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Alimentos: um luxo em Padang
A escassez desatada pelo terremoto de Sumatra provoca um aumento de 50% a 100% nos preços dos alimentos na cidade da Indonésia.
A reportagem é de Cristina Galindo, publicada no jornal El PaÃs, 06-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Comer arroz converteu-se em um luxo para as famÃlias humildes de Padang. A escassez de alimentos provocada pelo terremoto se traduziu em um incremento dos preços de 50% a 100% nos produtos básicos como arroz, massas, ovos e verduras, segundo informações nesta segunda-feira dos proprietários dos postos do mercado central dessa cidade da costa oeste da Sumatra (Indonésia).
A maioria das tendas começaram a abrir entre o domingo e esta segunda-feira, após reparar a destruição provocada pelo sismo e comprovar que a eletricidade foi restabelecida. Mas muitos comerciantes perderam dinheiro, e as perspectivas não são nada boas, o que ameaça complicar ainda mais a recuperação dessa área da Indonésia, paÃs onde 40% dos cidadãos são pobres. Enquanto isso, as equipes de resgate deram por suspensa a busca por sobreviventes em Padang cinco dias depois do terremoto.
As operações centram-se agora em zonas próximas a Padang, como Pariaman, onde a destruição parece ter sido maior (nesta segunda, chegou uma equipe da Agência Espanhola de Cooperação e Desenvolvimento). Até agora, os números oficiais façam de mil mortos e mais de três mil desaparecidos, mas poucos acreditam que se possa resgatar alguém com vida. A embaixada da Espanha na Indonésia conseguiu contatar os espanhóis Mireia Mata Ginesta e Jaume Mata Prat, depois de sua famÃlia ter perdido a comunicação com eles após o terremoto.
A normalidade volta, pouco a pouco, à s ruas. Algumas crianças voltaram à s aulas, muitas lojas reabriram e a atividade dos edifÃcios oficiais que sobreviveram à catástrofe começou a ser retomada.
Mas o impacto do terremoto na frágil economia dessa região também está sendo devastador. Na casa de Erniwaty não comem arroz desde o dia 30 de setembro, quando ocorreu a catástrofe. “Troquei-os por massas. Elas também subiram, mas são mais baratas”, conta essa mulher de 50 anos que vive com sua filha e sua neto perto do rio de Padang (900.000 habitantes).
Um quilo de arroz de qualidade média custa agora 6.000 rupias indonésias (50 centavos de euro), diante das 5.000 anteriores, explica Junaidi (como muitos na Indonésia, ele só utiliza um nome), de 40 anos, proprietário de um posto no mercado tradicional da cidade. “Com o terremoto, é mais difÃcil encontrar arroz. As reservas reduziram, e, além disso, as comunicações pelas estradas continuam sendo ruins”, conta.
Na tenda da frente, Alsampurna, de 34 anos, explica que as massas e o azeite para cozinhar subiram 50%. Outros comerciantes asseguram que os ovos (80%), as verduras (até 100%) e a pimenta vermelha picante (75%) também ficaram mais caros.
O mercado voltou a abrir. Mas basta dar uma olhada nos pisos cheios de escombros, água parada e nos telhados meio caÃdos sobre as tendas para se dar conta de que ele deveria continuar fechado. Nem sequer seria necessário um novo tremor para que o edifÃcio viesse abaixo.
Seguir em frente vai ser duro. Cerca de 40% dos 240 milhões de cidadãos da Indonésia - o paÃs com maior população muçulmana do mundo, além de ser um dos mais corruptos - vive com menos de dois dólares por dia, segundo o Banco Mundial. A renda por habitante é de cerca de 2.200 dólares (1.500 euros) anuais, superior à s Filipinas e ao Sri Lanka, mas a costa oeste da Sumatra é mais pobre do que a média do paÃs. Muitos dos que perderam aqui suas casas serão incapazes de levantá-las novamente sem ajuda. O governo calcula que reconstruir ou reparar os edifÃcios e as infraestruturas básicas afetadas terá um custo de cerca de 600 milhões de dólares (430 milhões de euros).
Muitas empresas ainda seguem fechadas, como a concessionária de motos Suzuki do centro de Padang, totalmente esmagada debaixo dos escombros; o Centro de Congressos; a loja de acessórios de automóveis Dadone; a sucursal do Banco da Indonésia e do BII Bank, e muitas outras. Cada dia que passa supõe uma perda de dinheiro para a empresa, mas também para o trabalhador (os direitos trabalhistas na Indonésia não costumam ser muito favoráveis aos empregados: se não se trabalha, não se paga). Há um elevado número de prédios públicos (que teoricamente deveriam ser mais seguros) destruÃdos: cerca de 20.
“Agora vai ser ainda mais difÃcil encontrar trabalho”, assegura Marisa, uma estudante de lÃnguas de 22 anos, que vive em Pondok, o bairro chinês de Padang. Sua mãe, Rosalinda, costura roupas e agora não vende nada. “As pessoas não têm casa, nem nada para comer. Como vão comprar um vestido?”, pergunta. Esse é o bairro mais pobre da cidade e o mais afetado. Nele, vivem descendentes de imigrantes chineses que chegaram à Indonésia há mais de 200 anos. Sempre tiveram problemas com o nacionalismo que impera no paÃs e que à s vezes se aproxima da xenofobia. A grande maioria dos habitantes de Pondok são cristãos (por isso, provavelmente, os nomes de Rosalinda y Marisa), outro motivo de atrito com os muçulmanos indonésios.
O comerciante Oen Kei Soe define bem: “Aqui ninguém do governo veio nos ajudar porque somos chineses”.
Para ler mais no IHU On-Line
- ‘A terra engoliu tudo’. Relatos do terremoto na Indonésia
- Sumatra: quatro mil mortos em terremoto
(IHU On-Line)
