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02/10/2009 - 16:36:14

Imprensa e empresas: em busca do diálogo sustentável

Sônia Araripe, da Plurale

O formato do debate dividiu jornalistas e representantes de empresas de lados diferentes, mediados pela presença, ao centro da moderadora. A imprensa à esquerda, os executivos à direita. Mas ficou claro, no debate realizado hoje (30/09) pelo Instituto Ethos, na sede da Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio, parte do Programa Responsabilidade Social Empresarial na Mídia e do Programa Rede Empresarial pela Sustentabilidade, que, diferenças e mitos à parte, os dois lados buscam um diálogo sustentável em benefício maior da sociedade.

Os debatedores mostraram que o diálogo entre a mídia e as empresas sobre Sustentabilidade vem sendo construído, nem sempre na forma de consenso, ao longo dos últimos anos. “A maior abertura tanto das empresas quanto da imprensa em torno do tema Sustentabilidade surgiu como parte do processo democrático”, observou Nemércio Nogueira, diretor de Assuntos Institucionais da Alcoa América Latina e Caribe. O jornalista André Trigueiro, editor do programa “Cidades & Soluções”, na Globonews, foi além: “este é um processo que tem emergido de baixo para cima.” E citou o caso não só da Alcoa, mas como também de outras mineradoras ou siderúrgicas, como a Vale e a CSN, que para serem realmente sustentáveis precisam pensar o processo produtivo como um todo, do início ao fim.

Não é só. Se nos anos 70 apenas a política e a economia de gabinete tinham espaço na mídia, os anos 80, com a abertura trouxeram a competição e o forte interesse pela economia das empresas, do mundo real, como um novo ingrediente. E consumidores ávidos por novidades e produtos diferenciados. “Além dos consumidores passou a existir, com um peso muito forte também, a figura do investidor, exigindo sempre melhores práticas”, disse Rodolfo Gutilla, diretor de Assuntos Corporativos e de Relações Governamentais da Natura. Este cenário ajuda a entender o espaço e a importância dos temas ligados à Sustentabilidade na mídia.

Especialista ou generalista?

Na visão de Amélia González, editora do suplemento Razão Social, de O Globo, especializado em Sustentabilidade, já ficou para trás o tempo em que este era um assunto “de gueto”, para poucos. “Os colegas do jornal perceberam que não somos amigos da árvore ou estamos defendendo apenas o social. É muito maior. E que Sustentabiliade é um tema para todos, transversal”, ressaltou. O Razão Social, por exemplo, passou de mensal a quinzenal diante da relevância dos temas apresentados.

Também os representantes das empresas confessaram que são jornalistas de formação. Era um debate, portanto, entre colegas. Mesmo que cada um defendendo seus pontos-de-vista: sem lado vencedor ou perdedor. “Há preconceito ainda dos jornalistas em relação à pautas positivas de bancos, por exemplo? Acham que tem algo por trás”, perguntou Sonia Favaretto, superintendente de Sustentabilidade do Itaú Unibanco. Amélia admitiu que, de uma certa forma, sim. Não exatamente preconceito, mas lembrou que um grupo financeiro não pode ser tão sustentável com taxas de juros tão elevadas e pensando no microcrédito quase como algo quase marginal. Pontuou, no entanto, que boas práticas, bons cases costumam ser divulgados, mas sempre com a isenção necessária aos jornalistas.

Excessos, vícios sempre nas mesmas fontes? Trigueiro admitiu, mais à frente, que isso pode mesmo acontecer. Seja por limitação logística - “como levar equipe de televisão no tempo certo para entrevistar fontes em lugares que não sejam Rio, São Paulo e Brasília?” - ou porque há um timing correto para lançar um programa ou reportagem. “Nem sempre temos todas as respostas para um tema em nosso programa. Mas apresentamos diferentes lados e temos que toda semana estar no ar com um debate interessante para o público.” O jornalista completou que dependendo do tema ligado à Sustentabilidade não há tantas fontes especializadas e isentas. E que não há nada mais justo e definitivo do que a repercussão do público: se uma reportagem foi tendenciosa ou desinteressante, a audiência qualificada, que já acompanha com grande atenção os temas de Sustentabilidade, reclama.

Sonia também fez uma certa mea culpa pelo lado do mercado financeiro, que como intermediário costuma evitar o comprometimento direto com os empréstimos concedidos para empresas nem sempre éticas ou compromissadas com o meio ambiente. “Somos responsabilizados juridicamente, portanto, somos parte no processo. Já existem as regras do Protocolo do Equador. E isto tudo faz parte de um aprendizado, de construção. Estamos sim na direção das Finanças Sustentáveis”, assegurou. O tom de sinceridade, na direção da transparência, despertou e agradou o público. Gutilla, quando perguntado se a Natura é sempre um case espetacular a ser seguido, completou: “Temos boas práticas, mas uma organização também erra. A vida é imperfeita. E neste diálogo, entre mídia e empresas, não há mocinhos ou bandidos. Não se deve ver uma empresa como bandido.”

Com a experiência de quem acompanhou as principais mudanças no cenário político e econômico nos últimos anos, o editor do site O Eco, Marcos Sá Correia, contou que desistiu deste noticiário porque já não via nestas áreas quem fosse interessante para entrevistar. “Busquei no Meio Ambiente a novidade que interessa a todo repórter.” E provocou risadas na platéia, formada principalmente por jovens estudantes e comunicadores, quando advertiu que um bom repórter não deve ser especialista e sim manter-se sempre ignorante. “É assim em qualquer lugar do mundo. Se ele for especialista, deixará de ser repórter para ser colunista, comentarista”, disse.

Celina Carpi, conselheira do Instituto Ethos e diretora executiva do movimento Rio como Vamos, precisou usar sua prerrogativa de moderadora. O debate acalorado prendeu a atenção de todos e volta e meia estourava no tempo para a pergunta ou resposta, feitas no modelo de sorteio.

E para mostrar que a mídia tem sim um papel essencial na construção deste diálogo, Marcos Sá Correia contou um caso recente de denúncia da construção da hidrelétrica de Barra Grande (em Santa Catarina) pela Baesa, em parceria com a Alcoa, que não seguiu boas práticas ambientais. “Vendo os prêmios de Meio Ambiente que esta barragem tem hoje, sei que a mídia fez um grande serviço.” Nemércio, da Alcoa, concordou. “Sem dúvida. Na época fomos alertados pelo Marcos e Miriam Leitão que tínhamos um relatório de impacto ambiental fraudulento e era preciso ouvir todos os lados envolvidos”, disse. Caso real para selar a certeza que uma mídia forte e isenta ajuda a asseguras que empresas se mantenham sempre compromissadas com a Sustentabilidade.

(Plurale)

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