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22/06/2012 13:00:08

Economia verde e o "amadurecimento" dos diálogos

Josi Paz, do Mercado Ético

Ao longo da segunda metade da década de 1980, mas principalmente a partir dos anos 90, começou a ganhar força no Brasil a onda da responsabilidade social de empresas, discurso que já tinha colado na fala do setor produtivo nos Estados Unidos. Mais ou menos no mesmo período, o Brasil sediava a Rio 92.

Aos poucos, com esse contexto favorável, a nova onda empresarial passou a ser a da responsabilidade socioambiental ou ambiental. A publicidade, mais uma vez, foi o arauto da moda, adotando a abordagem que nesses dias de Rio+20 voltou a ser enfatizada: basicamente, o que as campanhas “verdes” dizem é que as empresas vão ajudar a salvar o planeta.

Jovens bailarinos e ativistas da cultura chinesa compartilham mensagem de paz logo à entrada do prédio onde se realizou encontro promovido pelo Ipê. / Foto: Josi Paz

O discurso foi tanto, que, em junho do ano passado, o próprio Código de Autorregulamentação publicitária, o Conar precisou ajustar seu artigo 36:

Considerando a crescente utilização de informações e indicativos ambientais na publicidade institucional e de produtos e serviços, serão atendidos os seguintes princípios:

veracidade – as informações ambientais devem ser verdadeiras e passíveis de verificação e comprovação;

exatidão – as informações ambientais devem ser exatas e precisas, não cabendo informações genéricas e vagas;

pertinência – as informações ambientais veiculadas devem ter relação com os processos de produção e comercialização dos produtos e serviços anunciados;

relevância – o benefício ambiental salientado deverá ser significativo em termos do impacto total do produto e do serviço sobre o meio ambiente, em todo seu ciclo de vida, ou seja, na sua produção, uso e descarte.

Na medida, porém, em que a hipótese da mudança climática causada pela ação humana foi também ganhando força, o assunto deixou de ficar restrita somente à pasta do marketing: o meio ambiente se tornou uma preocupação global das empresas – do material utilizado no copo de cafezinho ao impacto de uma determinada cadeia produtiva no meio natural e nos direitos humanos, entre muitos outros pontos.

Problemas de gestão passaram a ser vistos como oportunidades para atualizar o modelo de negócio. Vinte anos depois é de “economia verde” que se fala, em meio a tensões, divergências e protestos. “É apenas uma outra cor para o mesmo capitalismo de sempre”, dizem os críticos.

Certamente, há um longo caminho nessa trilha nova aberta para o diálogo possível entre setor privado, movimento

Para Suzana Pádua, presidente e uma das fundadoras do Ipê, o desafio é grande, mas possível de ser enfrentado
ambientalista, organismos internacionais, organizações não governamentais, governos, todas as formas de participação da sociedade. Mas certamente um percurso e tanto já foi percorrido.

Para falar desse caminho, foi realizado ontem (21) no HSBC Arena, um dos endereços da Rio+20, o Fórum “Exemplo do setor empresarial brasileiro a caminho de uma economia verde”. O evento reuniu protagonistas desse processo de “esverdeamento” das empresas e marcou também o aniversário de 20 anos do Ipê, Instituto de Pesquisas Ecológicas, uma das maiores e mais antigas ONGs do Brasil.

Enquanto isso, jovens bailarinos e ativistas da cultura chinesa compartilhavam uma mensagem de paz logo à entrada do prédio, entre outras atividades paralelas que ocorreram no local como parte da programação da Rio+20.

No Fórum, os palestrantes e o auditório lembraram o quanto, há alguns anos, sentar para conversar era algo muito difícil. Não só pelas empresas não estarem preparadas e conscientes para fazer a mudança, mas também pelas críticas que faziam desaparecer o que havia de positivo no processo. Às vésperas do encerramento da Conferência das Nações Unidas, esse encontro teve um tom de balanço da atuação empresarial que tem em vista as questões ambientais.

Para Carlos Grecco, consultor de Responsabilidade Social e criador da Bolsa de Valores Sociais para a Bovespa, nem sempre dividir a sociedade em fatias (setor empresarial, movimento social, governo) favorece o entendimento do quanto precisamos estar juntos nesse desafio e do quanto, querendo ou não, estamos juntos e conhecemos os problemas. “Quando as rotas não funcionam, temos que desenhar novos mapas”, aponta ele.

Claudio Valladares, pesquisador do Ipê, destacou que a economia não pode parar, mas pode ser montada de um outro jeito. A adesão individual aos projetos de conservação que não só ampliam o acesso aos benefícios, mas também protegem suas fontes,  é uma das alternativas. Colaborador de longa data do instituto, sua contribuição foi homenageada durante o evento.

José Luciano Penido, da Fíbria, disse que negócios sustentáveis são possíveis, mesmo em setores que historicamente

Para Carlos Grecco, consultor de Responsabilidade Social e criador da Bolsa de Valores Sociais para a Bovespa, nem sempre dividir a sociedade em fatias
foram acusados de degradar o meio ambiente, como as fábricas de celulose, afirmou, lembrando o projeto do Corredor Ecológico que sua empresa ajudou a criar no interior de São Paulo.

A escolha que se coloca, resumiu Don Melnick, da Universidade de Columbia (Estados Unidos), é você se tornar parte da solução ou parte do problema. Ele realizou uma memória das Conferências das Nações Unidas, situando o ajuste necessário no entendimento da própria noção de investimento: os prazos são muitos maiores e o resultado só poderá chegar se a floresta continuar em pé.

Na avaliação sobre a contribuição da Rio+20, Luiz Fernando Krieger Merico, da UICN, União Internacional para a Conservação da Natureza, mencionou a falta de percepção das conexões entre o prato e o planeta, e a falta de governança, que muitos tendem a restringir ao governo. No Brasil, uma das suas recentes atuações está sendo o desenvolvimento do Painel Brasileiro da Biodiversidade com o Ministério do Meio Ambiente e instituições parceiras. Na sua opinião, a fragilidade dos marcos regulatórios não favorece os avanços: “estamos vivendo as mudanças climáticas sem que isso se reflita como deveria nas nossas estruturas produtivas e de consumo. Que o documento da Rio+20 nos sirva de alerta para essa urgência”.

Para Suzana Pádua, presidente e uma das fundadoras do Ipê, o desafio é grande, mas possível de ser enfrentado, e a junção das pessoas sempre traz idéias novas, caminhos novos: “uma das palavras-chave da Rio+20 foi valores, pois é sobre mudança de valores que estamos falando, talvez com uma ênfase que nunca se viu antes”, ressaltou.

O caminho para outra dinâmica empresarial e na vida das pessoas implica em um olhar diferente para o planeta e uma celebração da diversidade, da vida e das ideias.

(Mercado Ético)

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