Sobre Silvia Marcuzzo

Silvia Marcuzzo é jornalista e trabalha a temática socioambiental desde 1993. Já transitou em diversos “ecossistemas” e arranjos energéticos do jornalismo. Ao passar por assessorias de ONGs, governos e consultorias para empresas, em Porto Alegre, São Paulo e Brasília, sempre manteve a convicção de que é possível melhorar a relação entre os “ambientes” e a comunicação. Por isso, fundou a ECOnvicta Comunicação para Sustentabilidade.

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20/03/2012 às 11:12 (4 comentários)

Dines dá show de lucidez aos 80

A necessidade da regulamentação da Comunicação no Brasil, assim como a baixa qualidade da imprensa hoje foram alguns dos assuntos abordados pelo jornalista Alberto Dines, no Roda Viva de ontem, 19 de março, da TV Cultura. O ex-editor chefe do Jornal do Brasil e articulista do Observatório da Imprensa foi contundente, deu um show de conhecimento, memória e perspicácia e comentou coisas que muitos pensam, mas poucos tem coragem de colocar para fora.

Revelou que nos seus mais de 60 anos de jornalismo sofreu muito mais censura da iniciativa privada do que nos tempos da ditadura. Falou de suas demissões e comentou o quão absurda achou a decisão do Supremo Tribunal Federal, comandado por Gilmar Mendes em derrubar a obrigatoriedade do diploma para jornalista e o fim da lei de imprensa.

E quando o assunto foi sobre a qualidade da imprensa, falou da necessidade de se ter uma programação mais voltada aos interesses da sociedade, do debate às estratégias de igrejas e de políticos, que ganharam concessões para perpetuação do poder ou simplesmente por atender o que vende para seus públicos.

Para ele, falta empenho da grande mídia para uma boa cobertura. Dines assumiu que o único telejornal que assiste é o da BBC, mas que também gosta do Jornal das 10, da Globo News, e que adora a revista Piauí. Comentou como o mercado deturpa ideias originais, como a da própria revista Caros Amigos. Ele contou ter sido o autor do título da revista, mas que assim como ele, os pais da empreitada acabaram tirando o time de campo, porque a linha editorial acabou seguindo mais as regras do mercado do que a essência pensada para o impresso.

Dines mostrou-se um inconformado e salientou diversas vezes que o Brasil é muito Fla-Flu, quer dizer, que falta um processo de entendimento, de debate para se mostrar vários lados, sem ser branco ou preto, ou Grenal, tão sentido principalmente nas nossas bandas aqui do Rio Grande do Sul. Ele inclusive acha que os novos jornalistas não teriam condições de fazer essa mediação, que precisaria de velhinhos, como ele, para se promover esse cenário onde não se deve demonizar ninguém, mas sim, ouvir todas as partes possíveis.

A entrevista do Dines soou como música para meus ouvidos. Com ânimo de um menino, disse que o Brasil precisa e quer ter uma imprensa inteligente. Ele tem esperança de que as páginas dos jornais dêem mais espaço para a contextualização e o que está por trás das notícias. Muito do que sai em jornais, como o El País, segundo ele, sairá por aqui só depois de fatos consumados.

Como jornalista inquieta, vejo o quanto somos vítimas de uma certa zona de transição/conformismo combatido pelo Dines. Saí da faculdade batendo em máquina de escrever e consultando o dicionário. Hoje não vivo sem um note (nem falo em tablets) ou o Google. Reféns de pensamentos que exigem ações pela sobrevivência, de acordo com as nossas “formas-pensamento”, isto é, aquilo que já foi predestinado pela nossa cabeça, não conseguimos hoje nem encontrar com os amigos jornalistas para a simplesmente troca de ideias sobre o que saiu ou deixou de sair.

A autocensura, a aceitação de que simplesmente não se tem o que fazer, que as coisa são assim ou assado e pronto, além de ser uma derrota antes do fim do jogo é um exemplo básico de como precisamos dar voz a outros Dineses que andam por aí. Temos muito a aprender com quem escreveu a história e constatar que somos responsáveis pela nossa. O pior mesmo está dentro de nós mesmos.

(Silvia Marcuzzo/Mercado Ético)

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Comentários

Paulo Pereira - 21/03/2012 às 11:41

Precisa a opinião do jornalista Alberto Dines sobre o "Fla-Flu"ideológico que é disputado no Brasil. A maioria do(a)s "comentaristas" brasileiro(a)s, diplomados universitários em história e ciências políticas, são ardorosamente torcedores de suas ideologias, não conseguindo separar joio do trigo, sendo parciais, o que inviabiliza a seriedade de suas opiniões, muitas vezes interessantes. Esse(a) comentaristas ainda não se emanciparam politicamente, permanecendo na minoridade intelectual, como falava Kant. Dines atingiu a maioridade intelectual e pensa no nível filosófico ( sem diploma universitário!).

Deise Henckel - 21/03/2012 às 11:09

Muito bom Sílvia! Alberto Dines é admirável. O seu observatório da Imprensa é imperdível.A garra dele me faz lembrar do saudoso José Lutzemberger. Alguém tem que manter a chama acesa.

Luciano Bortoncello - 21/03/2012 às 09:01

Parabéns Silvia. Alberto Dines tem que ser ouvido, lembrado, debatido e questionado. Gostei muito do programa, da lucidez e experiência dessa enciclopédia do jornalismo brasileiro.

vera mari damian - 20/03/2012 às 21:35

Bom artigo Silvia. Admirável esta tua militância pela qualidade no jornalismo. Ás vezes acho que somos da era dos dinossauros e só seremos reconhecidos por pegadas arqueológicas.

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