25/06/2009 15:56:50
O impacto dos planos sociais vai além de uma redução dos efetivos. As reestruturações entranham também um aumento do estresse e dos riscos psicossociais entre os trabalhadores, recorda o recente relatório europeu Hires (Health in restructuring). Assim, 54% dos trabalhadores que se dizem estressados calculam que a crise acentua este estado, segundo uma sondagem publicada no dia 10 de junho pela Agência Nacional pela Melhoria das Condições de Trabalho.
A reportagem é de Francine Aizicovici e está publicada no jornal francês Le Monde, 23-06-2009. A tradução é do Cepat. Leia a seguir.
Ora, essas consequências raramente são objeto de prevenção e de um acompanhamento por parte das empresas. Os empregadores estão focados sobre seus objetivos de rentabilidade, e “consideram que o plano social se ocupa dos problemas dos desempregados”, constata Jean-Claude Delgenes, diretor do Escritório de perícia em riscos profissionais Technologia. “Eles se preocupam um pouco mais com a saúde daqueles trabalhadores que permanecem na empresa, porque eles sabem que sua responsabilidade pode ser comprometida em caso de problemas”.
Quanto aos sindicatos, “eles foram açambarcados pela redução do número de demissões e pelas indenizações de demissão”, observa François Desriaux, redator-chefe da Santé et Travail, revista que publica, na última edição de junho, um dossiê sobre esse tema: “Reestruturações: as condições de trabalho também sofrem um dissabor”. Mesmo os “sobreviventes” dos planos sociais sofrem, ao ter que encarar “um forte sentimento de culpabilidade e, muitas vezes, uma intensificação do trabalho, porque se faz necessário continuar a produzir, mas com menos pessoas”, acrescenta Desriaux.
“Vítimas diretas”
Brigitte Clair, ex-trabalhadora da Camif, liquidada em outubro de 2008, foi, primeiro, uma “sobrevivente”, ao longo de três planos sociais. “Em segundo lugar, nós éramos vítimas diretas”, diz ela. “Quando o ‘facão comeu’, fomos abandonados à própria sorte”. Depois da demissão, “muitos colegas desenvolveram doenças graves, depressões…”, se inquieta Clair, que criou o blog Camif4ever “para não se perder de vista e morrer”.
No entanto, a violência da crise parece precipitar um pouco as inércias. Na Goodyear de Amiens-nord, onde foi anunciado o fechamento de 817 dos 1.400 postos de trabalho, o Comitê de Higiene, Segurança e das Condições de Trabalho (CHSCT) encomendou ao Escritório de Perícia Alpha a realização de um estudo sobre os riscos psicossociais, que começou no dia 22 de junho. “Há dois anos os trabalhadores vivem sob a ameaça de um plano social”, explica Michaël Wamen, delegado CGT. “Eles não aguentam mais, e nós acreditamos em gestos de desespero”. Primeiramente “reservada”, a direção acabou por aceitar esta demanda, precisando que, segundo ela, “não há perigo grave”.
“É preciso parar de reestruturar ignorando a saúde e as condições de trabalho”, martela Laurent Rivoire, diretor-associado do Grupo Alpha, encarregado desse dossiê, que defende que “as reestruturações sejam consideradas como um risco profissional a ser prevenido, e com um acompanhamento médico pós-demissão”. Uma perícia do plano social também é realizada por solicitação do Comitê Central de empresa.
Na Renault, o estresse permanece atual. O plano de demissão voluntária atingiu 4.400 trabalhadores e, desde janeiro, o desemprego parcial está sendo empregado nas indústrias. Resultado: “Os ritmos aumentaram e os transtornos músculo-esqueléticos explodem”, denuncia Fabien Gâche, delegado sindical central CGT. Ele destaca também que na engenharia, onde 2.500 subsidiários foram demitidos no final de 2008 e que conhecerá o desemprego parcial a partir do final de agosto, “há setores fortemente sobrecarregados”.
A pedido do CHSCT, uma perícia sobre os riscos psicossociais está em andamento, conduzida pela Technologia, dois anos depois daquela realizada no Technocentre de Guyancourt (Yvelines) após a série de suicídios. Desta vez, a missão abrange todos os centros de engenharia da Renault. “A ideia é que não é justo reagir a acontecimentos infelizes, mas fazer um trabalho no dia-a-dia”, explica a direção.
Como reestruturar sem atentar contra a saúde e as condições de trabalho? “É uma visão esquizofrênica”, pondera Philippe Davezies, professor de Medicina do Trabalho em Lyon-I. “A não ser quando se trata de inventar um sistema que aumente a produtividade sem jogar a pressão sobre os trabalhadores!”. Em todo o caso, “se nada for feito”, calcula Michel Debout, professor de Medicina Legal no CHU de Saint-Etienne e presidente da União Nacional para a Prevenção do Suicídio, “nós corremos o risco de sermos confrontados, depois da crise, com uma crise sanitária e um pico de suicídios”.
(IHU On-Line)