de um regime de repetição a um regime de invenção.
Se no capitalismo industrial há rigidez, uniformidade e padronização no modo produtivo e demanda-se um trabalhador especializado, fragmentado, parcelizado e não qualificado, no capitalismo cognitivo, pede-se um trabalhador comunicativo, participativo, polivalente, flexÃvel, capaz de realizar múltiplas tarefas que, com o seu conhecimento enriqueça o processo produtivo e faça da comunicação com os outros um recurso permanente.
A sociedade industrial cindiu o trabalhador, o seu todo corpóreo, mente e corpo, e reduziu-o a uma máquina produtiva. O modelo fordista do trabalho é exemplar na demonstração da cisão do todo corpóreo do trabalhador, onde a inteligibilidade, a qualidade intelectual, é um recurso pouco aproveitado. Houve uma separação entre o trabalho intelectual e o trabalho manual, entre o trabalho de criação e o trabalho de consecução. Hoje, essa concepção de produção está sendo superada. O conceito de força de trabalho, na sociedade pós-industrial, retoma a essência do seu significado, ou seja, a compreensão de que a força de trabalho é um todo corpóreo, reúne todas as faculdades, da força fÃsica à competência lingüÃstica.
Na nova forma de se organizar o trabalho e ativá-lo, busca-se a reconquista da parte do trabalho vivo que o desenvolvimento histórico do capitalismo tentou aniquilar. Ao capital da sociedade pós-industrial interessa a mercadoria do corpo não apenas como unidade biológica, mas como corporalidadade social, ou seja, aquilo que ele reúne em si, como parte integrante de uma capacidade produtiva maior, que se reúne no intelect generall - o cérebro social de que fala Marx. São o conhecimento, a competência lingüÃstica, a cooperação singular que agregam valor ao processo produtivo. Como destaca Vercellone (2005: 20), “a maior transformação que, após a crise do fordismo, marca uma saÃda do capitalismo industrial, encontra-se precisamente no forte retorno da dimensão cognitiva e intelectual do trabalho”. Mais do que nunca, o capital procura reconciliar o que um dia foi separado, tornar único o todo do trabalhador, reunir as suas aptidões fÃsicas com a sua “vida da mente” como diz Virno (2002). A “vida da mente” é cada vez mais solicitada no envolvimento com o cotidiano do chão de fábrica.
Em sÃntese, a sociedade industrial, taylorista-fordista, mobilizou massas enormes de trabalhadores e os empurrou para uma divisão técnica do trabalho que lhes reservava tarefas simples e repetitivas. O operário fordista é duplamente massificado, pela reincidência diuturna a que é submetido num processo produtivo estandardizado e pela negação de suas caracterÃsticas pessoais, subjetivas. Essa sociedade, entretanto, está em reviravolta, embora ainda homogênea, a essência da sua forma de organizar a produção é empurrada cada vez mais para a periferia do núcleo propulsor do novo capitalismo. Estamos transitando da sociedade industrial, fordista, para a sociedade pós-industrial, pós-fordista, e o trabalho, o sujeito do trabalho e a subjetividade manifesta no trabalho passam por mutações significativas. Assim como a Revolução Industrial foi o gérmen de um novo tempo, a sociedade pós-industrial anuncia uma tendência que tende a tornar-se hegemônica.
A marca distintiva, que caracteriza a sociedade pós-industrial ou pós-fordista, é a emergência da economia do imaterial e do trabalho imaterial. O trabalho imaterial ainda não se apresenta hegemônico quantitativamente, mas já o é qualitativamente. Poder-se-ia afirmar que se encontra hoje em posição semelhante à que estava o trabalho industrial há 150 anos Na sociedade pós-industrial, o conhecimento, a comunicação e a cooperação (Negri/Hardt: 2001), ativados sobretudo pela Revolução Informacional, mas não apenas, passam a ser considerados os principais recursos demandados ao sujeito do trabalho, algo que na sociedade industrial era renegado.
A nova forma de organizar o trabalho colocou no centro do processo produtivo os recursos imateriais. A lógica do capital é apropriar-se desses recursos que se desenvolvem como qualidades subjetivas e subordiná-las ao seu projeto. O caráter “revolucionário” do trabalho imaterial, segundo Negri (2001), Virno (2002) e Gorz (2005), entre outros, repousa no fato de que as formas centrais de cooperação produtiva já não são criadas apenas pelo capitalista como parte do projeto para organizar o trabalho, mas, emergem das energias produtivas do próprio trabalho, ou seja, o sujeito do trabalho joga um papel decisivo como parte integrante da própria forma de organizar o trabalho.
A principal fonte do valor reside agora na criatividade, na polivalência e na força de invenção dos assalariados e não apenas no capital fixo, a maquinaria. A capacidade de interação, de iniciativa, de disponibilidade, de ativação, é requerente no modo de ser no trabalho das empresas, e o trabalhador não deve se contentar em reproduzir as capacidades predeterminadas e prescritas para o posto de trabalho que ocupa, mas sim desenvolver-se como um produto que continua ele mesmo a se produzir. Na nova forma de organizar o trabalho são solicitados, aos trabalhadores, os requisitos da mobilidade, da flexibilidade, da adaptabilidade, a capacidade de interação, de disposição lingüÃstica, o talento comunicativo. O trabalho requer um engajamento total do trabalhador. Pode-se falar em uma prescrição da subjetividade orientada pela mobilização e engajamento de todas as faculdades e os recursos que podem ser extraÃdos e oferecidos pelo sujeito do trabalho.
Se na sociedade industrial, o trabalho situa-se fora do operário e encerrada a jornada, o trabalho fica na fábrica; agora, o trabalho subsume toda a pessoa, invade todo o seu ser, não é mais exterior, mas foi interiorizado, é constitutivo ao operário. O tempo do não trabalho confunde-se ao tempo do trabalho, ocorrendo uma mudança na relação do sujeito com a produção e o seu próprio tempo. É nesta perspectiva que se pode falar que o trabalho imaterial se contrapõe à teoria marxiana da mais-valia ou, antes de tudo, exige uma atualização de sua teoria. A novidade está relacionada aos parâmetros utilizados para definir o valor de uma mercadoria. Na teoria marxiana, o que determina o valor de uma mercadoria é a quantidade de trabalho despendido para produzi-la, mais especificamente, a média do tempo utilizado de acordo com o grau de desenvolvimento das forças produtivas. No trabalho imaterial, o tempo de trabalho já não é necessariamente medido, pois tempo de trabalho e tempo de não trabalho confundem-se, sua linha divisória é tênue.
O plus do trabalhador ativado por seus recursos imateriais é considerado central no novo modo produtivo e essencial na organização da força de trabalho. O modo produtivo pós-industrial requer o engajamento do trabalhador, que ele hipoteque sua subjetividade no trabalho. Agora, já não basta um trabalhador convencional que cumpra apenas a sua jornada de trabalho e ponto final. O que se exige é um trabalhador que “vista a camisa” da empresa, que a incorpore em sua vida, e a ela dedique o melhor de suas energias fÃsicas e intelectuais. Como diz Linhart (2006: 09), “os administradores pedem para seus funcionários serem os militantes incondicionais da empresa, mostrando lealdade, disponibilidade, além de competência”.
Na sociedade pós-industrial, assiste-se a uma transformação do sujeito na sua relação com o trabalho. Sob a hegemonia qualitativa do trabalho imaterial, tendo em sua base o conhecimento, a comunicação e a cooperação, emerge uma outra subjetividade, que ao mesmo tempo em que é requerida pelo capital, apresenta traços de certa autonomia. O valor do trabalho, na sociedade pós-industrial, apresenta-se cada vez mais de forma biopolÃtica. O capital investe cada vez mais no indivÃduo e não no coletivo, investe na crescente individualização do trabalho, explora as capacidades cognitivas de cada um, e o singular assume o caráter do diferencial nos ganhos de produtividade.
O capital investe na bios - na vida - do trabalhador e, também por isso, se afirma que a resposta à dominação pode ser biopolÃtica no sentido foucaultiano, ou seja, as mesmas capacidades ativadas pelo capital podem voltar-se contra ele. Se por um lado é na bios - na vida do trabalhador - que o capital investe procurando ativar os recursos imateriais próprios de cada operário na perspectiva de que esses recursos sejam disponibilizados ao capital, por outro, eles também assumem um caráter permanente de produção de si, isto é, essa mesma subjetividade prescrita pelo capital, também resulta em “produção de si”, e é nesse sentido que se fala que a produção é biopolÃtica - carrega consigo elementos que podem abrir caminhos para a transformação do próprio sujeito do trabalho.
É o percurso transitivo da sociedade da disciplina para a sociedade do controle e do conceito do biopoder à biopolÃtica, que contribui para a análise da gênese da nova forma do capital cognitivo organizar o trabalho. Negri (2003: 180), tomando como referência Foucault, afirma que “o sujeito é o produto diferente das diversas tecnologias em jogo em cada época: elas são, ao mesmo tempo, as do conhecimento e do poder. Cada sujeito, é pois, o resultado de uma subjetivação”. O sujeito na perspectiva foucaultiana é aquele, portanto, que se afirma em oposição ao poder dominação; melhor ainda, é aquele que se constitui no antagonismo e no interstÃcio à exploração a que é submetido.
A sociedade disciplinar, própria do capitalismo industrial, foi aquela na qual o comando social, em suas diversas formas, é construÃdo mediante uma rede difusa de dispositivos ou aparelhos que produzem e regulam os costumes, hábitos e as práticas produtivas. Consegue-se colocar em funcionamento essa sociedade, e assegurar a obediência a suas regras e mecanismos de inclusão e/ou exclusão, por meio de instituições disciplinares - aqui entra a fábrica - que estruturam o terreno social e fornecem explicações lógicas adequadas para a ‘razão’ da disciplina. O poder disciplinar se manifesta, com efeito, na estruturação de parâmetros e limites do pensamento e da prática, sancionando e prescrevendo comportamentos normais e/ou desviados. A sociedade industrial serve-se de mecanismos de vigilância hierárquica e de sanções normalizadoras que homogeneÃzam procedimentos e comportamentos - instaura-se um verdadeiro panóptico social. Espera-se de cada um, e de todos, determinado comportamento. Essa é a ‘jaula de ferro’ de que nos fala Sennett (2006), em alusão a Weber.
Nessa sociedade industrial interessa ao capital, sobretudo, o corpo do trabalhador naquilo que ele reúne de potência produtiva. Esse corpo torna-se um objeto governável, não por seu valor intrÃnseco, mas porque é o substrato da única coisa que verdadeiramente importa - a força de trabalho como produtora de riquezas, mercadorias. A sociedade disciplinar, para além de um controle sobre o sujeito produtivo, assume também um caráter mais amplo que redunda em um controle sobre a vida, um poder externo que submete a vida a padrões predeterminados. É nesse sentido que Foucault (1999) sofistica o seu conceito de poder disciplinar e fala em biopoder - o poder sobre a vida. O biopoder “não suprime a técnica disciplinar simplesmente porque é de outro nÃvel, está noutra escala, tem outra superfÃcie de suporte e é auxiliada por instrumentos totalmente diferentes” (FOUCAULT: 1999: 289). O poder disciplinar e o biopoder reforçam-se mutuamente. O poder disciplinar exerce-se sobre os corpos individualizados, já o biopoder encontra-se disseminado e concentra-se no Estado que pretende controlar, administrar e determinar o corpo da população, o corpo social.
Porém, o biopoder se estende, alarga-se e assume o caráter da sociedade de controle, que pode ser caracterizada por uma intensificação dos aparelhos de normalização de disciplinariedade que animam “internamente nossas práticas diárias e comuns, mas, em contraste com a disciplina, esse controle estende bem para fora os locais estruturados de instituições sociais mediante redes flexÃveis e flutuantes” (HARDT, NEGRI, 2001: 42-43). A sociedade do controle assume um caráter difuso, já não tem mais necessariamente um centro irradiador que determina e estabelece padrões de conduta. A novidade é que aquilo que antes era prescrito por um poder normatizador, passa a ser assumido pelo conjunto da sociedade, é internalizado. Se na sociedade disciplinar, o modelo do panóptico é hegemônico e significa que todos estão sendo vigiados, na sociedade do controle esta vigilância torna-se difusa.
A sociedade disciplinar manifesta-se essencialmente a partir de referências institucionais claras: o quartel, a escola, a fábrica. A sociedade do controle, por sua vez, está em todos os lugares ao mesmo tempo. Na sociedade pós-industrial, o poder sobre a vida, o biopoder é exercido não mais de cima para baixo, mas de baixo para cima. A sociedade do controle assume a expectativa de que os indivÃduos internalizem atitudes, condutas e comportamentos. É com isso que o capital conta. Não é mais necessário prescrever condutas, normas, procedimentos de fora para dentro. Espera-se que o próprio indivÃduo assuma para si, como responsabilidade individual, aquilo que anteriormente era imposto, que a disciplina seja incorporada de forma “espontânea”. A sociedade do controle diz respeito a uma transferência de responsabilidades.
Exemplifiquemos: nas modernas fábricas da sociedade pós-industrial, o desenvolvimento da atividade laboral não é mais necessariamente imposto, sugere-se que seja auto-imposto. Não se tem mais o supervisor, espera-se agora que cada um controle o seu trabalho. O mesmo vale para o conceito de qualidade total: não é o outro que inspeciona o que produzo, mas a cada um é exigida a responsabilidade pela qualidade do que produz. Ainda mais: as empresas procuram fazer com que a sua missão seja internalizada individualmente pelos trabalhadores.
A sociedade do controle, porém, revela-se também como a transição do biopoder para a biopolÃtica, e aqui reside a novidade. A biopolÃtica é uma resposta ao biopoder, à quilo que escapa à sociedade do controle, é a idéia de uma produção de poder a partir do poder que se exerce. A extensão dos biopoderes “abre uma resposta biopolÃtica da sociedade: não mais os poderes sobre a vida, mas potência da vida como resposta a esses poderes; em suma, isso abre à insurreição e à proliferação da liberdade, à produção de subjetividade e à invenção de novas formas de luta” (NEGRI, 2007). O autor, a partir da (re)leitura de Deleuze do próprio Foucault, inclina-se a interpretar a biopolÃtica com um poder que se expressa pela própria vida, não somente no trabalho e na linguagem, mas também nos corpos, nos afetos, nos desejos da sexualidade, caracterizando, dessa forma, o lugar de emergência de uma espécie de anti-poder, da produção de subjetividade.
Tem-se aqui uma distinção entre biopoder e biopolÃtica: “Fala-se em biopoder quando o Estado expressa comando sobre a vida por meio de suas tecnologias e de seus dispositivos de poder. Contrariamente, fala-se em biopolÃtica quando a análise crÃtica do comando é feita do ponto de vista das experiências de subjetivação e de liberdade, isto é de baixo” (NEGRI, 2003: 107).
Quando relacionado ao tema do trabalho, Negri e Hardt (2005: 135) afirmam que o “biopoder situa-se acima da sociedade, transcendente, como uma autoridade soberana, e impõe a sua ordem. A produção biopolÃtica, em contraste, é imanente à sociedade, criando relações e formas sociais através de formas colaborativas de trabalho”. Algo semelhante afirma Gorz (2005), quando diz que trabalhar é produzir-se. Quando se pensa, portanto, no trabalho na sociedade pós-fordista, e particularmente sob a hegemonia do trabalho imaterial, a força de trabalho já não é mais conduzida apenas pelo biopoder, mas se manifesta também como biopolÃtica. Ao requerer o engajamento do trabalhador, o comprometimento da sua subjetividade, no processo produtivo e procurar colocá-lo sob sua dinâmica (biopoder), produz-se também a biopolÃtica, ou seja, a subjetividade prescrita transforma-se também em produção de subjetividade. E, é essa subjetividade, produzida nas singularidades, que permite a produção do comum (the common), base da multidão,
Quer-se dizer que a nova forma de organizar o trabalho abre a possibilidade da conquista de uma autonomia maior, uma vez que os recursos imateriais, disponibilizados no processo produtivo são também ganhos e aquisição dos próprios trabalhadores. Como destaca Negri (2003: 263), o valor do trabalho, na sociedade pós-industrial, apresenta-se de forma biopolÃtica, no sentido de que “viver e produzir tornaram-se uma só coisa, e o tempo de vida e o da produção se hibridaram sempre mais”. A forma de organizar o trabalho, na sociedade pós-industrial/pós-fordista, traz dentro de si o antagonismo que pode fundar as novas lutas sociais. O trabalhador pós-fordista, ao entrar no processo de produção, não se apresenta apenas como possuidor de sua força de trabalho hetero-produzida - ou seja, capacidades predeterminadas impostas pelo empregador -, mas como um produto que continua, ele mesmo, a se produzir.
A produção de capital é hoje em dia também produção da vida social - produção de biopolÃtica. Na medida em que o capital instiga o trabalhador a disponibilizar todos os seus recursos (lingüÃsticos, de comunicação, de interação, de cooperação) com o objetivo de subordiná-los à sua lógica, tem-se também um processo inverso. Esses mesmos recursos servem aos trabalhadores para o seu crescimento pessoal e para o enriquecimento de suas relações sociais, logo, assim, como servem ao capital, criam mecanismos de resistência a ele.
Por outro lado, são os recursos imateriais - o conhecimento, a comunicação e a cooperação, que dão conteúdo ao comum, isto é, a multiplicidade de atividades sempre mais cooperativas dentro do processo de produção. Como afirmam Negri e Hardt (2005: 195), “o aspecto central do paradigma da produção imaterial que precisamos apreender é a sua relação Ãntima com a cooperação, a colaboração e a comunicação - em suma, sua fundamentação no comum”. O comum seria aquilo que pode ser identificado em cada trabalhador, mas também no conjunto deles, aquilo que é partilhado.
O processo produtivo da fábrica pós-fordista, com todas as contradições que encerra, vale-se de uma tendência de exploração das potencialidades singulares dos trabalhadores, a capacidade cognitiva, colaborativa e relacional é ativada na produção através de arranjos institucionais (reuniões, grupos de discussão, troca de informações) e arranjos produtivos (máquinas que demandam atualização e acréscimos). É nesse sentido que se pode falar que os trabalhadores são individualizados e o plus que cada um disponibiliza, somado aos dos outros, cria uma base produtiva comum.
É esse comum que é explorado pelo capital, que se manifesta como “expropriação por parte do capital do excedente expressivo e da cooperação do trabalho vivo”. Esse mesmo comum, entretanto, acionado pelo capital, pode ser a base de outra lógica: o comum não apenas como fundamento do capital, mas como sustentáculo de um projeto de emancipação dos trabalhadores naquilo que diz respeito aos seus interesses. É no comum que se encontra a base de exploração, mas ao mesmo tempo, a subjetividade de resistência que se configura na multidão.
O comum é a base da multidão. É a multiplicidade de subjetividades que dá conteúdo à multidão. A multidão designa um sujeito social ativo, que age com base naquilo que as singularidades têm em comum. Segundo Negri e Hardt (2005: 140) “é um sujeito social internamente diferente e múltiplo cuja constituição e ação não se baseiam na identidade ou unidade (nem muito menos na indiferença), mas naquilo que tem em comum”. Embora se mantenha múltipla e internamente diferente, a multidão é capaz de agir em comum.
Dois séculos de Revolução Industrial possibilitaram que se compusesse uma subjetividade do sujeito do trabalho que desaguou na constituição da classe operária e em determinadas formas de luta. Agora, acredita-se que as mutações do capital levarão a classe a uma outra configuração e a um outro patamar de lutas. Sugere-se que a classe assumirá a identidade de multidão.
Todos os aspectos da exploração do trabalho, contidos na sociedade industrial, continuam presentes e até mesmo pode-se afirmar que a intensificação no trabalho é superior ao perÃodo anterior. Porém, a produção biopolÃtica - de um capital que investe na vida, no corpo fÃsico e intelectual do trabalhador - é portadora das possibilidades de uma subjetividade que pode recolocar a luta social em outro patamar. A classe, no caso, transforma-se em multidão, porque a possibilidade de superação e oposição ao capital far-se-á cada vez mais pela capacidade dos trabalhadores tornarem comum - num projeto coletivo - os recursos imateriais que hoje são apropriados e/ou expropriados pelos donos do capital. Aqui reside um potencial enorme de alargamento de uma subjetividade emancipatória.
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Para ler mais:
- O trabalho no capitalismo contemporâneo. A nova grande transformação e a mutação do trabalho. Revista IHU On-Line - edição 216, 23-04-2007.
- O capitalismo cognitivo e a financeirização da economia. Crise e horizontes. Revista IHU On-Line - edição 301, 20-07-2009.
- O mundo do trabalho e a crise sistêmica do capitalismo globalizado. Revista IHU On-Line -edição 291, 04-05-2009.
- O Império e a Multidão no contexto da crise atual. Entrevista especial com Giuseppe Cocco
- A passagem do capitalismo material ao imaterial cognitivo e a crise da representação polÃtica. Entrevista especial com Judith Revel
- Capitalismo cognitivo e trabalho imaterial. Entrevista com Maurizio Lazzarato
Superar a Sociedade Salarial, segundo André Gorz - ‘Nós somos os homens novos. A ruptura já se deu’, afirma Antonio Negri
- Uma contribuição sobre Foucault. Entrevista com Antonio Negri
- BiopolÃtica, biopoder e o deslocamento das multidões. Entrevista especial com Leonora Corsini
(IHU on-line)
