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05/12/2008 14:31:00

Hiper-capitalismo: o que aconteceu com os mercados livres?

John Renesch

John Renesch

Os fundamentalistas de mercado gostam de citar as teorias da “mão invisível” de Adam Smith, mencionadas em seu livro “A Riqueza das Nações”, considerado como texto sagrado do capitalismo. Claro que Smith não poderia prever o grau com o qual o mercado seria manipulado, como o foi, tão intensamente, nesses dois séculos e meio depois que o livro, de 1776, foi escrito. O lobby político e as contribuições de campanha, nos Estados Unidos, com os resultantes e esperados subsídios governamentais, vantagens fiscais, mudanças nas leis relacionadas com corporativismo e outros ajustes na escala de livre-mercado para favorecer alguns, em detrimento de outros, criou um mercado longe do modelo sem restrições imaginado por Smith.

Mas isso não impede que os fundamentalistas gritem a plenos pulmões “deixe o mercado resolver as coisas”, “mantenha o governo fora do mercado” e de rotular qualquer tentativa de restaurar o equilíbrio como “socialismo.” O que os fundamentalistas não admitem – ou gostariam de ter descoberto com antecedência – é que o mercado não tem nada de livre. Existem interesses especiais que buscaram vantagens de maneira que os que mais têm para gastar possam efetivamente comprar tratamento preferencial, através, por exemplo, de um decreto governamental e, assim, ficar ainda mais ricos às custas daqueles que não são tão ricos assim.

Na verdade, o que eles estão dizendo ao insistirem na idéia de manter as mãos fora do mercado é que “não se mexe no sistema que já foi manipulado de acordo com nossa conveniência” ou, em essência, “o sistema foi adequado para que tenhamos vantagem e não queremos que ninguém mexa nisso.” Os que chegaram mais tarde podem dizer “eu aprendi a jogar com essas regras e estou trabalhando bem nesse sistema; por favor, não mude as coisas porque eu aprendi a jogar de maneira diferente”. Seja como for, é uma visão egoística de uma percentagem pequena da população, ainda querendo manter suas vantagens sobre o resto de nós. Isso fere princípios fundamentais de igualdade, oportunidade, liberdade e justiça para todos.

Alguns fundamentalistas conhecem o outro livro de Adam Smith, publicado quase na mesma época, “A Teoria dos Sentimentos Morais”. Alguns poucos ainda sabem que ele era um filósofo da moral, portanto, seu raciocínio provavelmente tinha como base algumas premissas subjacentes sobre as pessoas e a moralidade. Os dois livros de Smith apresentam um contexto social do século XVIII, que inclui a maneira como as pessoas interagiam, como nas relações comerciais, uma chave-mestra para o relacionamento humano.

Então, onde o capitalismo saiu da trilha indicada por Smith? O termo “empréstimo predatório” foi amplamente usado para falar dessa recente crise de mercado. Como o sistema se tornou tão predatório, tão concentrado em lucrar acima de tudo, até acima da moralidade? O empréstimo predatório não teria florescido a menos que o sistema que o gerou já tivesse nascido predisposto a tirar vantagem das pessoas.

J. Krishnamurti (1895-1986) era um renomado escritor e orador que se destacava por escrever e falar sobre temas espirituais e filosóficos, incluindo a natureza da mente e sobre como imprimir mudanças positivas na sociedade global. Ele falou sobre uma “crise de senso moral”, da maneira como as pessoas, principalmente no Ocidente, pensam sobre dinheiro. Ele previu uma revolução da mente ou um novo senso moral, uma nova maneira de pensar que restauraria a moral, a ética, o escrúpulo, como Smith imaginou em seus livros. Mas Smith não tinha como prever todas as leis e regulamentações que seriam aprovadas pelos legisladores, ao longo de dois séculos e meio.

No verão de 2005, o jornal The Washington Post disse que o número de lobistas registrado na capital norte-americana tinha mais que dobrado em apenas cinco anos! Em muitos casos, os lobistas são os que redigem os projetos de lei para os legisladores, desincumbindo-os dessa obrigação, da necessidade de ter assistentes para fazer esse trabalho. Assim, eles mesmos elaboram a legislação que os favorece e isso ainda oferece outra grande vantagem – esses projetos são elaborados com presteza e tornam-se leis rapidamente.

A legislação substituiu o compasso moral de Smith. Depois de dois séculos de influência “mascateada” por interesses especiais, a conformidade legal substituiu o senso moral. Ao invés de olhar para o interior, em busca do correto ou justo para todos, antes de embarcar em algum “esquema muito esperto”, a “engenharia financeira” procura por aquilo que possa ser feito para melhorar o “esquema”, que não seja proibido por estatutos ou códigos, que possa ser benéfico para interesses especiais e faz isso continuamente, até que as regras do jogo mudem novamente. Então, esse esquema é trocado por outra coisa “esperta”, talvez ainda mais tortuosa e predatória.

O imperialismo econômico não é reservado apenas para a política externa dos Estados Unidos. Ele vive por todo o sistema que chamamos de capitalismo – que alguns chamam de “hiper-capitalismo.” Um pequeno exemplo pode ser visto quando observamos os extremos a que chegaram os bancos para vender cartões de crédito e, assim, conduzir o consumidor à um débito em potencial ainda maior e, claro, à cobrança de juros de até dois dígitos. Como os aliciadores econômicos norte-americanos que têm trabalhado muito para seduzir governantes estrangeiros a se endividar, como nação, cada vez mais conosco e os bancos que seduzem o público em geral para que se endividem cada vez mais, oferecendo crédito e mais crédito. A moralidade desse tipo de comportamento é questionável. Chamamos de hiper. Chamamos de predatório. Por que não chamamos de imoral e atingimos a raiz da questão?

Paul Volker, ex-presidente do FED, o Banco Central dos Estados Unidos, recentemente declarou que os norte-americanos precisam reavaliar sua propensão para o consumismo, confiar em crédito fácil e em não poupar. Ele clama por uma mudança de cultura que demanda uma completa revisão de todo o sistema econômico. Ele não acalenta grandes esperanças na mera restauração do mesmo sistema, no abraçar de um sistema obsoleto que pode facilmente, entrar em colapso novamente, talvez resultando num cenário ainda pior do que o de hoje. Paul Volker defende o renascer da mentalidade de poupança, tanto para os indivíduos como para os negócios e a mudança da maneira de pensar dos americanos, sobre crédito e consumo.

Isso exige uma nova atitude sobre riqueza, valor e economia. O conceito de soma-zero está ultrapassado. Nós evoluímos de um sistema de riqueza baseado em bens imóveis e propriedades para outro baseado em equidade, que pode ser criado por meio da inovação, tecnologia e demanda de mercado. Enquanto o sistema de riqueza atual não tem os limites de crescimento com os quais nossos ancestrais bem conviviam, também nosso raciocínio ou consciência não traz essa referência. Ainda interagimos uns com os outros, com a idéia que eu só perco se você ganhar e só ganho se você perder.

Nosso sistema econômico precisa ser reinventado, não reparado. Hoje ele é corrupto e perverso. A recente crise financeira é uma clara evidência disso. Assim como nossas idéias sobre riqueza e capitalismo estão mais que defasadas, a maioria das leis e regulamentações também está desatualizada.

A reinvenção de nosso sistema econômico exigirá a colaboração histórica entre diferentes pessoas, não apenas dos chamados “experts” que nos trouxeram até aqui. Precisamos mudar ou corremos o risco de pensar como pensávamos e já sabemos onde isso pode nos levar. Precisamos de um grupo diversificado – com representantes de outras nações e disciplinas – que possa criar uma arquitetura diferente para o novo capitalismo. Não é um clamor para o socialismo, como muitos temem. É um re-nivelamento do campo onde jogamos, para retirar as distorções que beneficiam uns poucos, em detrimento das massas. O sistema atual não está apenas inoperante, como é obsoleto e injusto.

Tal colaboração histórica é possível? Claro! Se tivermos a coragem de cortar na própria carne e criar um novo sistema que seja moral, justo para todos, sustentável ao longo do futuro previsível, aplicável ao paradigma de riqueza atual, que ofereça oportunidades iguais e restaure o sonho que nossos fundadores tinham em mente quando planejaram esse grande país. Precisamos questionar a nós mesmos e também nossos líderes. Não é uma questão de reconhecer que precisamos de um novo sistema ou de como ele deve parecer. É uma questão de ter a vontade política de fazer um esforço gigantesco para criar um novo sistema.

Novas leis que regulem a influência política, contribuições de campanhas e outras medidas reformistas serão, provavelmente, necessárias. Fazer com que negociatas ou esquemas financeiros suspeitos sejam considerados ilegais. Essa reforma pode, facilmente, resultar em mais desemprego e na reorganização de papéis – tudo muito traumático, se você for uma dessas pessoas. Os norte-americanos estão muito apegados à conveniência e mudanças como essa podem ser tumultuadas e dificilmente serão vistas como convenientes. Porém, as reformas são sempre assim!

Talvez seja necessário um congresso internacional que envolva diferentes interessados e que perdure por muitas semanas, até mesmo meses. Mas isso não deve nos deter, precisamos cumprir essa tarefa. É essencial que tenhamos um sistema econômico confiável – a próxima geração do capitalismo – no qual o mundo possa confiar novamente. Não precisa e não deve ser, meramente, um híbrido, uma mistura entre o capitalismo predatório e o socialismo. Pode ser um novíssimo sistema, que incorpore os princípios originais de Smith e os adapte para o contexto atual.

John Renesch mora em San Francisco e freqüentemente questiona o método convencional de pensar sobre trabalho, futuro e liderança. Seu mais recente livro é "Getting to the Better Future: A Matter of Conscious Choosing". É parceiro do The FutureShapers Collaborative, uma organização de líderes intelectuais ao redor do mundo que propõem paradigmas mais saudáveis para um mundo melhor. Mais sobre John e sua obra no site www.Renesch.com.