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30/06/2009 - 16:53:32

Consumidor?

Nádia RebouçasNádia Rebouças

Há cerca de 5 anos, eu estava preparando uma apresentação para um encontro do Ethos, em São Paulo. O tema era “Balanço Social”. Era o começo do longo caminho para abandonar o tal do marketing social, que publicava books do Balanço Social, que se transformavam na peça mais importante para as empresas demonstrarem sua responsabilidade social. Minha preocupação era construir uma apresentação que demonstrasse que o Balanço Social não era uma “peça de marketing“, mas uma ferramenta que iria ajudar cada empresa a perceber como podia planejar suas conquistas para uma visão sustentável, tendo o balanço como instrumento de gestão mais consciente e responsável.

De repente me deu um insight: “O que estaria no dicionário sobre a palavra consumidor?”. Eu, que durante anos na minha vida de publicitária, tinha repetido, escrito, propagado a palavra: CONSUMIDOR! Abri o dicionário e tive uma enorme surpresa! Consumir: gastar, extinguir, iludir, enganar, esgotar, destruir.

Fiquei perplexa por perceber que era tudo o que fizemos nos últimos tempos. Gastamos e extinguimos uma natureza exuberante que ganhamos de presente, desperdiçamos e jogamos fora nosso futuro, desperdiçamos milhões de vidas humanas no planeta, além dos animais. Consumimos. Sem parar. Inventamos desejos que nos enganam o tempo todo na ilusão da felicidade. Despertamos necessidades de consumo em milhões de pessoas, inclusive crianças e adolescentes, que não tem como atendê-los. Enchemos nossas cidades de violência. Pior que isso, chegamos a acreditar que estamos aqui para isso: consumir. Nossos adolescentes cortam os cabelos, desenhando a marca Nike nas cabeças, sem saber nem o que é, mas sabendo que é uma marca. E as marcas viraram valores, que muitas vezes justificam matar na esquina pelo tênis da moda. Fomos aprendendo gradativamente a valorizar as “coisas” e consumimos nossas vidas e esperanças num círculo insistente de violências.

Voltei para a apresentação e criei uma página onde coloco a palavra “consumir” e, em círculos, todos os significados que estavam no dicionário. Todas as vezes que mostrei essa apresentação pude perceber o efeito da mensagem. A seguir, sempre propunha a ressignificação do conceito consumidor: O INTERLOCUTOR.

A nova empresa, aquela que eu e muitos esperamos, vem descobrindo que deve matar o velho conceito de consumidor e começar a enxergar seus interlocutores. E o que quer dizer interlocutor? O dicionário me respondeu mais uma vez: agregar, trocar, interagir, prover.

Foi um prazer ver que na última Conferência do Ethos vários palestrantes decretaram o fim do consumidor. Não conseguiremos construir os novos tempos pensando igual e falando igual. A empresa que não descobrir que tem interlocutores, que entramos na era do diálogo, não terá um futuro promissor. Da mesma maneira, a velhíssima forma de pensar a comunicação no modelo emissor - receptor não faz hoje qualquer sentido. A comunicação circula, conversa, troca. A conversa gira em círculos, não mata, não aliena. Cria harmonia e respeito pela diferença. A tecnologia vem nos libertando do papel passivo de consumidores. Somos público, sim, mas de relacionamento. Quer conversar? Prepare-se para me ouvir. Eu estou podendo estabelecer limites e decidir como quero viver.

Por isso morreu também nesse ano, no Ethos, o tal do público-alvo. É completamente natural que eu queira dar um tiro para transformar uma pessoa em consumidor. Um consumidor é sempre inconseqüente e inconsciente, por isso o tiro certeiro estudado até à exaustão pelas pesquisas de mercado. Inúmeros focus group foram realizados para descobrir como falar para que o alvo se torne público e deixe de existir como ser, virando consumidor.

Bem-vindos os interlocutores! Aqueles que leem rótulos, notícias, escolhem origem e ingredientes, decidem o tempo de TV e o que seus filhos devem “consumir”. Conseguem, antes de pegar o cartão de crédito, pensar. Bem-vindo o cidadão consciente, o prospect de interlocutor, que se nega ser um gastador, destruidor de tudo, especialmente de sua identidade.

Mudarão os planos de marketing. Será vergonhoso falar em público-alvo, assim como as empresas já estão mais cuidadosas ao falar em “comunidades do entorno”, porque começam a perceber que nessa simples definição estão esquecendo que a comunidade está ali, há tanto tempo, são a alma daquele território, eles é que estão chegando, como visita e precisam se apresentar como futuros vizinhos e pedir licença para entrar.

A forma como falamos ou escrevemos carrega significados. Só vamos construir uma nova civilização nos transformando, aprendendo e construindo os novos caminhos. E… rápido! Esse parece ser o recado que temos recebido.

Marqueteiros e publicitários, os tempos ficarão mais desafiadores a partir dessa Conferência Ethos 2009. Trabalhemos todos e todas para a conferência de 2010, que promete possibilidades de grandes novos avanços.

Nádia Rebouças é consultora de comunicação para transformação, diretora da Rebouças e Associados.

COMENTÁRIOS

Sonia Botelho 1/07/2009 às 9:51

Gostei muito da abordagem e da explicação do termo consumidor, fantástico. Concordo que tenhamos que voltar no tempo, e corrigir o que desconheciamos com o avanço tecnologico ( o que não mal ) e a era do consumismo. Agora é hora de parar e analisar como deveremos seguir, com relacao a reciclagem , as possibilidades de trocas , a volta dos vasilhames em supermercados, sacolas de “casa”para compras, plantar mais arvores, ter mais terras ao inves de cimento, enfim voltar a uma era sustentável.

Abraço Sonia

Gisela Santana 3/07/2009 às 15:26

Cara Nádia,
Adorei o seu artigo e me identifiquei muito com ele.
Recentemente, em uma pós de psicologia social, estudei esta temática do consumo e do marketing na área habitacional. A correlação da posse do bem com a questão simbólica da casa está intimamente ligada com tudo isso que você falou.
Gostaria muito de conhecer mais de perto o seu trabalho.
Um abraço e sucesso!
Gisela

C. Guilherme Fraenkel 10/07/2009 às 13:48

Finalmente uma visão que nos ajuda a sair da relação presa / predador.
É muito confortador e estimulante perceber que somos um dos elos em ums conversa e que temos o direito de debater.
Vamos ao diálogo, as empresas que se apresentam devem ouvir, adequar seus produtos, atender às expectativas ao invés de gerar uma sociedade de consumo. Esta visão é simplesmente brilhante

Consumidor ou Interlocutor? « Anajé 10/07/2009 às 13:49

[…] de presas, os consumidores, sempre me causou um certo desconforto e finalmente achei no artigo “Consumidor?†da Nádia Rebouças no Mercado Ético uma proposta de pensamento mais adequada com o meu […]

Christina Carvalho Pinto 14/07/2009 às 20:31

Nádia querida, o mundo da comunicação precisa que sua voz soe cada vez mais alto! Você aprofunda e simplifica ao mesmo tempo, coisa rara no mundo do pensar. Seu artigo, suas escolhas, sua lucidez madura despertam todos os que têm a sorte de ler e/ou ouvir você. Obrigada! Abraço fraterno e carinhoso da
Christina.

Marluce C. Viégas 24/07/2009 às 0:47

Nádia,parabéns pelo artigo tão elucidativo e que nos faz refletir sobre os nossos hábitos e repensar valores.Gostaria de saber um pouco mais sobre a sua profissaõ.Como sou jornalista e gosto de abordar temas semelhan tes,me fale um pouco da comunicação para a transforamação.

Um grande abraço,
Marluce,

Andréa Sevá 8/08/2009 às 18:45

Nádia, gostei muito da abordagem e do desenvolvimento do tema da forma como voce didaticamente expos. Quando aprovaram aquela lei considerada um grande avanço na nossa legislação - o código de defesa do consumidor, também fui ao dicionário como v. e a perplexideade se transformou em indignação. Não queria me considerar “um consumidor”, apesar de ser totalmente a favor do código como forma de defesa do cidadão frente ao nosso padrão de mercado e à nossa demorada e onerosa justiça.
De qualquer forma parece muito significativo o fato de ter sido dado justamente esse nome ao conjunto de leis que regulam nosso mercado. Parabéns pelo artigo.

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