Sobre Repaginando

O blog REPAGINANDO é produzido por pai e filha, apresentando questionamentos e propondo reflexões sobre o modelo civilizatório e seus fundamentos, em particular o modelo econômico vigente. Homero Luís Santos é professor e consultor do UniEthos, professor associado da Fundação Dom Cabral, membro-fundador da Comissão de Estudos de Sustentabilidade para as Empresas do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa – IBGC e Conselheiro Efetivo do Conselho Regional de Administração – CRA-SP. Maria Fernanda Cardoso Santos é doutoranda em Filosofia pela Universidade de Granada, Espanha, mestranda em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Ambos se alternarão na postagem do blog e, periodicamente, desenvolverão diálogos em que se buscará confrontar e aprofundar abordagens e pontos de vista.

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09/03/2011 às 09:43 (1 comentários)

Dinheiro, Incerteza e Lucro: o Trio Elétrico do Capitalismo

Prolegômenos / Como talvez por lá se diria – e quem diria! -, Homero foi dar com os seus burros em Lisboa. Na verdade, a expressão corriqueira é “dar com os burros n’água”, numa alusão ao que ocorreu com os gregos sob o comando do general Xenofonte: retornavam derrotados de uma incursão bélica à Pérsia, em auxílio ao imperador Ciro, o Moço, na luta pelo poder contra o irmão Artaxerxes II, e ao ver o mar exclamaram, eufóricos: “Tálassa! Tálassa!”. Foi nesse sentido que deram com os cavalos (com os burros, na versão adulterada) n’água: chegaram às margens do Egeu – o que foi de excelente augúrio, pois o mar sinalizava a possível travessia de 10 mil soldados de volta à casa, a Hélade, após indizíveis agruras. A vinda de Homero a Lisboa foi, igualmente, auspiciosa, motivada por afazeres do nada fazer e por alguma atividade profissional, amena. E por infindáveis conjecturas sobre a temática diletante que abraçou.

Foi coisa de uma semana, tempo certamente exíguo para empreitadas de larga envergadura, considerando os inescapáveis roteiros culturais, as visitas a sítios notáveis e alguma experimentação gastronômica – afinal, de tudo isso, o que não se pode é deixar de comer, e aqui, particularmente, deixar de experimentar a farta e valorosa variedade vinícola. Nada impediu, entretanto, que escritos na linha de sua predileção fossem vertidos nessa sua estada lusitana, e eis o primeiro registro de Homero nessa linha.

A Delicada Borboleta Chinesa / “Sempre me perguntava se não existiria um disparador primordial, como a borboleta do meteorologista Edward Lorentz, que tivesse desencadeado todo o processo de desestabilização de nossa sociedade, que vem colapsando numa inexorável deterioração socioambiental. Afinal, todos os fenômenos complexos obedecem aos princípios da Teoria do Caos: mínimas causas iniciais se amplificam na complexidade exponencial do sistema e terminam por gerar extraordinários efeitos deslocados no espaço-tempo, de modo tal que a relação causa e efeito se mascara, impedindo-nos de deslindar de pronto a dinâmica do processo.

“Após muitos questionamentos e infindáveis verificações de formulações teóricas sobre ecologia, economia e sustentabilidade, leitura de textos históricos, reportagens e matérias da imprensa, e insights intuitivos, espontâneos ou baseados em leituras, entendi que tinha chegado ao ponto: o disparador da insustentabilidade da civilização é o dinheiro. Claro que não me refiro propriamente ao dinheiro na sua materialidade de moedas e notas, mas ao processo pelo qual o dinheiro é criado, circula e se concentra nas mãos de grupos privilegiados.

“Ah! o dinheiro… Seria então ele o vilão? Temos a noção corriqueira de que quem cria o dinheiro e o administra são os governos, mas é uma ilusão, um ledo engano derivado de má informação. O dinheiro, desde a Idade Média, é criado por intermediários que o acumulam e emprestam, no âmbito que hoje chamamos de sistema financeiro, formado primordialmente pelos bancos. Mas o que nos autoriza a eleger o dinheiro como candidato vilão do desmantelamento da sociedade? Na essência, uma simples particularidade, vejamos a seguir.

“Toda a matéria existente no Universo, por conseqüência no nosso planeta, está sujeita à já conhecida e inexorável Segunda Lei da Termodinâmica, a Lei da Entropia. Não apenas a matéria, a energia também (o que não é de estranhar, se considerarmos a equivalência einsteiniana entre matéria e energia). Tudo o que existe mais cedo ou mais tarde migrará de um estado de baixa entropia, ou seja, alta organização e, no caso da energia, elevada capacidade de realizar algum tipo de trabalho, para um estado de alta entropia, ou seja, desorganização e dissipação. O que agrava sobremaneira essa tendência natural é que toda ação humana é amplificadora da entropia: nossa ação no mundo é fatalmente desgastante tanto do que chamamos de capital natural, a Natureza e seus processos, como do capital construído por nós mesmos, os artefatos da civilização que criamos para servir como nossas extensões.

“E aí temos então a surpreendente revelação que nos passa, a nós, cidadãos comuns, mesmo que interessados no tema, totalmente desapercebida:  o dinheiro foge cabalmente do alcance da Lei da Entropia. Aliás, vai na contramão da física: enquanto todo o resto do Universo decai segundo a segundo, o dinheiro pode ser criado, recriado e mantido nas quantidades desejadas – e haja desejo nisso!!! – e permanece sendo dinheiro, sem decair dessa qualidade. Aos que possam argumentar que o dinheiro também se desgasta, pois as notas perdem textura e coloração, e as moedas, pelo suor de quem as manuseia e pelo efeito do atrito ao longo do tempo, perdem seu relevo, reafirmo que me refiro à carga informacional que suas representações portam, não aos veículos materiais de que se serve para circular fisicamente.

“Dinheiro é informação pura, suportada por uma crença socialmente avalizada de que vale algo, ou seja, de que vale o que informa valer. Aquilo a que me refiro é o dinheiro no conceito de processo contínuo, que pode ser criado pelo fracionamento das reservas bancárias, em que depósitos viram, exponencialmente, novo dinheiro, até uma multiplicação que pode chegar à ordem de cinco a seis vezes; perto disso, o dinheiro-matéria, notas e moedas, apequena-se ao quase sumiço. E aí vem a bomba conceitual: o dinheiro, nessa característica, é o combustível do crescimento, aquele ‘adorável’ e perverso meme que infesta viralmente nossa civilização. Se o crescimento é o dragão devorador do mundo material e o esgarçador da textura social, na esteira da ilusão de uma felicidade cada vez mais distante, o dinheiro – que o visionário Caetano cantou como a ‘força da grana que ergue e destrói coisas belas’ (e como destrói!) – é a musculatura robusta que move suas articulações.

“Não bastasse essa temível característica, o dinheiro nivela os seres e objetos segundo o denominador comum do valor financeiro que viabiliza concretizar aquisições, fazendo com que uma floresta possa ser substituída por um reflorestamento, que a cessação de uma vida seja mitigada por uma indenização, em ambos os exemplos o substituto que se adquire com o dinheiro ganhando equivalência com o bem ou ser desaparecido. O dinheiro, por fim, torna todas as coisas fungíveis, intercambiáveis umas pelas outras, pois cria o poder de repor qualquer objeto ou vida, como se por seu intermédio e pelo valor com que é marcado pudesse proceder à compensação da perda nos seus vários significados. Árvores, vidas humanas, edificações, obras de arte, mares, rios, lagos, pássaros, mamíferos, peixes e moluscos, ecossistemas, tribos indígenas, culturas ancestrais – tudo pode ser reposto por outras coisas de mesma e igual função, retornando ao ‘como era antes’, certo? A resposta é que a maioria de nós vem aceitando tudo isso como ‘certo’… e nessa atitude se abriga a causa deflagradora da nossa desordem planetária, atuando como um Big Bang às avessas, devorando coisas, pessoas e valores – os mesmos valores, coisas e pessoas que cabe à sociedade proteger. Esse deflagrador é, parafraseando Alexis Carrel, ‘O Dinheiro, esse Desconhecido‘, ou essa entidade propositadamente ocultada na sua verdadeira essência e função… A resposta está dada!”

Narrador em Off / Foi lá pelas três horas da madrugada que tudo isso foi sendo vazado. Surgiu de uma espécie de pesadelo do qual saiu ofegante, coração acelerado, com as palavras ecoando em meio a um torpor, donde emanava o refrão “é o dinheiro, é o dinheiro”, como que respondendo sinteticamente a indagações que se vinham revolvendo há dias.  Homero registrou tudo na forma como se encontra acima e, com o dealbar ainda distante, enrolou-se nas cobertas e voltou a dormir: tinha ainda um voucher de umas três horas de sono a descontar.

A brisa matinal começava a beijar a folhagem pontiaguda dos ciprestes típicos das regiões temperadas e os tordos já produziam sua habitual cantoria, quando Homero teve esgotado o saldo do voucher de sono, desta vez sem sobressaltos sudoríferos, e abriu os olhos. Inexorável, já lá estava esperando para dar seu recado o fluxo incessante do pensamento que, seguindo a rotina da mente, havia prosseguido ativo durante o sono, e que desta vez fez brotar, como um sopro interno no seu ouvido, o mantra: “É o tempo, é o tempo, é o tempo…” – e a alusão ao escrito da madrugada era clara para ele. Sentindo óbvia a referência, Homero logo se disse displicente: “Certo, já sei: tempo é dinheiro, já sei, já se sabe… Tempo é dinheiro, e daí?”. Mas a coisa era outra, um pouco mais complicada. Feito o desjejum, o mantra continuava ressoando: “É o tempo, é o tempo…”. E Homero começou a desconfiar de que a coisa era bem outra e, para deixar vir o que insistia em se anunciar, se postou receptivo em posição de escrita frente ao computador, do que saiu isto que se segue.

Dinheiro e Tempo, os Irmãos Siameses / “Primeiro, veio-me a questão do dinheiro. Explorada, fez brotar a percepção de que o dinheiro se beneficia em muito de ser isento dos efeitos da entropia: uma categoria privilegiada neste nosso Universo em decadência material, ainda que no longuíssimo prazo. Prazo… isso remete a temporalidade: prazo é um ponto na linha do tempo. Ligação feita: chegamos do refrão do dinheiro ao mantra do tempo… O tempo aflora agora na esteira das elaborações acerca do dinheiro. O mantra do tempo vem para acrescer algo ao refrão do dinheiro, logo daí pipocando dúvidas: por que dizemos que ‘tempo é dinheiro’? que relação guardam essas duas categorias? Ah! benfazejas dúvidas! Parece que por elas nos chega uma chave… fazendo reportar à idéia das escolhas intertemporais, aquela sacada genial do Eduardo Giannetti, a saber: dada a consciência que, como humanos, temos da nossa finitude – somos todos filhos do deus Morte! -, aliada à incerteza absoluta de quando teremos a vida ceifada, então o tempo assume foros de recurso potencialmente escasso e também de disponibilidade incerta, prestes a se esgotar a qualquer momento, para nós humanos vivos e conscientes.  Ponto conquistado!

“Na margem oposta dessa demanda per se intensa de tempo, deparamo-nos com uma oferta que, tecnicamente, se classifica como inelástica, ou seja: não importa quanto se esteja disposto a pagar por um átimo extra de tempo, não importa se altíssimo o montante que se esteja disposto a despender, em qualquer hipótese a oferta de tempo é totalmente invariável, limitada a 24 horas por dia, ou 60 segundos por minuto, ou qualquer outra fração cronológica por período equivalente, que se imagine. Como diriam os economistas, uma absoluta inelasticidade marginal! Curioso é que isso subjuga todos os seres vivos – e portanto finitos – à ditadura de um denominador comum: a nós todos é ofertada a mesma porção de tempo, enquanto viventes, por certo… Já a demanda de tempo, em particular a humana, é da mais variada magnitude, obedecendo aos caprichos da paciência individual: os impacientes são sôfregos de mais e mais tempo na sua vida, uma sofreguidão inesgotável, enquanto dure a impaciência. Tempo, assim, se elege como de alto valor, fruto da sua escassez e da sua indiferença às oscilações da procura, e esse valor se magnifica na medida em que mais incerteza percebamos em relação ao futuro, essa aliás, diga-se de passagem, a dimensão crítica do tempo, para o que aqui se discute. Tempo é valor, dinheiro representa valor, ergo tempo vale dinheiro, TEMPO É DINHEIRO!!! Quod demonstrandum erat, ufa!!!”

Narrador em Off / Pausa… O combustível do cérebro é a glicose e Homero espichou pernas e braços, tomou um ar na janela e… lá se foram esôfago abaixo, depois de devidamente desagregados pela mastigação e saboreados pela língua e adjacências, dois pasteizinhos de Belém que trouxera numa caixinha para viagem do passeio do dia anterior e conservara no frigobar do hotel. Provido da glicose e reenergizado, retomou o texto.

Falta Tempo na Vida e Dinheiro na Carteira / “Demonstrado pelo lado da escassez o valor do tempo, desponta um outro ângulo capaz de aduzir características ao seu significado, mediante uma abordagem subjetiva e psicológica, e que o reforça como proxy do dinheiro e, pasmem os desavisados, isso faz desembocar em que o dinheiro por sua vez se constitui em proxy da vida. Sim, da Vida!!!

“Aqui tenho que ser muito explicativo, sob pena de uma desqualificação abrupta do leitor por insanidade presumida e do conseqüente abandono da leitura. Então, vamos lá, pensemos no nosso dia-a-dia, na nossa rotina. Estamos sempre e inevitavelmente com nossa vontade energizada, querendo coisas ou não querendo nada – aliás, esta última é uma postura volitiva, também. Quando queremos algo, é porque ainda não o temos, ou temos mas queremos mais daquilo que já temos. Nossa dinâmica psíquica é movida a desejos que geram vontades, e vontades sempre apontam ao futuro, ainda que imediatíssimo: por exemplo, vontade de espreguiçar – é só distender os braços para o alto, respirar fundo e… pronto!

“Quanto mais queiramos, mais intensa se torna a vida e, se aquilo que ocupa a nossa vontade requer mais que um movimento de braços – ou, digamos, não se satisfaz com o mero acionamento do nosso endossoma – então vamos à busca de algo externo, exossomático: uma pessoa, um objeto, uma comida, um lugar, um animal… pode ser nosso pequeno pet ou uma maçã na fruteira, não importa. Nesse momento, em que pomos em movimento nosso aparato somático à busca do que estamos querendo, nesse exato momento isso acaba por se transformar numa busca de satisfação de uma necessidade – e nisso nos defrontamos com uma situação de consumo potencial. De novo, o consumo pode ser endossomático, e depende apenas, pondo as coisas em termos mecânicos, de queimar calorias, como fazemos para conversar com alguém, afagar o cãozinho, beijar o parceiro ou a amiga, morder a maçã ou atender à porta; ou será exossomático: vamos lançar mão de algo que temos guardado ou que já está à disposição para uso, ou ainda, se não o possuímos, vamos atrás de adquirir esse item, indo às compras. Bem, resumindo: a vontade, que nasce dos desejos, se transforma em necessidades a satisfazer e, quanto mais necessidades acumulamos por unidade de tempo, mais densidade pomos em nossa vida, o que nos leva a desejar mais tempo para vazar tudo em satisfação. Mesmo assim, ‘será que toda essa congérie de necessidades’, perguntamo-nos, ‘vamos ter tempo futuro para realizar ?’- algumas são prementes e indispensáveis, imediatistas; outras, discricionárias, posso postergá-las – mas quanto posso esperar, qual o grau da minha paciência?

“Há nesse caso duas situações determinantes da paciência, ou melhor, da impaciência, pois é sobre ela que agem: a intensidade dos desejos – ‘quero mais vida no meu tempo’; e a percepção de incerteza quanto ao futuro – ‘quanto ainda viverei para satisfazer todos estes desejos?’. Em ambos os casos, partimos para a realização do consumo: de energia endossomática – calorias e células que se destroem na atividade; de meios exossomáticos – bens e serviços, para falar a linguagem do mercado, que tragam a satisfação buscada. Como não somos, os humanos, motos-perpétuos – longe disso… – a própria energia endossomática, que provém de uma poupança fisiológico-anatômica de calorias e outros nutrientes, tem que ser reposta, via consumo de alimento: para comer, temos que ‘ir às compras’, em última instância…

“Entregar oferendas ao deus Mercado, ‘ir às compras’… tal é inevitável, na sociedade civilizada em que vivemos, onde orbitamos sob o poder gravitacional do modelo econômico vigente. Claro que não me refiro aos pontos extremos da distribuição estatística dos consumidores, àqueles indivíduos que se encontram afastados da média em 3 a 4 desvios-padrão: de um lado, aos que vivem da sua própria produção, que são auto-sustentáveis; e de outro, àqueles que mal sobrevivem na miséria e que são por isso insustentáveis. Falo sim dos aproximadamente 70% compreendidos na faixa de um desvio-padrão em torno da média – devem estar aí os que, com maior ou menor freqüência ou intensidade aquisitiva, terminam por ‘ir às compras’, pois estão inseridos no sistema econômico. E compram com quê? Com dinheiro, esse dinheiro que faz encurtar o tempo de espera dos impacientes, mediante o gasto do que tenham poupado ou do que recém-receberam, ou ainda mercê de um empréstimo que tenham contraído.

“Há uma terceira alternativa: o escambo, a troca direta de bens e serviços sem intermediação monetária, cujo uso cresce no mundo mas que em algum momento acaba infalivelmente esbarrando na transação monetária, pois haverá necessidade de a períodos ingressar no sistema financeiro para adquirir itens não sujeitos a escambo. Curiosamente, o escambo se ajusta sob medida para os 30% que estão fora do sistema e não alcançam dispor de dinheiro, o chamado dinheiro fiat, aquele de circulação oficial e forçada. Aliás, muitos desses utilizam já uma moeda local, chamada backed, criada e suportada por uma comunidade, mas que não é o foco desta nossa perquirição, embora possa ser uma das soluções para reduzir a aleatoriedade do comportamento financeiro global, pois coloca a gestão do dinheiro no controle da comunidade, blindando-a das oscilações erráticas produzidas pelo fracionamento das reservas bancárias.”

Narrador em Off / Uma noite estrelada, sem nuvens, se exibia lá fora, o sono rondava. Nova pausa para merecidamente bebericar uma caneca de café forte e amargo, com acompanhamento de um brownie integral de aveia. Reabastecido de mais glicose e turbinado pela cafeína, Homero podia deixar o box e ganhar de novo a pista. E lá se foi…

Cronosplutomáquia, a Guerra Tempo-Dinheiro / “O dinheiro nos permite pôr mais vida em cada unidade de tempo, aquele tempo cuja oferta é inelástica, dando ao que é fracionado em fatias iguais uma característica de elasticidade, mediante o alargamento artificial de cada fatia: intensifico minha atividade consumindo mais na mesma unidade de tempo, o que só se torna possível se tenho dinheiro em mãos – próprio ou emprestado. Ponho mais vida no meu tempo graças ao dinheiro: tempo me brinda vida agora, me livra da incerteza do amanhã. Curioso: a psicologia existencialista recomenda viver no aqui-agora – ‘esqueça-se do futuro’. É o que o dinheiro logra fazer… é o lado ‘vida’ do dinheiro.

“Está bem que podemos colocar mais vida no nosso tempo aumentando subjetivamente o significado da própria vida enquanto sendo vivida, servindo-nos da ioga, da meditação ou da reflexão filosófica. Certo, essa pode ser a própria via de escape da servidão ao sistema econômico, mas no momento estamos trabalhando exatamente sobre os motivos e causas que nos retêm nessa vassalagem.

“Vamos lá, juntemos agora as coisas: vida, tempo, incerteza, desejo, impaciência, dinheiro, consumo, entropia. Organizemo-las então, começando pelo dinheiro. O dinheiro pode ser emitido livremente pelo sistema financeiro para atender ao desejo de mais vida por unidade de tempo, mediante a aceleração da produção de bens e serviços, ao crescimento econômico. A isto temos chamado de progresso: são mais empreendimentos, vale dizer, mais capital construído, que geram empregos e renda, ou seja, realocam o dinheiro, e geram produtos, tangíveis e intangíveis, que convidam por sua vez ao consumo da renda gerada. Se os desejos não exigem gastar a renda quando recebida, refletindo um maior grau de paciência, estou diferindo o tempo do meu consumo pela opção de poupar, mas também sujeitando a renda recebida aos azares que a incerteza traz. O valor a consumir acaba ampliado pela agregação dos juros, que compensam a espera e a incerteza: não consumo um tanto agora, mas vou consumir um tanto a mais no futuro, considerando que os juros cobrem a inflação da moeda. Os juros são o prêmio pela renúncia ao uso presente e pela espera da disponibilidade futura, bem como pela incerteza envolvida e aceita.

“Ocorre que há a mencionada desigualdade de condições objetivas entre o dinheiro – que poderíamos, agora, chamar de capital financeiro – e o capital natural: o primeiro, cresce à medida dos desejos de quem o controla, atribuindo-lhes por isso mesmo imenso poder; o segundo sujeito está à entropia, cuja ocorrência é antropicamente ampliada justamente pela aplicação crescente do dinheiro na atividade econômica – e esse crescimento, já o sabemos, tende a ser ilimitado, situação dramática face aos recursos materiais e energéticos que mobiliza, limitados e… sujeitos à Lei da Entropia. Não é à toa que nosso modelo civilizatório se encontra na situação dilemática e ameaçada do presente.

“Poder haver algo mais expressivo do poder do dinheiro do que a célebre frase: ‘Dê-me o controle do dinheiro de uma nação e não me importará quem faça as leis‘, proferida por Mayer Amschel Rothschild nos idos do século XVIII? A edição da revista Forbes de 2005, dedicada aos ‘Vinte Mais Influentes Homens de Negócios de Todos os Tempos’, referiu-se a esse Rothschild como o ‘pai fundador das finanças internacionais’. Há que atribuir peso e pertinência a essa declaração…

“Para moderar essa voracidade e prepotência que a posse do dinheiro traz consigo, duas propostas se destacam dentre as muitas que têm sido feitas – ambas de problemática execução pois ameaçam o poder de comando das elites financeiras encasteladas nos seus bunkers. A primeira seria a extinção gradativa da faculdade dos bancos, mediante uma mínima regulamentação no plano internacional, de gerar moeda, a tal moeda escritural, limitando-se assim a criação de dívidas – saques antecipados para realizar no presente o que o futuro incerto poderia obstar -, restrição essa que se estenderia também aos derivativos financeiros, ao mercado de futuros e à arbitragem entre moedas, práticas que produzem a mesma desmedida ‘multiplicação dos pães’.  A economista-futurista Hazel Henderson  denominou esse tipo de atuação desregrada do sistema financeiro mundial como Cassino Global, cuja extinção eliminaria um mero jogo de azar que se traveste de operações legais, reduzindo o montante de recursos financeiros disponíveis para transações a um nível compatível com o volume de bens que são produzidos e comercializados no setor real da economia.

“A segunda é a criação no sistema financeiro do demurrage, em contraposição aos juros que são a prática corrente: o dinheiro parado, depositado, pagaria uma taxa de permanência, a título de ‘custo de carregamento’ – equivalente prático de uma inflação predefinida e administrada – que forçaria a aplicação imediata de qualquer excedente financeiro em atividades no setor real, em bens e serviços, desestimulando a prática insustentável de criar dinheiro como saque contra o futuro. Deixando de constituir-se numa reserva de valor, com o demurrage o dinheiro passaria a ser apenas um meio de troca, alinhando-se aos processos naturais do qual é separado pelas características que o tornam, como já vimos, insubmisso à Lei da Entropia.

“Liricamente, o dinheiro pode ser contemplado como o mitigador da nossa incerteza e da impiedade do deus do tempo, Chronos, que nos leva daqui deste mundo a seu arbítrio implacável… Enquanto duramos, queremos desafiar Chronos e pôr mais vida em nosso tempo, alargando artificialmente sua duração, e o dinheiro, o deus Pluto, é nosso aliado nessa façanha. Emerge desse conjugado de influências a dúvida: seremos verdadeiramente altruístas? Como se explicaria então que para o abrandamento de nossa impaciência destruímos hoje, agarrados às asas aceleradas do dinheiro, a fina tessitura que continuará sustentando não apenas a Vida presente, que já se esgota veloz, mas a Vida futura dos que herdarão nosso mundo, nossa civilização? Poderemos conciliar um dia, em nossos corações e mentes, em nossas ações no mundo, Chronos e Pluto, os deuses gregos que, sempre em conflito no nosso íntimo, regem nossa vida civilizada?”

Narrador em Off / Dizem que nas sinfonias, que nos soam como um contínuo polifônico ininterrupto, há mais pausas que música, se nos detivermos em cada instrumento e computarmos o total das suas pausas confrontado com os momentos de sonoridade. As pausas respondem assim, mercê da cadência que introduzem, no mais das vezes imperceptível, pela musicalidade da execução e pelo embalo que nos enternece ou magnetiza. Assim ocorre com nossa atividade: é nas pausas, nas paradas inativas, que elaboramos o próximo lance de idéias. Foi com essas idéias vagando pela mente que Homero se auto-justificou de interromper o trabalho e ir dormir, preparando-se para o lançamento final do dardo no dia seguinte – havia algo de épico nas suas intenções para o fecho do seu escrito.

Cumprida a rotina do pós-despertar, que incluiu no caso o desjejum, Homero decidiu rumar para os arredores do Castelo de São Jorge, sítio altaneiro com vista privilegiada do Tejo, no centro de Lisboa. Fantasiava necessitar da energia do santo guerreiro para prosseguir e concluir com êxito os seus desígnios. Sentou-se à mesa de uma das cantinas próximas e principiou.

Chuva com Trovoadas em Nova Iorque / “A metáfora da borboleta que encabeça todo este arrazoado tinha que nos brindar com um desfecho satisfatório que justificasse sua invocação vestibular. Tudo o que se escreveu entrementes foram argumentos e considerações que definitivamente não correspondem, na metáfora, à tempestade em Nova Iorque que o adejar da borboleta de Pequim haveria desencadeado. Falamos das gotículas aquosas que se aglomeram em nuvens, falamos das correntes eólicas que as transportam, das oscilações térmicas que promovem as precipitações – enfim, elaboramos em torno da fenomenologia meteorológica. No domínio das borboletas, identificamos o binômio tempo-dinheiro como os disparadores. Bem, e agora, como seria a tormenta em Nova Iorque? Que desfecho seria esse que, desvendado, poria on the spot o agente mor da turbulência e instabilidade da nossa sociedade? Como seria essa tempestade na outra extremidade da agitação da borboleta? Revelação!!! Tal figura, e essa é a minha crença, atende pela alcunha de LUCRO, esse algoz cuja extensa ficha corrida está tisnada por toda uma coleção de atentados à integridade socioambiental e à viabilidade das gerações vindouras.

“Não se trata aqui, entretanto, do lucro stricto sensu na sua função de remuneração do investidor que empreende: todo esforço, todo custo, toda atitude antecipatória – e tomar riscos é antecipar futuros – deve ter sua recompensa, é de praxe e de justiça. O capital investido tem o seu custo de oportunidade que deve ser contabilizado e retribuído aos investidores. Refiro-me, portanto, ao lucro como ganância, como exacerbação do desconto do futuro. É a ganância de tempo – ‘quero o máximo tão logo quanto possível (e impossível…)’ -traduzindo-se na ganância de dinheiro: ambas as avidezes se confundem e eclodem em explosão feérica no instituto econômico-financeiro do ‘lucro’ tal como tem sido praticado.

“A reputação original dessa figura incensada como o nutriente que impulsiona e robustece a musculatura do deus Mercado não é das melhores, e a coisa vem lá da Roma Imperial. Segundo Houaiss, LUCRO se enraíza no latim lucrum = ‘ganho, vantagem, proveito’, que gerou a variante popular LOGRO = ‘roubo, proveito obtido mediante engodo, engodo’. Só para mencionar e reafirmar essa mácula semântica, em espanhol a figura atende pelo apelativo de ganancia.

“Na língua francesa e depois na inglesa, em ambas a expressão equivalente a lucro – profit -, surgiu no século XIV como prufit, que deriva por sua vez do latim profectus, com o significado de ‘levar adiante, progredir’. Convenhamos que aí se resgata algo dessa reputação etimológica maculada, e lucro passa a ser sinônimo de progresso; entretanto… já vimos para onde nos vai conduzindo esse progresso excludente que transfere à sociedade, em nome do lucro, todas as externalidades negativas da atividade econômica, gradativamente minando a durabilidade de nosso modelo civilizatório, com âncora no deus Mercado, ao tempo que faz concentrar mais riqueza nas mãos dos que já possuem muito, ampliando sua distância dos menos aquinhoados, esse um problema social que dia-a-dia se agrava.

“De fato, constatamos que o futuro termina por ter muito menos valor que o presente – as primeiras aulas de finanças ensinam isso… Descontamos o futuro nos juros e no lucro!!!  É o exercício das tais escolhas temporais antecipatórias perante a incerteza. Nos juros, o limite é a prática de mercado; no lucro, o céu é o limite… deitando fagulhas abrasivas na sua trajetória rumo ao alto. O lucro, afinal, acaba se caracterizando como a criatura com hábitos vorazes gestada pela dupla tempo-dinheiro no âmago do mundo das corporações, como expressão exaltada da preferência impaciente pelo curto-prazo, postura que se alastra epidemicamente e repercute por toda a economia, fazendo-a também sistemicamente curto-prazista.

“É importante também esclarecer, para um entendimento mais alargado do contexto, que ao dinheiro se costuma atribuir um custo no tempo, denominado ‘custo de capital’ ou ‘custo de oportunidade’, que equivale grosso modo à taxa média de juros praticada no mercado, como contrapartida da indisponibilidade temporária para o seu detentor quando o empresta ou aplica a risco em negócios. Na gestão das finanças corporativas, a esse custo de capital sói ser acrescido, a título de remuneração extra, uma outra parcela, o ‘Valor Econômico Adicionado ‘ (EVA, como é conhecido), cujo objetivo é engordar o resultado financeiro do empreendimento, elevando o montante de lucro contábil que corresponde ao custo de capital.  A coisa funciona assim, focalizando o processo de planejamento, uma vez que tem a ver com a perspectiva de tempo: ano a ano do horizonte de planejamento, o custo de capital é atribuído ao capital do início do período como se fossem juros compostos; do lucro planejado para cada ano, é deduzido esse custo de capital e o excedente é o lucro econômico (ou EVA), que é descontado a valor presente pela mesma taxa que foi utilizada para o cálculo do custo de capital. É esse valor final que se busca maximizar.

“É nessa fresta que habita o demônio. A busca sistemática da maximização do lucro econômico leva a extremar a remuneração dos proprietários do capital e igualmente a dos executivos, estes em função do desempenho financeiro da corporação que conduzem. Assim, investidores e gestores passam a remar em harmonia rítmica na mesma direção: a meta geral passa a ser a maximização do lucro econômico, em proporção tão superior à taxa de juros quanto seja – legalmente – possível! E às vezes também atravessando a muralha legal… e é aí que se erige a fortaleza das conhecidas fraudes corporativas!

“Essa lógica do lucro máximo tem, indubitavelmente, que ser modificada, pois insufla uma guerra cujo teatro de operações é toda a economia, na qual se instala uma competição acirrada e predatória por capital financeiro, por produtividade e pela preferência dos consumidores, cujo contingente se espera que cresça continuamente – inclusão dos excluídos do sistema econômico -, com aumento do consumo agregado, em termos absolutos, do que quer que seja, desde que isso alimente o crescimento da economia. E haja capital natural para suprir com matéria e energia toda essa frenética peleja, e para receber o subproduto degradado, sob a forma de resíduos, do consumo crescente que acarreta! Assinale-se, a propósito, que a desejável inclusão dos excluídos no sistema econômico se mostra cada vez mais problemática, não em termos de como fazê-lo mas com relação à sobrecarga que o consumo resultante acabará por exercer sobre o capital natural: um terrível dilema ético entre equidade social e justiça ambiental.

“A fúria de antecipar e maximizar resultados financeiros – descontar ao máximo o futuro – leva a um verdadeiro videogame do ‘quem ganha mais’, numa batalha sem vencedores. Até a expressão estratégia, de origem militar, se fixou como conceito referencial da busca do lucro máximo. Nessa guerra onde todos atiram para todo lado, todos vamos perder no final. Na perseguição ao lucro máximo, competir e destruir o rival ficou absoluto, e isso é insensato, ainda que compreensível quando verificamos que o ser humano é gregário nas conveniências e excludente na sobrevivência. Não se pensa na sociedade, na espécie, e sim no indivíduo: altruísmo é uma miragem vazia…

“Aquilo de ‘viver do rendimento do capital natural, não de seu consumo’ tem ficado em segundo plano face à obsessão de viver intensamente, no presente, do rendimento do capital construído, que se forma a partir do capital natural que vai sendo assim consumido. Acabamos ficando, como sociedade global, aprisionados no desvão do Espectro de Meios e Fins, de Daly e Meadows, que é delimitado pelo segmento compreendido entre os Meios Intermediários e os Fins Intermediários – a meio caminho! – continuando a consumir à exaustão os Meios Últimos sem, contudo, atingir o bem-estar e a perspectiva de futuro com que nos acenam os Fins Últimos – aos quais as corporações e a economia deveriam nos conduzir, fosse a sua lógica outra que não a do lucro máximo com crescimento ilimitado.

“À vista de todo o exposto, sou levado a suspeitar fortemente de que talvez, como civilização, não tenhamos mesmo muitas saídas elegantes do enrosco em que nos metemos, a não ser que mudemos nossa visão da vida e do mundo e, como conseqüência,  venhamos a reformar toda a ordem financeira mundial tanto quanto o modelo econômico que ela alimenta.

“Cabe a esta altura um posicionamento pessoal. É que acho incrível, absurdo e assustador, e também sintomático, que ninguém se aventure a dizer, a singelamente declarar que a lógica da maximização do lucro vem sendo o motor da destruição de nossa civilização: que é a tempestade que a borboleta do dinheiro-tempo faz desabar, diferidamente no tempo-espaço, sobre nossas cabeças, liquidando com nossas melhores esperanças. Parece que essa omissão resulta da presunção de que aquele que diga que ‘o rei está nu’ possa ir parar no calabouço da corte. Sério, vejo mais fanatismo nessa idolatria enfezada do lucro que se manifesta difusamente mundo afora, do que no insano sacrifício dos homens-bomba. Claro! O lucro é, ainda e enquanto perdurar o seu primado, o altar onde se fazem as imolações ao deus Mercado – então, como praticar essa heresia sem sujeitar-se à ira divina??? Sei do risco que corro…

“Uma ressalva para afastar interpretações equivocadas: essa inculpação do lucro difere em propósito e essência dos motivos que teriam levado Karl Marx a condená-lo como expressão da ‘mais valia’ do trabalho, usurpada dos operários pelos capitalistas. Não se trata, este meu, de um posicionamento ideológico, mas sim da busca de desvelar todo um processo no qual, se há usurpação, a parte lesada não se restringe a uma classe social: abarca toda a sociedade, seu presente e futuro – e acredito ter aqui desfilado fatos, evidências e raciocínios que dão suporte à proposição aqui sustentada.

“Afortunadamente, idéias reformistas não são o que falta. A literatura econômica nos oferece várias propostas de revisão e mesmo reformulação do modelo econômico. Temos a bioeconomia, de Herman Daly, que reposiciona a economia como subsistema da ecologia, explicitando os limites naturais ao crescimento; o capitalismo natural, de Paul Hawken e Amory Lovins, que se centra na preservação dos ecossistemas como prioridade, pois sustenta a vida; o estado estacionário da economia, de Robert Solow, que propugna um ponto de frenagem na atividade econômica global, barrando o crescimento contínuo e centrando-a no desenvolvimento, de caráter qualitativo; e o descrescimento econômico de Serge Latouche, estipulado como a única saída para a continuidade da civilização. Mas nenhuma proposta contesta diretamente a lógica do lucro, como se o processo do lucro, como é praticado, fosse uma verdade axiomática a partir da qual o restante se organiza.

“Há, contudo e exatamente, que mudar a lógica do lucro – a qual aliás e na verdade nunca chega a ser apontada como o, ou menos ainda, um problema nessas várias abordagens. Não obstante, entendo ser urgente, como última bala no tambor, abandonar por outra a lógica do lucro maximizado, essa tempestade que o binômio tempo-dinheiro sutilmente vem desencadeando no seu bate-asas constante de borboleta fractal… O resto é conversa fiada, é auto-ilusionismo que se perpetua enquanto vamos descontando, descontando, ainda e sempre descontando um futuro que, ingênua ou hipocritamente, declaramos querer tornar viável e duradouro para nossos descendentes.”

Narrador em Off / As coisas da vida vão acontecendo. Logo após haver concluído todo este bloco extenso de considerações acerca de borboletas e tempestades, Homero passou rapidamente pelo hotel, transcreveu o trecho final para o arquivo de texto já iniciado, imprimiu tudo no business center, muniu-se de uma pequena valise com o essencial e lá se foi, receber Fernanda que aterrissava no aeroporto de Lisboa. Falou-se, num post anterior, que o bolso havia nocauteado o desejo, a propósito de ambos terem retornado desse mesmo Portugal ao pátrio Brasil com certa precipitação, em razão de reservas pecuniárias em esgotamento, e alguém menos tolerante poderia argüir-los de inconsistência nesse vai-e-vem que contraria os motivos do bolso. Se o fizesse, é porque ignoraria que ambos tinham acumulado boa quantidade de milhagem aérea nas andanças anteriores, e foi dessa fonte que saiu a passagem de Fernanda. Já Homero teve a sua viagem custeada por quem o chamou para as tarefas de além-mar. Está explicado, pois não?

Muito bem! Eis que então rumaram ambos diretamente do aeroporto para Évora pois, provado fica que nunca é demais esperançar, para lá estava seguindo também – finalmente! – Luciane Lucas, vinda de Coimbra. Desse encontro tríplice brotará enfim o próximo post, anunciamos desde já, que a publicidade é a alma do negócio, ou a sua alavanca…

Estavam já pai e filha, a esta altura, sentados ao redor de uma pequena mesa de uma bodega plantada, ao lado de tantas outras, na praça da Igreja de São Francisco, no centro histórico da cidade murada de Évora. Mal suportando a espera de exibir a Fernanda todo o seu longo arrazoado, Homero logo após as primeiras mordidas nos pasteizinhos servidos plantou no colo dela as páginas impressas com todo o texto, com uma quase súplica: “Leia, e me diga o que acha. Alguma observação? Está publicável? Está bom?”, esperando, meio veladamente, ser aplaudido pelo que entendia ter sido uma produção de “primeira classe”. Fernanda não denotava a mesma pressa. Leu com vagar, entre mastigadas de petiscos e goladas de um tinto do Alentejo, ao final releu algumas partes e, sem nada perguntar ou observar, tomou um longo fôlego como quem fosse iniciar uma fala – a postura sugeria isso… Prudente, e já antecipando a mecânica que regeria essa conversa, Homero rapidamente tirou do bolso da jaqueta o gravadorzinho e disse: “Fala!” E Fernanda falou; o texto, expurgado de algumas hesitações e habituais frases de passagem, está transcrito a seguir.

Desejo, o Passaporte para o Futuro / “Pois é… como diria Guimarães Rosa: ‘o tempo é o mágico de todas as traições’. Sim: se o dinheiro logra nos fazer viver o aqui-agora, faz isso, penso eu, em um dos sentidos que o verbo lograr tem: enganar, iludir. O dinheiro é a musculatura do dragão devorador do mundo material de que você fala porque justamente nos dá esta ilusão – compra o tempo, obedece à nossa impaciência, potencializa e realiza nossos desejos. Mas será isso viver o aqui-agora? Ou será esta idéia – o aqui-agora – mais um dos infindáveis produtos de prateleira que o deus Mercado nos oferece, na feira das ilusões?

“Vejamos. Se por aqui-agora entendemos o presente, quando falamos em desejo estamos sempre nos referindo a projeções de satisfação no futuro. Desejar e viver o aqui-agora estão em constante tensão, portanto. Estar no presente, plenamente, significaria um estado – por muitos almejado e por poucos de fato vivido – de expectativa zero, de aceitação das circunstâncias e da ação o mais desapegada possível de resultados. Era disso que, por exemplo, os estóicos falavam ao incitar o controle (e até mesmo a supressão) dos desejos. Ou seja, ‘viver no aqui-agora’ tem mais a ver com uma certa negociação com os desejos -  visando amansá-los ou suprimi-los – do que com a satisfação destes que o dinheiro possa nos ofertar.

“Mas, sabemos, o dinheiro tem sido o cômodo atalho a um suposto aqui-agora, já que, ao desejar e prontamente buscar satisfazer o desejo, se foge à crítica e à reflexão acerca do almejado e do almejante. E é este o seu logro – compra-se a ilusão de viver o imediato, mas o que se leva é uma cadeia de desejos que nos lançam sempre adiante, ao futuro!

“Estamos apresentados à nossa tensão existencial básica. Para a vida ter sentido – um alvo, uma orientação – deve ter um propósito, um projeto. E o que é projetar? Justamente, diz a etimologia, lançar-se para a frente, para o futuro. Viver com sentido seria, pensando assim, ter algo no horizonte, um Norte, um futuro a almejar. Mas viver só no futuro nos tira a magia do presente, o deguste dos momentos anteriormente desejados. Um eterno e pendular dilema. A questão é: como é que esta tensão – que se dá no plano individual – se situa nesta imensa rede entretece a Lei da Entropia, o dinheiro como musculatura do dragão memético do crescimento e nossa problemática situação planetária?”

Narrador em Off / Foi curta e incisiva sua fala, conforme vimos, virtude essa atribuível ao cansaço da viagem que nos subtrai rodeios. A sua apreciação sobre os escritos do pai, tão ansiosamente esperada, foi um lacônico ‘gostei’ – para Homero muito melhor que um sorriso reticente… À noite, no hotel e com a fala de Fernanda já editada, ambos concordaram que o tema estava corretamente endereçado em termos conceituais e formais, expressando tudo o que no tema e momento caberia dizer e que desejariam ter dito. Havia coerência, avaliaram, mas… e as alternativas, as soluções, as vias de escape? Brincando, Homero encenou para uma platéia imaginária, com gestos de regente de orquestra: “Distintas senhoras e distintos senhores! Aceitamos sugestões. Cartas para a redação serão bem-vindas… Boa noite, durmam bem!” E assim, satisfeitos e alegres, recolheram-se, que o dia seguinte, na Évora da muralha e das cinco portas monumentais, seria deveras momentoso.


Nota do Narrador: Repaginando também é cultura… Para quem esteja porventura se perguntando que diabos seria a tal Chronosplutomáquia, eis a resposta: trata-se de uma paródia a Batraquiomiomáquia, título de famosa sátira de Homero (o poeta grego!), em que relata uma guerra (maquia) entre rãs (batraquio) e ratos (mio). No nosso caso, a “guerra” se daria entre os deuses Chronos (tempo) e Pluto (dinheiro).

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Comentários

Carolina Piccin - 11/03/2011 às 11:18

Homero, investir meu tempo lendo seus textos só me enriquece. Rs.

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