20/06/2012 13:56:48
Henrique Andrade Camargo, do Mercado Ético
Ladislau Dowbor é o tipo de figurinha carimbada em eventos que discutem assuntos como desenvolvimento sustentável, economia verde e crise financeira global. Obviamente não poderia estar de fora da Rio+20, que, segundo ele, tem um papel importantÃssimo no que diz respeito a contribuir para o aumento da consciência planetária sobre os assuntos de maior importância do momento, como a própria crise financeira e a crise socioambiental.
Nesta entrevista exclusiva, o economista professor da PUC de São Paulo e consultor de diversas agência das ONU fala dos pontos positivos proporcionados pela conferência da ONU, mas também da sua incapacidade em dizer como o que deve ser feito será de fato feito. De qualquer forma, sociedade e empresas já se movem, como mostra o estudo Painel de Transição Verde, produzido pelo Ethical Markets, grupo do qual Dowbor é embaixador na Rio+20 e o Mercado Ético faz parte.
Leia a entrevista abaixo.
Mercado Ético - O senhor disse que a Rio+20 atingiu um outro patamar de discussão. É isso mesmo? O evento está contribuindo para a construção de um mundo melhor?
Ladislau Dowbor - Já na Rio 92, quando participei do evento, organizei a exposição de tecnologias ambientais, que paralela ao encontro oficial. Lembro de uma reunião com o Maurice Strong, que era o secretário da conferência. E mesmo antes de sua realização, já sabÃamos que seria um sucesso. Nem tanto pela elaboração das agendas, pelo impacto mundial do livro Nosso futuro comum, mas sobretudo porque todo o mundo começou a discutir meio ambiente. Isso eleva o nÃvel de consciência e se transforma em pressão real em cima das empresas, dos governos, em conteúdos nas universidades… Mas as pessoas se esquecem que antes da Rio-92, quem falava de meio ambiente era visto como bicho-grilo, gente que gosta de borboleta, tartaruga e coisas do gênero. Pararam de fazer piada. O meio ambiente se tornou elemento central. A Agenda 21 passou a ter um peso real. A elaboração desse documento e das convenções do clima e da biodiversidade gerou um horizonte para o planeta, mas não gerou os instrumentos para a sua implementação. Sobretudo, estamos em plena euforia do neoliberalismo, da globalização, em que novas tecnologias permitem a extração de muitos recursos naturais, gerando uma prosperidade, mas com pernas muito curtas. Então, nessa era podemos falar de uso inteligente dos recursos, em redução do conteúdo dos recursos naturais por valor, em redução da contaminação, em menos quÃmica no campo… Nada disso tinha espaço. Era todo o poder para as empresas, a Margaret Thatcher dizendo “there’s no alternative“, o outro infeliz dos Estados Unidos (Francis Fukuyama) dizendo que “a história acabou”… Nessa impotência de implementação, chegamos à Rio+20, que tem como eixo na mesa central o “como”. Como é que a gente passa para a ação? Não precisamos refazer a agenda da água, da floresta etc. Os dados estão aÃ, com algumas coisas muito mais graves do que se imaginava. E o resultado é esse. É uma conferência muito centrada em quem vai financiar, de onde virá o dinheiro e como será feita a implementação.
ME - Mas esse assunto de quem vai financiar ainda está meio obscuro. No documento final que será entregue aos lÃderes de estado e de governos, não há nada sobre um fundo de transição sustentável.
LD – Mas a Rio+20 está contribuindo para uma tomada de consciência, já que no planeta todo está se discutindo isso. E do outro lado tem a crise financeira. Isso abre duas vertentes. O sistema financeiro planetário está em um virtual colapso. Essencialmente por irresponsabilidade, por processos especulativos, por falta de governança e de transparência. Em muitos casos, por ilegalidade e fraude. Então isso gera uma fragilidade de respostas financeiras. Acho que as pessoas devem analisar a proporção das coisas. Está se discutindo muito sobre (o fundo de) 30 bilhões de dólares para resolver os problemas sociais e ambientais do planeta, quando, só para salvar um grupo de bancos na Espanha, mobilizou-se 100 bilhões de dólares. Isso é absolutamente uma piada.
ME - Quando a crise financeira internacional estourou, da noite para o dia o G20 levantou trilhões de dólares para salvar o sistema financeiro mundial.
LD – Exatamente. Você tem um desnÃvel radical entre o tipo de mudança de governança de sistemas financeiros, de informação e de gestão, que são necessários para que as coisas comecem a andar. Mas há a extrema timidez dos governos. Além disso, a fortÃssima pressão dos sistema financeiro e das corporações para que não se faça nada.
No conjunto, sou bastante pessimista. Acho muito bom ter feito a conferência, porque contribui para uma tomada de consciência planetária mais ampla. Mas, na realidade, não é daqui que vai sair um processo que estabeleça uma nova instituição planetária forte na ONU, recursos que deveriam ser de centenas de bilhões de dólares, enfim, esse tipo de mudança, à altura dos desafios presentes, acho muito difÃcil que aconteça.
ME - Acha que vai acontecer em algum momento?
LD – Vivemos uma convergência de crises. Por exemplo, o desmatamento. Por que está se desmatando mais? Como a madeira nobre está acabando, seu preço está subindo uma barbaridade. E como novas tecnologias permitem extrair a madeira de forma muito barata, o lucro é fenomenal. O resultado é que a pressão das grandes corporações para acabar com a madeira será muito grande. Do lado da desigualdade social, que é outro grande iceberg que nosso Titanic tem pela frente, temos uma financeirização da economia, que se tornou no sistema especulativo mundial, mas não temos um Banco Central mundial. O resultado é uma absoluta desregulamentação dos sistemas financeiros, que está permitindo uma fantástica concentração de renda, aumento da desigualdade. Isso não brincadeira. Temos 1 bilhão de pessoas passando fome, entre 10 e 11 bilhões de crianças que morrem de fome por ano. E tem mais. Os pobres não são mais os pobres de antigamente, resignados fatalistas. Eles estão sabendo que podem ter acesso à saúde, a uma educação descente para seus filhos. Não são apenas os árabes que estão levantando a cabeça. Veja os Ãndios na BolÃvia, enfim, por toda a parte. Acrescente a isso o caos financeiro causado pelas grandes corporação, que extraem muito mais do que contribuem. A convergência desses processos prepara tragédias. Há um conjunto de processos crÃticos não enfrentados. Hoje, já sentimos que a água subiu até nossa cintura. Provavelmente quando chegar na garganta, as pessoas vão dizer que precisam fazer alguma coisa.
ME - Por outro lado, há o estudo Painel de Transição Verde, do Ethical Markets, grupo do qual o senhor é embaixador aqui na Rio+20 e também o Mercado Ético faz parte. Ele mostra que investimentos na economia verde estão aumentando: já são 3,3 trilhões de dólares nesse segmento.
LD - Esse é um estudo muito interessante e mostra muito bem esse processo. Há uma série de corporações no mundo que estão tomando medidas ambientais interessantes. No geral, são aquelas empresas que descobriram que as matérias primas que dão dinheiro a eles estão acabando. A Vale usa uma quantidade imensa de água. A contaminação está gerando problemas imensos. Estive com eles e, com poucas medidas, segundo declaração da empresa, conseguiram diminuir em 70% o consumo de água. Isso, para uma empresa como a Vale, significa milhões de metros cúbicos em recursos hÃdricos. Do lado financeiro, é muito interessante. Grande parte dos recursos aplicados nos chamados papéis podres está preocupada, legitimamente. Eles entenderam que estão investindo dinheiro de trabalhadores, que deveria financiar a aponsentadoria deles, em papéis podres. Isso está ruindo. Os derivativos emitidos no planeta são da ordem de 600 trilhões de dólares, para um PIB mundial de 63 trilhões. Então, muito investidores institucionais estão começando a pensar que “esse pessoal verde não é tão desinteressante assim”.
(Mercado Ético)