30/03/2009 17:04:58
Henrique Andrade Camargo, de Londres, para o Mercado Ético
Mas uma manifestação ainda maior está marcada para o dia da mentira (ou, na Inglaterra, o dia dos tolos): 1° de abril. O “G20 Meltdown” (derretimento do G20, em tradução livre) reunirá militantes de diversas organizações em frente ao Banco da Inglaterra, o Banco Central do Reino Unido.
Para falar sobre o protesto e seus objetivos, o Mercado Ético entrevistou David Louis, como pediu para ser chamado o ativista do movimento Climate Camp. O grupo promove a conscientização ambiental e é uma das principais peças da manifestação do dia 1°.
Ele fala sobre o colapso ambiental, concorda com Lula sobre os bancos serem os culpados pela crise e clama por uma ação rápida dos políticos para com as questões ambientais.
Leia a entrevista a seguir.
Mercado Ético – O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, esteve recentemente no Brasil. Com o presidente Lula, ele falou sobre um plano de 100 bilhões de dólares para estimular o comércio internacional. Como o Climate Camp vê todos esses planos de incentivos que estão sendo anunciados para combater a crise?
David Louis - Há diferentes questões ligadas à crise financeira global. Uma coisa que isso mostra é o poder dos governos em conseguir dinheiro rapidamente. Levantaram centanas de bilhões de dólares, até mesmo trilhões, em pouquíssimo tempo. Precisamos desse tipo de ação para combater a crise ambiental. Também tem o ponto de quanto desse dinheiro é destinado para mudar o sistema econômico. Alguns países colocam parte desses esforços para desenvolver a economia verde. Mas isso se limita a apenas uma pequena porcentagem dos investimentos.
Outra coisa é que, basicamente, o livre mercado nos levou ao colapso financeiro. Soluções como o mercado de carbono funcionam nesses mesmos moldes e nos levarão a uma situação muito semelhante. Será desastroso para o ambiente.
ME – Quanto desses investimentos deveria ser dedicado à economia verde?
DL – Para falar a verdade, acho que 100%. Essa deve ser a nova direção para o mundo criar um sistema econômico sustentável, que não destrua nosso clima.
ME – Então vocês não apoiam o mercado de carbono, tampouco a taxação do carbono produzido pelas empresas?
DL - É uma situação muito complexa. Mas, no momento, todas as solução se baseiam em sistemas de mercado de carbono similares ao esquema europeu de comércio, que falhou em diminuir as emissões e levou empresas altamente poluentes a lucrarem imensamente. Nesse programa, as companhias são analisadas pelo CO2 que já produziram, depois, pelo que possivelmente vão produzir no futuro e, de acordo com isso, ganham crédito para diminuir suas emissões do gás.
Um outro ponto é que o mercado pode encontrar um jeito mais rápido e mais barato de enfrentar o problema, mas com isso, evita-se ações para acabar com a dependência do petróleo, o que deveria ocorrer o mais rápido possível.
ME – Ainda falando de Lula, recentemente ele causou mal-estar acusando os brancos de olhos azuis – referindo-se aos banqueiros – como os culpados pela crise. Já Gordon Brown disse que a era dos países ricos acabou e que, cada vez mais, as novas economias em desenvolvimento ganharão importância. Você concorda com Lula? Quanto a Brown, acha que sua declaração é só mais uma retórica vazia, como o Climate Camp costuma classificar os dicursos governistas?
DL – Eu acho que temos que suspeitar um pouco sobre essas declarações, sim. Mas a situação econômica global está mudando. Países como Índia, China e Brasil estão se desenvolvendo muito rapidamente. Mas o ponto é que se não houver mudanças no sistema financeiro mundial, teremos países muito ricos e muito pobres. Esse é um problema que não está sendo discutido no momento. A mudança climática vai piorar ainda mais esse quadro. Os pobres serão os mais atingidos e terão mais dificuldades em lidar com a situação, mesmo sendo os menos culpados.
Basicamente, é verdade o que o Lula disse: os homens brancos são a causa do problema. E são as pessoas pobres do Sul que pagarão por isso.
ME – O slogan do Climate Camp para o G20 é “Stoping Carbon Markets Because Nature Doesn’t Do Bailout” (parem os mercados de carbono, porque a natureza não aceita ajuda financeira, em tradução livre). O que exatamente vocês querem dizer com isso?
DL - Queremos dizer que a tática dos governos em oferecer grandes quantias para os bancos não vai funcionar com o ecossistema. Quando atingirmos um certo grau de crise (ambiental), não poderemos apenas dizer “ah, vamos colocar algum dinheiro ali e resolver tudo”. Temos que agir agora.
ME – O Climate Camp é contra a especulação no mercado. Mas existem economistas que defendem isso como sendo uma forma de crescimento econômico.
DL - Muitos economistas, empresas e governos são obcecados com a idéia de crescimento econômico infinito. Eles acham que o desenvolvimento da sociedade depende disso. Mas vivemos em um planeta com recursos limitados e que suporta até certos níveis de carbono na atmosfera. Há um limite físico para a vida. Temos que prestar atenção nisso. Se tudo continuar da forma que está, não vai dar certo.
ME – O Climate Camp diz que a ação conjunta global contra a crise, como deve ser anunciada pelo G20 no dia 2 de abril, só vai aumentar o controle do Estado sobre as vidas das pessoas. Como isso aconteceria?
DL - Existe o risco dos governos fazerem isso sim. Fizeram quando aconteceram os ataques terroristas. Já estão fazendo algo parecido com assuntos ligados à mudança climática. O que temos a dizer é que as pessoas devem estar envolvidas para encontrar a solução. Comunidades devem estar envolvidas. Democracias locais devem estar envolvidas. As pessoas não podem esperar que homens de negócios e governantes apresentem as soluções. Elas mesmas devem encontrar as soluções.
ME – Quais seriam essas soluções?
DL - Umas das primeiras coisas é parar com o uso de combustíveis fósseis. Por isso, fizemos uma manifestação contra uma usina de carvão em Kingsnorth. Se ela entrar em atividade, abrirá uma brecha para que outras sejam construídas e teremos que viver com isso. Tomando ações como essa, nos tornamos parte da solução. Da mesma forma, temos que tomar ações diretas contra o mercado de carbono. Outro ponto é se livrar da idéia de que temos que consumir mais e mais.
ME – Mas um dos principais assuntos a serem tratados no G20 são formas de aumentar o consumo.
DL – É verdade. Mas temos que parar com essa idéia que domina o mundo, de que temos que ter um crescimento econômico contínuo e de que as pessoas devem continuar a consumir mais. As pessoas podem viver melhor sem, necessariamente, uma vida de alto consumo. De qualquer forma, as duas coisas não se casam. As pessoas não são mais felizes porque consomem mais. Elas apenas consomem mais. São parte de um movimento.
ME – Muitas organizações declaram que a floresta amazônica é propriedade internacional. Qual a posição do Climate Camp a esse respeito?
DL - O Climate Camp tem diferentes posições em relação a isso. Basicamente, nos reunimos com o objetivo de tomar ações diretas sobre determinados assuntos, como aquecimento global e vida sustentável. Não temos posições específicas sobre esse assunto. Claro que a floresta amazônica, particularmente no Brasil, é super-importante para o clima. Não dá para subestimar isso.
ME – Você vê uma maior conscientização popular sobre assuntos ligados ao aquecimento global?
DL – Definitivamente. Nos últimos cinco anos, houve uma grande conscientização das pessoas em relação ao tema. Todo mundo fala sobre isso. Mas as pessoas ainda não sabem o que fazer.
ME – O que você faz para tornar as coisas melhores?
DL - Tento me alimentar mais com uma dieta vegan ou vegetariana, ando de bicicleta e levo um estilo de vida de baixo consumo. Mas o principal é o que podemos fazer coletivamente. Então, o mais importante que faço é levar a mensagem adiante.
ME – Você falou em vegetarianismo. A Sociedade Vegetaria do Reino Unido afirma que os problemas de aquecimento global seriam resolvidos se as pessoas parassem de comer carne. Você concorda?
DL – Não é bem assim. Acho que haveria um grande impacto se isso realmente acontecesse. Mas não quer dizer que não teríamos que tomar as outras ações para reverter o quadro.
ME – O Climate Camp, em parceria com outros grupos, planeja uma grande manifestação em frente ao Banco da Inglaterra, no dia 1° de abril. Qual é a previsão de vocês sobre o número de pessoas que participarão?
DL – É difícil estimar. Mas eu diria dezenas de milhares.
ME – A polícia já anunciou um plano para conter o protesto. Vocês estão preparados para enfrentá-la?
DL - Sim, estamos. Temos algumas táticas para lidar com a polícia. Basicamente, vamos dizer que ficaremos acampados lá pacificamente por 24 horas e, depois, vamos embora. Se a polícia nos proibir de fazer isso, provavelmente vamos para outros pontos da cidade. Mas esperamos não ter problemas.