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Emaús: exemplo de sustentabilidade
Enéas Salati*
Em um país com números alarmantes de municípios sem coleta e tratamento de esgoto, uma comunidade pobre de Ubatuba, São Paulo, mostra que é possível solucionar problemas básicos - e fundamentais para o desenvolvimento - com soluções sustentáveis e envolvendo as pessoas da comunidade.
Emaús nasceu em 1990 para atender dez famílias carentes da cidade, por iniciativa de Jorge Oliveira, ex-menino de rua hoje com 55 anos e líder comunitário. Em menos de um ano, muitas outras famílias ocuparam a área e as fossas sépticas construídas até então não deram conta, transformando a comunidade num esgoto a céu aberto.
Em 1994, foi construída uma estação de tratamento de esgotos alternativo com a finalidade de depurar a água vinda das fossas das casas. O sistema usado é o wetlands construídas: tanques que imitam as wetlands naturais, áreas inundadas onde plantas aproveitam nutrientes dissolvidos e modificam a qualidade da água. O esgoto gerado pelas 27 famílias, cerca de 150 pessoas, é tratado em uma estação com dois tanques e uma caixa de passagem para o depósito do esgoto.
A água que sai das fossas passa por quatro etapas principais de tratamento. Primeiro o esgoto passa por um cano com furos em meio de um solo filtrante, em terra preparada com brita. Somente essa etapa já separa 30% das impurezas. Em seguida, a água sai do tanque de solo filtrante para um tanque com água, muitos girinos e plantas aquáticas como aguapés, que se alimentam das bactérias que poluem as águas, eliminando assim toda a poluição.
Na seqüência, a água visualmente limpa passa por uma vala com brita. Só depois essa água vai para o último tanque com tilápias, que evitam larvas de mosquito e provam a limpeza eficiente da água.
Neste sistema tudo é aproveitado. As plantas filtradoras são periodicamente colhidas e destinadas para alimentação animal e/ou levadas para a composteira, juntamente ao lodo que se acumula nos tanques. O “composto” vai para a horta, pomar, roçados de milho, feijão e abóbora.
O último teste feito no sistema ecológico de tratamento de esgoto de Emaús comprovou limpeza de 98,9% na água que sai do tratamento de esgoto. Hoje, a comunidade usa uma área de 600 m2 para saneamento, criação de peixes, produção de esterco e de adubo. As coletas do aguapé vão para uma composteira, virar adubo das hortas e pomares. As folhas do mesmo aguapé são aproveitadas em todo o esterco produzido para as criações de porco e galinha.
Emaús é o único lugar do litoral brasileiro que tem tratamento terciário, através do qual é possível tirar até os nutrientes da água, e um exemplo de que a sustentabilidade ambiental é economicamente viável e que também ajuda na solução problemas sociais. Doenças como hepatite e outras causadas por esgoto a céu aberto foram erradicadas.
Outros exemplos para o tratamento de esgoto já são consideradas experiências bem-sucedidas Brasil afora. São experiências interessantes, tecnologias acessíveis e pouco dispendiosas. A tendência mundial é que a técnica de reuso cresça nos setores de irrigação e indústria.
* Enéas Salati é professor e diretor técnico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável e colunista de Plurale.
Artigo publicado originalmente na Revista Plurale

