Salas Temáticas > Ética e trabalho

13/10/2009 - 18:19:59

Calais, a última fronteira da Europa

Polícia invade acampamento de refugiados afegãos. Foto: AP
A sorte termina entre os pinheiros e as dunas de Blériot Plage, na metade de um pequeno retilíneo repleto de áreas de estacionamento para os caminhões, diante de um horizonte delimitado pelas montanhas de container e pelos braços amarelos dos guindastes. Na estrada para o porto, ao pôr do sol, é nesta encruzilhada que se parte para a última viagem, o embarque para uma nova vida além do Canal, na Grã-Bretanha com a qual todos sonham de olhos abertos. Quando os caminhões são obrigados a parar por algum segundo, em fila para as balsas, os fantasmas da selva se arrastam sobre o asfalto e escorregam sob os TIR [transportadoras do sistema internacional de transporte europeu, ntd], procurando um apoio entre as rodas e o motor, encaixados como faquires. Esperam poder resistir suspensos assim por três horas, até a fronteira inglesa. “Já terei feito mais de trinta tentativas”, conta Ali, um garotão egípcio de 23 anos, com blusa e chapéu da Itália, que desembarcou há dois anos em Lampeduza. Então, seu problema era entrar na Europa, agora quer conseguir sair.
.
A reportagem é de Anais Ginori, publicada no jornal La Repubblica, 03-10-2009. A tradução é de Benno Dischinger.

Calais é a última e extrema fronteira do espaço de Schengen, a porteira de saída para aquela que muitos acreditam seja uma ilha hospitaleira num continente que se tornou fortaleza. É também uma das fronteiras mais militarizadas da União Europeia, com uma mobilização impressionante de forças de segurança e instrumentalizações tecnológicas que, no entanto, não conseguem impedir a pelo menos 1.500 camion people de zarpar todo ano para Dover, Inglaterra. De sua chegada na França, em junho, Ali se deslocou quase toda tarde ao “chance stop”, como o chamam os migrantes de Calais sabendo que se trata de uma espécie de loteria. Agora está sentado sobre uma maca na enfermaria para estrangeiros do centro, um pré-fabricado branco em meio a um terreno árido com um portãozinho de ferro que range. Se fez picar por um caminhoneiro, foi preso por policiais e enfim escapou quebrando o braço. “Logo que sarar, volto a tentar. Não tenho dinheiro para pagar os passadores”. Os traficantes que vendem a “passagem” pedem pelo menos mil euros, a repartir com os motoristas e algum policial complacente. Em tempos normais podem bastar três dias para atravessar clandestinamente a Mancha. Mas agora os preços subiram, a espera mínima é de quatro semanas. “E também aquela encruzilhada”, acrescenta Ali, “foi eliminada pela polícia. Tiraram até as moitas onde podíamos esconder-nos”.

Em Calais nada é como antes. O governo francês decidiu combater aqui sua guerra à imigração ilegal. Quinhentos agentes foram mandados de Paris como reforço, a Grã-Bretanha já havia enviado outras oitocentas unidades e também a Bélgica participa nos patrulhamentos. “Bem-vindos ao front”. Maryam Rachi gira da manhã à noite com o furgãozinho branco de Secours Catholique entre os muitos acampamentos para levar chá quente, biscoitos, cobertores. “A relação é de dois policiais para cada clandestino.” Uma dupla rede de filo espinhoso, com choques elétricos e fibra ótica, circunda o porto. As telecâmeras térmicas vigiam a costa e também o túnel dos trens Eurostar foi “sigilado”, segundo o léxico oficial. A fronteira, garantiu o prefeito da região Pas-de-Calais, deveria, em suma, ser “impermeável”. Os caminhões e os vagões de mercadorias são inspecionados até com sondas para registrar a batida cardíaca e a presença de CO2. “Para estar realmente seguros seria preciso deixar de respirar”, conclui Maryam, sacudindo a cabeça de cachos castanhos e continuando a gesticular nervosamente. Responde ao telefone em árabe àqueles que ele chama de “refugiados” ou “exilados”. Nasceu em Marrocos há quarenta anos, há sete trabalha em Calais e recém casou com um iraniano. Encontra força para gracejar. “Com estes ritmos de trabalho o meu matrimônio durará um mês”.

Perscruta nas margens das estradas para procurar as sombras, os invisíveis. “Têm medo, não sabemos mais onde encontrá-los”. A “mata” onde há anos acampavam os afegãos foi limpa até o chão. Nos quatro hectares de mato se escondiam cabanas construídas com corda, sacolas de plástico e ramos secos. Os imigrantes haviam batizado jungle esta zona perto do porto e do famoso stop da sorte. A polícia prendeu 275 pessoas, a metade “menores isolados”. Ante aquilo que resta do acampamento - árvores desventradas, latinhas e cobertas lisas, tubos de dentifrício, sapatos rasgados - está Ahmed. Veio lavar os pés na fontezinha. “Na terça-feira os policiais me levaram a Rouen num pullman. Na sexta-feira fui escutado pelo juiz e na segunda-feira me libertaram. Eis-me de novo aqui”. Coloca os sapatos de ginástica e desaparece entre as árvores. Segundo as associações de voluntários, quase todos os clandestinos presos na caçada (132 sobre 140) já foram todos postos em liberdade. A maioria dos menores acabou em casas de família. Shazola, outro afegão, mostra a sentença de soltura do tribunal de Tolosa. “No chance for me” repete, Continua acreditando que sua salvação seja do outro lado do mar. “Insciallah”.

Habeba quisera subir num caminhão de maçãs. “Disseram-me que é o meio mais seguro”, conta em farsi, traduzido por um intérprete do Secours Catholique. As celas frigoríficas impedem às sondas de funcionar. Tentou “passar” poucos dias antes de dar à luz. Com seu barrigão se enfiou num papelão que viajava sobre um caminhão de mercadorias. Mas sentiu-se mal e quase desmaiou. Maryam encontrou Habeba, escapada do Afeganistão e depois do Irã, escondida no matagal de Loone Plage, para Dunquerque. Levou-a quinta-feira ao hospital de Calais. Os voluntários lhe propuseram o asilo político. “Dignidade ou exploração?” está escrito num pequeno volante da ONU que deveria desencorajar a imigração na Grã-Bretanha. Não serve. Muito estrangeiros continuam pensando que seja uma espécie de Eldorado. Ignoram que também Londres modificou as leis sobre a imigração e obter a regularização não é mais tão fácil. “Em Birmingham tenho uma irmã que poderá ajudar-me”, insiste Habeba, que continuou a chorar até um instante antes de entrar na sala de parto.

“Estamos numa tragédia do absurdo. A França finge não saber o que sucede em Kabul. Querem acabar com os clandestinos? Então devem levar paz e desenvolvimento àqueles países”. Celine é uma jovem enfermeira do ambulatório para estrangeiros. Muito agressiva, tem longos cabelos vermelhos e olhos azuis cintilantes. “Com frequência devemos curar feridas nas mãos. Os imigrantes que tiveram que deixar impressões digitais na Itália ou na Grécia queimam a polpa dos dedos para não precisar retornar”. Fala enquanto tenta sedar uma rixa entre eritreus e afegãos em fila para aquela que é a única ducha pública que permaneceu na cidade. Por algumas semanas a Prefeitura de Calais usou os hidrantes dos bombeiros para lavar os clandestinos. Durante o verão houve uma epidemia de sarna. O plano extraordinário de remoção terminou, mas a emergência permanece. Nesta fronteira, o Estado francês faz uma cara feroz, parece evitar voluntariamente a solidariedade. Em 2003 o Secours Catholique comprou um terreno para construir um centro de acolhida e por três vezes teve recusada a edificabilidade pela prefeitura. Na atual sede da organização católica, na rua Anatole France, há uma peça onde as crianças podem brincar. Nos muros há os seus desenhos. Muitos corações despedaçados, que gotejam lágrimas vermelhas. Tantíssimos TIR, tornados símbolos de esperança.

Às dezoito horas, sob os faróis, os voluntários distribuem a ceia. Um pote de arroz, uma banana, duas fatias de pão. “Imediatamente após a evacuação da mata, estavam tão apavorados que não vinha sequer para comer”, conta Aurélia, uma garota loira vinda de Ardèche para fazer voluntariado na associação Salam. O governo quer ir em frente. Ontem as escavadoras destruíram uma mansão ocupada por uma comunidade de sudaneses no cais do Mosela. “São ações feitas intencionalmente para a mídia e as TVs. Esta gente está tão disposta a viver também entre montes de lixo que jamais irão embora”, continua Aurélia. Alguns operadores humanitários foram denunciados por ter hospedado e ajudado clandestinos, com base numa lei de 1945, raramente aplicada. É nestes casos que se inspirou o regista Philippe Lioret escrevendo Welcome, um filme rodado em Calais que obteve muito sucesso na primavera passada e que em dezembro rodará também na Itália.

“A mim não espanta realmente ninguém”, diz convencida Brigitte, enquanto condiciona duas tortas a serem levadas ao Secours Catholique. É uma ex-restauradora que habita numa pequena vila azul em frente às dunas do porto. De sua varanda vê passar os clandestinos, pequenos grupos que caminham procurando a sombra. “Sabem que comigo podem contar”. Pelo menos duas ou três vezes ao dia lhes abre a porta de casa para fazê-los recarregar os celulares, e organizou um banho na garagem. “Os vizinhos não me falam mais e também na missa muitos paroquianos me evitam. Paciência”. Brigitte é minoria. Calais, por trinta anos um enclave do comunismo francês, desde 2008 é governada pela UMP, o partido do presidente Sarkozy. A promessa do punho de ferro valeu. “Enquanto eu dava lições de catecismo”, conta Brigitte, “um menino apontou um mendicante no livro chamando-o “kossovaro”. Uma parte pelo todo. A primeira onda de imigrantes começou de fato no final dos anos noventa, com a guerra dos Bálcãs. A fama permaneceu aquela. Brigitte começou a fazer voluntariado em 2002 após o fechamento de Sangatte, o centro para imigrantes da Cruz Vermelha. Sarkozy, então ministro do Interior, disse: “É um sinal ao mundo inteiro, para dizer que não é mais preciso vir a este depósito no fim do mundo”. Na semana passada Eric Besson, o ex-socialista que se tornou ministro para Imigração, repetiu a mesma frase, comentando a operação de remoção. Mas poucos escutaram suas palavras. Enquanto falamos no tinelo de Brigitte, de fora chegam vozes, urros, rumor de garrafas que se rompem por terra. Retornaram. E na noite de Calais a única lei em vigor é a da mata virgem.

Para ler mais no IHU On-Line

(IHU On-Line)

COMENTÁRIOS

Faça o seu comentário

Campos com * são obrigatórios