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Brasil precisa salvar a Amazônia do desmatamento
Enéas Salati, colunista da Plurale (*)O controle do desmatamento é um dos problemas mais sérios a serem enfrentados pelos governantes brasileiros, quer seja em nível federal ou estadual. Essa prática atingiu praticamente todo o território nacional durante as diversas fases da colonização, sendo que na década de 1960 somente a Amazônia resistia, praticamente preservada: menos de 0,5% da Amazônia Legal[1] havia sido desmatado.
Hoje, algo da ordem de 20% da Amazônia Legal foram postos no chão. Desmatar é fácil, anteriormente com o machado e atualmente, com maior facilidade ainda, através das motosserras e dos correntões. Assim, qualquer um pode desmatar. No entanto, o problema mais complexo está em reflorestar, o que exige investimentos, conhecimentos tecnológicos e a escolha correta das espécies a serem plantadas em cada um dos ecossistemas nacionais.
No momento, os principais impactos causados pelo desmatamento são: (1) perda de biodiversidade, (2) equilíbrio climático e regularidade da vazão dos rios, (3) controle de erosão, (4) aumento dos efeitos das Mudanças Climáticas pela emissão dos gases do efeito estufa, (5) impacto social sobre as comunidades regionais e consequente perda dos costumes étnicos, (6) dificuldade técnica para implantação de sistemas agrícolas sustentáveis nas regiões equatoriais.
O problema da perda de biodiversidade aparece de forma expressiva nas áreas tropicais, subtropicais e equatoriais, tendo em vista a grande diversidade de espécies de animais e plantas encontradas nestas regiões. Somente na região Amazônica, há mais de 104 diferentes sistemas ecológicos. Esses biomas possuem características bem distintas que devem ser preservadas e que já estão em risco em função do alto índice de desmatamento.
Em áreas de florestas densas praticamente não existe erosão. Este fato deve-se a capacidade do dossel das árvores em diminuir o impacto da força da chuva e pelo solo, que apresenta uma camada de matéria orgânica, com capacidade de absorver rapidamente a água superficial, o que evita a erosão. Também por essa razão, é preciso frear o desmatamento e assim controlar a erosão.
Uma floresta como a Amazônica não é uma consequência simples do clima. Durante a evolução e o estabelecimento da área florestal houve interação constante entre os sistemas florestais e as condições climáticas, de tal forma que o clima reinante é decorrente do equilíbrio que se estabeleceu entre os elementos do clima e a cobertura vegetal, que não controla apenas a vazão dos rios, mas também a qualidade das águas.
Exemplos típicos da interação entre precipitações, solo e vegetação são as características dos rios, que podem ser classificados como de água branca, preta e cristalina. O Solimões tem águas “brancas” e ricas em sedimentos provenientes da erosão da região andina. O Rio Negro foi assim batizado em função de sua cor, decorrente da matéria orgânica dissolvida na água (as folhas que caem sobre os solos arenosos sofrem decomposição parcial). Esses rios praticamente não têm pernilongos, em decorrência da acidez das águas. As águas cristalinas, praticamente sem sedimentos, são encontradas nos afluentes das margens direitas, proveniente do Planalto Central brasileiro, a exemplo do Rio Tapajós.
O equilíbrio ecológico que existia até algumas décadas vem sendo modificado em decorrência de duas forçantes climáticas. Uma é decorrente do desmatamento que modifica os balanços térmico e hídrico na região. E a outra é proveniente da mudança climática global decorrente da alteração da composição química da atmosfera terrestre, especialmente pela emissão dos gases dióxido de carbono, do metano e do óxido nitroso. O desmatamento faz do Brasil um dos grandes emissores mundiais, já que é responsável por 75% da contribuição brasileira na emissão do gás carbônico.
O chamado “desenvolvimento” relacionado ao desmatamento vem atingindo ainda as comunidades tradicionais, especialmente as indígenas. Esse impacto social provoca grande perda dos costumes étnicos e culturais. Hoje em dia, há cerca de 400 grupos étnicos na América Latina, totalizando uma população na média de 30 milhões de pessoas. Quando se analisa a região total da Amazônia (que abrange também Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela), a população indígena está calculada entre 1 e 2,5 milhões. Mas na Amazônia brasileira este número cai para aproximadamente de 160 mil. Segundo a FUNAI - Fundação Nacional do Índio, no Brasil todo esse número é de 460 mil índios, distribuídos entre 225 grupos que perfazem apenas 0,25% da população brasileira. Essa estimativa considera que existem entre 100 e 190 mil índios vivendo fora das terras destinadas a eles, inclusive em áreas urbanas.
A utilização dos recursos naturais ainda é necessária para a sobrevivência do homem, mas é preciso conhecimento científico e técnico para que se estabeleçam programas realmente sustentáveis de agricultura nos trópicos úmidos. As experiências atuais têm provocado perda rápida da fertilidade do solo e declínio da produtividade, levando os colonizadores a avançarem sobre a floresta nativa para explorar os sistemas florestais. No início da colonização, o uso dos recursos naturais para agricultura foi feito sem o conhecimento correto de utilização do solo. Já no início da colonização intensiva da região amazônica nas décadas de 1960 e 1970, já existia conhecimento suficiente, ainda assim, projetos como o da borracha na Fordilândia e o Jarí não tiveram sucesso econômico.
A Amazônia, essa extraordinária jóia recebida pela dádiva da natureza, que como vimos tem características especiais de clima, da flora, da fauna e dos recursos hídricos, está rapidamente sendo transformada sem que haja um programa claro de preservação das suas características fundamentais e um real beneficio socioeconômico para o País. Infelizmente a responsabilidade é do povo brasileiro e dos governos reinantes. Destruir a natureza é fácil. Restaurá-la é difícil e dependerá de investimentos gigantescos, mas ainda assim, não haverá mais a possibilidade de recriar as espécies que estão sendo perdidas ou eliminadas pelo fogo.
(*)Este artigo é destaque na edição número 13 de Plurale em revista . Enéas Salati é professor e Diretor Técnico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS)
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[1]A Amazônia Legal inclui oito estados brasileiros com trechos da Floresta Amazônica e representa pouco mais de 50% de todo o território nacional. Sendo que a população desta região representa apenas 10% da população total do país.
(Plurale)
COMENTÁRIOS
Caraca, eu não imagina o que nos estavamos causando ao mundo em que vivermos, até agora quando minha professora mandou fazer um trabalho sobre meio ambiente, mais eu me apavorei por que não imaginava que era tão grave. Minha consiencia pesou :(…
