Salas Temáticas > Ética e trabalho

18/03/2009 - 16:24:48

Impactos psicológicos do desemprego

Fotos: IHU On-Line
Desemprego. Essa é uma das piores consequências da crise econômica que vem se instalando no mundo desde o segundo semestre do ano passado. Em entrevista realizada por telefone à IHU On-Line, o professor de Psicologia Social Nelson Rivero analisou os impactos que essa ameaça e a realidade do desemprego causam nos trabalhadores das grandes corporações que sofreram pressões financeiras devido à crise. Para ele, os principais impactos que a crise traz aos trabalhadores é o receio do desemprego. Além disso, quem entra no mercado fica desesperançoso com a situação.

Nelson Eduardo Estamado Rivero é professor de Psicologia da Unisinos e da Universidade de Caxias do Sul. É graduado em Psicologia, pela Universidade Católica de Pelotas, e especialista em Psicologia do Trabalho, pela mesma universidade. Na PUCRS, realizou o mestrado em Psicologia Social e da Personalidade. Organizou o livro Psicologia Social. Estratégias, políticas e implicações (Porto Alegre: ABRAPSO SUL, 2001).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Estamos vivendo uma das mais profundas crises financeiras e, por mais que não sejam os culpados, são os trabalhadores que têm pago o ônus de todo o problema. Quais são os principais impactos psicológicos que são causados a partir dessa realidade?

Nelson Rivero - Para nós, sem querer fazer teorização, entendermos como o desemprego afeta todas as pessoas envolvidas - porque esses trabalhadores têm família, filhos em formação, futuros trabalhadores, constituindo a sua relação com o mundo do trabalho dentro da sua própria casa -, precisamos compreender a centralidade do trabalho especialmente na sociedade moderna. Ou seja, com o advento da industrialização, cria-se, mais tarde, o emprego e o desemprego. Quando se fala e se pensa sobre ele, é necessário pensar da mesma forma. Quer dizer, o desemprego não é necessariamente o centro da discussão do trabalho, mas é um aspecto profundamente vinculado ao emprego. E, especialmente nesses últimos tempos, torna-se quase um sinônimo de trabalho, principalmente naquelas sociedades industrializadas e naquelas que pretendem ser industriais, também em função da quantidade de associações, seja por benefícios sociais, seja pelas situações de proteção que o emprego traz quando surge. Estar sem emprego, ao longo do século XX, foi se constituindo não só num fator de influência, mas num aspecto que afeta ou não o indivíduo.

Hoje, não temos condições de dizer que não somos afetados pela condição de trabalho ou pela condição de desemprego. Então, muito do pensamento da psicologia trata o trabalho como um fator de produção do sujeito. A principal e a primeira consequência mais direta, no que diz respeito aos aspectos psicológicos de alguém que está desempregado ou de um desemprego em massa como está acontecendo agora, é justamente privar o trabalhador de uma certa realidade que o constitui. Não é só para poder participar da sociedade, mas para poder enxergar a si mesmo. Uma das principais consequências é o receio de ficar desempregado, além de trazer uma desesperança para aqueles que estão entrando no mercado. A perda do emprego pode fazer com que o trabalhador se confunda, perca sua capacidade de gestão de si mesmo, de se enxergar como sujeito produtivo.

O grande trabalho de reconstrução das pessoas que estão nessa situação passa por resgatar ou até mesmo construir uma visão do quanto temos mais potencialidade para além do emprego. O impacto é grande em vários públicos, afeta, de diferentes formas, o campo da produção de identidade e de sentido para essas pessoas. Isso produz uma nova forma de nos relacionarmos com o trabalho.

IHU On-Line - Também estamos falando de demissões de pessoas com mais de 40 anos, bastante profissionalizadas e com muita experiência. Que transformações essa situação causa na sociedade contemporânea?

Nelson Rivero - Ainda temos necessidade de um distanciamento para saber desses impactos com um pouco mais de clareza. Como a velocidade dessas transformações é muito alta, essa realidade da crise não é novidade. Basta perceber os caminhos que o capitalismo traçou. Mesmo assim, as consequências acontecem numa velocidade muito grande e na, maior parte das vezes, a nossa subjetividade é atropelada, carregada. Porém, o que já temos como uma hipótese bastante importante é de que iniciamos o século XXI construindo um outro paradigma para o trabalho.

Essa noção que temos do trabalho hoje, do trabalho empregado e da produção da materialidade, já não dá mais conta desta nova realidade, até porque o que estamos vendo é uma consequência desse movimento. Como linha de análise dessas transformações é que o trabalho caminha para reconstituir a sua forma de valor. O valor dos aspectos de produção talvez não esteja tão vinculado aos seus valores de troca e de uso. Talvez estejamos caminhando para uma sociedade que constitua, por exemplo, valores para o trabalho que estão mais no campo da capacidade intelectual. Investiu-se, nos últimos anos, num tipo de competência que pode não ser necessária hoje.

Em toda crise, obviamente se enxuga aquilo que se gasta mais e essas pessoas mais especializadas são mais onerosas. Com isso, ressurge o exército de reservas de Marx, ou seja, mais pessoas querendo trabalhar e por um preço menor e, assim, se criam novas modalidades de gestão. São possibilidades trabalhadas por diversos pesquisadores, mas ainda estamos muito imersos nesse processo atual. É um processo de contradição e de paradoxos, pois a história do trabalho se constitui assim deste o seu conceito.

IHU On-Line - Surge, então, uma nova morfologia do trabalho?

Nelson Rivero - Na direção que estou te trazendo, sim. Surge a possibilidade de entender um outro jeito de constituir aquilo que chamamos de classe trabalhadora. A classe trabalhadora passa por uma reconfiguração que abandona os extratos mais estruturais e partem muito mais para condições de virtualidade. São classes menos perceptíveis na relação do trabalho, mas mais efetivas no campo da materialidade, onde operam com maior velocidade e destreza.

IHU On-Line - E que impactos sofrem essas pessoas que entendem o trabalho de uma forma, mas estão dentro desse processo de mudanças?

Nelson Rivero - Isso não acontece só no campo do trabalho, embora ele seja um excelente vetor para pensarmos isso. Acho que bons analistas dos últimos tempos já têm anunciado o quanto não conseguimos desenvolver aquilo que nos propomos. Muitas situações, que antes se entendiam como verdades sustentadoras da nossa realidade, mudaram, pois hoje é necessário um sujeito que saiba lidar com as não-certezas, mas o homem moderno não foi trabalhado para funcionar desse jeito. Talvez, psicologicamente, possamos pensar que tão mais saudável é o sujeito que consegue admitir a natureza mais caótica da própria vida e lidar com isso como uma forma menos assustadora. Nessa realidade, quanto mais se insiste procurar verdades absolutas, mais as pessoas se desesperam.

IHU On-Line - Se as empresas usam o emprego dos trabalhadores como uma válvula de escape para solução dos problemas que a crise causa, como podemos classificar suas atitudes?

Nelson Rivero - Isso não é novo e está na ordem das coisas que acontece. Podemos tomar isso como um fato, infelizmente, ético que nos demonstra o quanto nenhum sistema ou processo associado à economia garante um procedimento justo. Essa é uma efetiva realidade, mas não existe uma classificação psicológica para isso. Esse fato está, antes de tudo, dentro do campo ético e assim precisa ser entendido e encarado como aquilo que a humanidade é capaz de fazer em detrimento de si mesma.

IHU On-Line - Uma das grandes questões filosóficas do homem é: “Quem eu sou?”. Mas quando ele se descobre dentro de uma crise e percebe que pode ser também um custo, como isso mexe como a forma como ele se encara?

Nelson Rivero - Para começar, precisaríamos nos perguntar em que medida ser um custo causa um sofrimento. A princípio, se a gente tomar a ideia de que o homem irá conscientizar-se de que é um custo e isso trará um impacto de entristecimento, o que é possível e provável de acontecer. Podemos dizer que instala-se aí um momento de crise da própria condição da existência e talvez, também, uma grande oportunidade para ele reconfigurar a própria realidade de relação com o trabalho.

Uma das grandes consequências danosas desse processo de produção de um sujeito muito ordenado, disciplinado e controlado para o trabalho é que há muito tempo esse extrato de humanidade perde a capacidade de indignação. Então, não seria improvável nós entendermos que as pessoas sustentam a sua importância pelo custo que têm para a empresa. Ela pode entrar em crise por estar situada num lugar onde é apenas um numerário pesado, ao mesmo tempo essa mesma lógica faz com que as pessoas apresentem-se para o mercado de trabalho como um custo bem empregado. Não dá para dizer que isso irá acontecer de forma única na direção da indignação e do entristecimento de quem percebe isso.

Para ler mais, no site do IHU On-Line

(IHU On-Line)

COMENTÁRIOS

juliana 27/03/2009 às 11:35

Case

Faça o seu comentário

Campos com * são obrigatórios