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24/11/2008 - 17:18:53

Troca, aprendizado e criação

Leticia Freire, do Mercado Ético

Durante os dias 20 e 21/11, foi realizado em São Paulo o Call for Action, workshop para elaborar propostas de ações inovadoras em prol de uma sociedade sustentável. Mais de 350 inscritos, entre professores, alunos, empresários, representantes de organizações não-governamentais, de instituições públicas ou privadas participaram da maior rede de conversação sobre sustentabilidade na educação e nos negócios. O resultado do encontro foi a formulação de 18 propostas de ação que articulam o tripé educação, negócios e sustentabilidade.

“São Paulo é o centro mais influente na América Latina na área de negócios. É um dos maiores centros de escolas de administração no mundo. É muito oportuno acontecer esse evento aqui, exatamente por esse poder de irradiação que a comunidade empresarial, academia e sociedade civil de São Paulo têm”, afirmou Rodrigo da Rocha Loures, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP), durante a abertura do workshop Call for Action São Paulo, movimento parte do Global Forum América Latina.

Durante os dois dias de atividades, os participantes tiveram subsídios para reavaliarem a forma como atuam, seja dentro de suas empresas, instituições de ensino ou organizações sociais, e contribuíram com o fortalecimento das relações entre o mundo acadêmico, empresarial e da sociedade em geral, a partir da construção de um repertório comum sobre educação em sustentabilidade. Para Rocha Loures, “não basta ter vontade, é preciso capacidade e isso se traduz em ter um projeto bem elaborado, pessoas interessadas que dêem não só sua contribuição vital na formulação desse projeto de pensamento coletivo, como também ocupadas em disseminar esse projeto, cultivando o desenvolvimento desse programa.”

O evento foi coordenado por Ronald E. Fry, da Case Western Reserve University, de Cleveland, Ohio, com a aplicação da Investigação Apreciativa, metodologia da qual é co-formulador juntamente com David Cooperrider. A Investigação Apreciativa permite construir conhecimentos em grupo a partir do que há de melhor nas pessoas, na reflexão coletiva, inspirada pela cooperação com um objetivo comum.

A importância da educação para a sustentabilidade

Antônio Freitas, presidente da Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração e representante do Conselho Nacional de Educação, compartilhou dados sobre a educação no Brasil, reforçando a importância de investimento na área, possibilitando a democratização do ensino.

“Somos um país muito estranho na medida em que temos uma economia pujante, sendo até e no máximo a 12ª economia mais forte no mundo, porém em educação, somos 60°. Somos muito fracos em educação. Apenas 3% da população têm curso superior. Isso é ridiculamente baixo quando comparado com os países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China).”

Mas esse cenário sobre a situação do ensino no Brasil não preocupa apenas acadêmicos. Para Luiz Eduardo Junqueira, um dos organizadores do evento, “a forma como preparamos os estudantes nas universidades influencia diretamente o que acontece nas empresas”.

E se a estruturação de uma sociedade sustentável é uma das chaves de desenvolvimento e competitividade, parece haver um consenso entre a importância da educação como caminho para a construção de negócios sustentáveis. “Não se trata apenas de uma questão de justiça social, mas também de competitividade nacional”, avalia Antônio Freitas. Para ele, a solução é o investimento de recursos e o compromisso público e privado na questão da melhoria da qualidade e acessibilidade do ensino “o investimento em educação tem que ser linear. Temos que investir da base e no topo ao topo da pirâmide”

Propostas e expectativas compartilhadas

A elaboração de dezoito iniciativas de ação concreta, articulando educação, negócios e sustentabilidade foi o resultado do Call for Action (Chamada para a Ação.

Entre as 18 propostas de transformações culturais, econômicas e socioambientais, destacam-se:

1. Indicadores de sustentabilidade para avaliar os governos municipais e estaduais;

2. Inclusão do tema sustentabilidade no currículo escolar dos docentes;

3. Criação de uma rede para empregabilidade de pessoas que se preocupam com a sustentabilidade e disseminem a causa;

4. Incentivo para pesquisa em recursos renováveis e fontes limpas;

5. Programa de formatação de empreendedores colaborativos;

6. Criação de lei que responsabilize os fabricantes pelo pós-consumo;

7. Sensibilização e investimento do corpo docente para repensar a formação do indivíduo;

8. Implantação de sistema de gestão ambiental em todas as instituições públicas e privadas;

9. Incorporar os rios na vida urbana;

10. Reurbanização de favelas - projeto de ‘ecomunidades’ sustentáveis

11. Novos indicadores de riqueza para a economia (substituição do PIB)

Luiz Algarra, um dos organizadores do Call for Action se disse satisfeito com a composição da diversidade dos grupos reunidos para o evento. “Essa composição diversa se manifestou nas propostas. Algumas estão mais centradas na figura humana e no desenvolvimento do ser. No outro lado, temos a reestruturação e reformulação de estruturas institucionais”. Para ele, o evento atingiu seu objetivo ao proporcionar um espaço aberto e diverso para a conversação sobre sustentabilidade na educação e nos negócios. “Essa variedade e pluralidade é o maior indicador que o diálogo multisetorial aconteceu”, constata.

A consultora e mestra em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston, Rosa Alegria, esteve no evento e colaborou com a criação das propostas. Rosa se mostrou confiante na continuidade das ações que unam os diversos setores pela sustentabilidade. Para ela, “o Call for Action é mais um passo no avanço entre essa maravilhosa conexão entre academia e empresa. Aqui o mundo caminha para isso, para a integração, para comunhão e cooperação.”

Anne Louette, coordenadora do Instituto AntaKarana e diretora estatutária voluntária do programa Reciclar desde 1998, auto intitulando-se “marinheira de segunda viagem”, pois esteve presente na sistematização do conteúdo no evento no Paraná, afirma que “ficou absolutamente contaminada pela metodologia”. Para ela, a motivação e o conteúdo são as principais marcas do Global Fórum. “Aqui as pessoas saem muito mais capacitadas em termos de conteúdo e de inspiração. É muito diferente de uma palestra convencional. A sistemática de trabalho é muito poderosa, a transformação é apropriada.”

Já Rodrigo da Rocha Loures, sintetizou os dois dias de trabalho na construção das propostas como sendo um projeto em que todos estão unidos pela sustentabilidade. “Todos que estão nessa sala tem a mesma vontade de corresponder e contribuir para o desafio da sustentabilidade. Esse propósito nos uniu aqui e esse propósito está presente no mundo todo. Estamos em sintonia com o futuro”, afirmou presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP).

Jovens e engajados

Um pequeno mas ativo grupo de 12 alunos do segundo grau do colégio Pueri Domus participou da edição paulista do Call For Action. Entre 14 e 15 anos, os jovens expuseram seus pontos de vista e propuseram iniciativas para a questão da educação e sustentabilidade.

Rodrigo, de 14 anos, se mostrou interessado em entender mais sobre a questão da sustentabilidade. “Vim ver o que rola e como posso aprender mais sobre o tema”, disse. Seu colega, Pedro, também de 14 anos, aceitou o convite da escola para participar do Call for Action, pois deseja expressar seu interesse pelo tema. “Tenho vontade de expor minhas idéias e sei que as pessoas da minha idade são o futuro do país. Represento minha geração”, afirmou.

Preocupada com o futuro, Ana, de 15 anos, se mostrou madura ao refletir sobre a juventude brasileira. “É preciso investir em educação, mas também é preciso a conscientização de todos na construção de um mundo melhor.”

Segundo a tutora da turma do 9º ano, Mara Morandi Nardini, “tudo que foi discutido aqui será levado para a escola e apresentado aos outros estudantes”, afirma. Ela enfatiza que a escola colocará em prática as ações sugeridas no encontro.

Rede em movimento

Ao final do encontro de São Paulo, foi criada a Rede Social do Movimento Global Forum, que espera reunir representantes de todos os setores para continuar as discussões e propor ações em prol da sustentabilidade.

Os participantes foram convidados a colaborar com iniciativas que vão ao encontro de suas áreas de interesse, criar suas próprias iniciativas e contribuir com um banco de informações com ações pela sustentabilidade.

Nos próximos meses o movimento segue para estados do Norte e Nordeste. Em Manaus (25 a 27 de março de 2009) e João Pessoa (15 e 15 de abril de 2009) a diversidade de públicos característica do movimento também abrangerá em seu foco de mobilização as comunidades tradicionais, principalmente os indígenas, e as cooperativas, “importantes públicos para agir localmente”, comenta Ilma Barros, consultora da Federação das Indústrias do Estado do Paraná, coordenadora do BAWB Brasil e parceira da Case Western Reserve.

Sobre o Global Fórum America Latina

O Global Forum foi trazido ao Brasil pelo Sistema FIEP, com o apoio da comunidade empresarial e acadêmica, para discutir o papel da educação e dos negócios com foco na sustentabilidade.

Os resultados das várias sessões do Global Fórum America Latina - Call for Action, serão sistematizados e compartilhados no segundo encontro do Global Forum mundial, nos Estados Unidos em junho de 2009.

 

COMENTÁRIOS

solange 26/11/2008 às 11:23

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