26/06/2012 21:43:06
Henrique Andrade Camargo, do Mercado Ético
A sociedade civil organizada diz que o documento final da Rio+20 foi um estrondoso fracasso. Para esse grupo, lamentavelmente não se chegou a nenhum acordo ambicioso no que se refere à transição a uma economia realmente verde. Já os representantes da ONU e da maioria das delegações dos países participantes dizem que foi um sucesso – para alguns, um grande sucesso -, pois mostrou um forte compromisso político dos chefes de Estados e de Governos.
E você aí do outro lado da tela, vendo um grupo de pessoas decidindo assuntos que irão impactar diretamente a sua vida, o que acha de tudo isso?
Agora que a conferência da ONU passou, tenho feito essa pergunta a muitas pessoas. Quase todas classificam o resultado do encontro como ruim (não exatamente com esse adjetivo, mas com um palavrão que, devo admitir, expressa melhor a ideia). Uma amiga disse que para se chegar a um documento pobre daqueles, não era preciso reunir 190 delegações de países no Rio de Janeiro. Para ela, foi um desperdício de tempo e dinheiro. “Talvez uma troca de emails fosse o suficiente”, brincou.
Será?
A meu ver, a Rio+20 foi exatamente do jeito que tinha que ser e estava planejada para ser. ONGs reclamam com muita razão dos resultados finais alcançados, assim como reclamariam, também com razão, se o acordo fosse ambicioso. Um dos papéis dessas organizações é justamente esse: pressionar. Se está ruim, pressionam para ficar menos pior. E se está bom, para ficar ainda melhor. Esse grupo nunca pode estar satisfeito. Se estiver, algo está errado.
Já os chefes de nações… o que dizer deles? Diante do quadro político mundial, acho surpreendente que tenham chegado a um consenso, que se refletiu em um documento de 49 páginas. Ficaria surpreso até mesmo se fosse apenas uma página assinada de comum acordo por todas as delegações.
Foi o acordo necessário para dar impulso à economia verde? Não! Mas aqui também é preciso fazer o exercício de imaginar o que querem os “donos do poder”. A resposta está na ponta da língua: “continuar no poder”. Eles estão preocupados com as próximas eleições. Querem se reeleger ou eleger um sucessor. Vale tudo nessa briga, até beijar o capeta na boca, como se tem visto descaradamente na disputa pela prefeitura de São Paulo. E nada mostra que as coisas são muito diferentes em outros países.
Bom, voltando, é inegável que o documento da ONU foi tímido. Só para citar alguns pontos, não há recomendação para se acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis nem o estabelecimento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.
Mas a Conferência da ONU seria um sucesso mesmo se acordo nenhum fosse fechado. Toda a mobilização que o evento gerou contribui para o debate sobre o desenvolvimento sustentável. E mesmo com um documento fraco, é preciso comemorar alguns acordos e movimentos paralelos para que a economia se torne gradativamente mais verde. Empresas firmaram pactos, novas tecnologias mais limpas foram apresentadas, a sociedade civil deu seu recado, mesmo alguns políticos reunidos na C40, reunião dos prefeitos das 40 maiores cidades do mundo, apresentaram alternativas interessantes para o desenvolvimento sustentável. Então, saiu muita coisa boa da Rio+20 (veja mais no Especial Mercado Ético Rio+20).
Mas se você me perguntar se tudo isso é suficiente para o surgimento de uma economia limpa e socialmente inclusiva, aí eu já não sei. Tendo a concordar com Jonathan Baillie, biólogo britânico membro da Sociedade Zoológica de Londres, que diz: “Temo que apenas uma grande catástrofe nos obrigará a fazer as mudanças necessárias” (http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/%E2%80%9Capenas-uma-grande-catastrofe-nos-forcara-a-mudar%E2%80%9D/).
(Mercado Ético)
Acho q é isso, Henrique. Muito gostoso de ler. Acrescentaria uma coisa ou duas: 1. Economia Verde é a entrada das empresas no processo de transformacao ecosocial levado adiante desde os anos 1960. 2. A economia eficiente e inclusiva NAO é a visao de futuro q queremos, mas uma das ferramentas. 3. Os negociadores ficaram contentes pq cumpriram bem seu papel de fazer assinar um documento dissonante e com pouco onteresse (e presenca) dos paises ricos. Parabens à diplomacia brasileira de alto nivel q chega chegando nos diplomatas da ONU. 4. As ONGs e os movimentos populares q me desculpem, mas a autogestao precisa dar as maos à centralidade de coordenacao para q sua voz soe em uníssono, e as atividades esparsas nao parecam aula de educacao ambiental (sem desmerecer sua importancia!). 5. Os donos do poder fizeram dessa Conferencia a sua propria, tamanha a sua presenca, impacto e organizacao pra gerar acordos e compromissos q o papel oficial nao contém. 6. O governo brasileiro, na figura de Dilma e Izabella? Nao sei o q dizer ;-)
Acredito q o intuito foi alcançado, discute-se sobre o desenvolvimento sustentável como nunca . A conscientização, a educação , acho q para isso bato palmas .
Henrique, concordo contigo.
Ontem participei de um encontro na PUCSP, onde foi feita uma avaliação da Rio+20, e vou repetir aqui o que disse lá.
É fato que todos queriam mais, no entanto, dado o quadro de recessão econômica global, acho que os chefes de Estado fizeram o que estava a seu alcance. É fato que EUA e Europa poderiam ter dado mais um pouco? Sim, é verdade. A Angela Merkel parecia estar mais de olho no jogo Alemanha X Grécia do que na Conferência, mas tudo bem.
Ademais, não nos esqueçamos que as outras conferências de clima não entregaram resultados melhores. Aqui no Brasil as pessoas acabam sendo excessivamente críticas (na minha opinião) quando as coisas são daqui, mas pela massa crítica de pensamentos e ideias que movimentou, acho que a Rio+20 foi um sucesso.
A “bola” estará com os empreendedores sociais e sociedade organizada, como já esperávamos mesmo.
Valeu o debate!
Caro Henrique, nós que temos mais passado do que futuro, queremos ver ações concretas… Por exemplo, queremos ver o governo investir em recursos humanos, equipamentos e tecnologia com o firme propósito de combater os crimes ambientais, punindo com severidade e celeridade.
Minhas considerações vão um pouco na transversal da inteligentíssima leitura feita pelo Henrique e das lúcidas ponderações dos comentaristas anteriores, mas vamos lá.
1 – Quem de fato governa o mundo são os grandes grupos financeiros (poucas famílias concentram enormidades!) e são eles quem elege os governos, comanda a atividade econômica e, no limite, autoriza, ou não, as guerras.
2 – Inexiste interesse, digamos “político”, destes grupos, de fazer mudanças que quebrem a inércia da situação atual, mas tudo fazem, ou autorizam fazer, para parecer engajados com um “mundo viável” ou “sustentável” (como nós acostumamos a apelidar essa nobre utopia). Com isso, têm mais sossego para continuar no modo “ mais do mesmo”: uma moratória socialmente consentida, que se pretendeu intitular Economia Verde (pegou?)…
3 – A dita “sociedade civil organizada”, ou o conjunto dos cidadãos (do qual de fato os poderosos deveriam, conceitualmente, fazer parte, porque também são cidadãos e organizados) –- digamos melhor, nós, os do “lado de cá” –, nos indignamos com o estado atual da sociedade (degradação ambiental, vida urbana insalubre, iniquidade social, pobreza) mas fomos astutamente, para eles e seus objetivos, condicionados a amar o consumo abundante e os gadgets pessoais que nos viciam. Isso nos faz servos do sistema e, para purgar a uma culpa semi-consciente, fazemos coleta seletiva, andamos de bicicleta, amamos a energia eólica, etc., tudo isso na margem do essencial.
4 – Não se conte com os movimentos sociais como protagonistas da transformação necessária: pontualmente, algumas concessões são feitas pelos “comandantes” e seus prepostos, para aplacar os ânimos e dar a impressão que a coisa anda para melhor.
5 – Mudanças na essência do sistema começarão a ocorrer, ou a ser introduzidas, quando colapsos sérios começarem a pipocar numa escalada crescente, ameaçando a posição dos “comandantes”. Isso o Clube de Roma já apontou…
6 – É melhor estar atento e observar, para atuar nas brechas, do que estar numa militância frustrante — a não ser por um certo passatempo masoquista e algum conforto moral.
Não obstante, anseio pessoalmente por vida longa e feliz a todos nós e nossos descendentes – mas não sei se vida livre dessas sujeições a poderes de que mal suspeitamos.
O sistema de votação da ONU é por unanimidade e não basta apenas o consenso ou a maioria, por isso pode-se considerar um sucesso o resultado final da RIO+20. Mostrou que todos devem se mobilizar.