Sobre Coletivo Interser

O Coletivo INTERSER celebra o encontro de profissionais com diversas experiências e formações na área do desenvolvimento sustentável. Sobretudo, é o encontro de parceiros de vida que partilham o imenso desejo de aprender com o outro. Pois, acreditamos que só assim podemos melhorar nossa teia de relações, seja com o outro, com nós mesmo, com a Terra, com as coisas, com o meio em que vivemos.

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13/06/2012 às 19:56 (0 comentários)

O celular no tempo de meu pai

Júlio Lêdo, do Coletivo Interser

- Filho, aquele carro que passou por nós agora é um Opala, ele foi uma carrão “no tempo de seu pai.”

- Pai, como eram os celulares em seu tempo?

- Filho, não tínhamos celulares, usávamos os telefones públicos, os orelhões. Eles funcionavam a base de fichas, que eram compradas.

Com um olhar misto de pena e espanto, encerrou-se esse diálogo entre pai e filho e outros assuntos entraram em pauta. Com muita admiração, ouvi nesse final de semana a história contada pelo “pai”. Um dia antes desse relato, eu estava admirando a exposição “Caminhos para Sustentabilidade”, realizada pelo Coletivo Interser em um shopping de Recife, enquanto olhava vários jovens e crianças falando em seus poderosos e multifuncionais celulares, onde uns decidiam o que comprariam naquela tarde de sexta-feira. Saí de lá com dois questionamentos: o primeiro sobre a percepção daquelas pessoas sobre a relação entre os celulares e o meio ambiente, e o segundo, menos técnico, sobre a relação entre os mesmos celulares e a felicidade. Será que somos mais felizes hoje por termos celulares e não mais por precisarmos comprar fichinhas telefônicas?

Em fevereiro de 2012, segundo a Anatel, o número de celulares ativos no Brasil chegou a 247,62 milhões, número superior a população brasileira. O autor do Prosperity Without Growth – Economies for a Finite Planet, Tim Jackson, ressalta que, enquanto a economia global cresceu cinco vezes em meio século, 60% dos ecossistemas mundiais foram degradados. Juntamente com o crescimento econômico – que não necessariamente representa desenvolvimento – aumentam-se nossas demandas, nem sempre reais. Quem já não trocou seu celular em perfeito estado de funcionamento por outro, que tem praticamente tudo que você realmente necessita, mas vem com algumas outras funções (as quais provavelmente nem vamos utilizar). A cada aquisição de novos celulares, mais minérios são retirados, mais inúmeras outras matérias são extraídas, mais lixo é gerado, mais degradação ambiental. Vale ressaltar, que já consumimos 50% a mais que a terra tem condições de oferecer e nós não temos essa “meia Terra” para irmos buscar tudo aquilo que achamos que precisamos.

Quanto à felicidade, iniciei a reflexão lembrando das várias localidades que visitei pelos interiores de nosso país onde não se tem sinal de celular, mas, mesmo asim, grande parte da população os tem. Depois que ouvi uma mulher, moradora do interior de Minas Gerais, dizer que já era muito pobre, mas ao menos tinha um celular (apesar de nessa localidade não existir sinal de celular), entendi que esses pequenos aparelhos representam para muitos, uma inclusão social. Mas será que isso acontece apenas nesses locais mais distantes e isolados ou entre nós também, pessoas frequentadoras dos shoppings e conscientes das mais variadas relações entre a inserção social, meio ambiente e consumo?

O diálogo inicial travado entre pai e filho me fez refletir que eu, nem de longe, era menos feliz no tempo em que precisava comprar fichas telefônicas para falar nos orelhões, no tempo em que ficava ansioso na porta do cinema de rua, não de shopping, esperando aquela “pessoa”chegar, sem poder ligar para seu celular, no tempo em que as avencas do jardim da casa onde morava serviam de núvens para eu brincar com meu avião e, por fim, no tempo em que um Opala era considerado um carrão. Não nego as facilidades que os celulares nos trouxeram, assim como tantos outros novos aparelhos tecnológicos, mas não posso esquecer também do quanto eles nos deixam escravos de seus tempos imediatos e da infeliz inversão de valores, que nos fazem sentir menos ou mais inseridos socialmente pelos objetos que temos e pelas marcas que usamos.

“Tudo que você tem não é seu, tudo que você guarda não lhe pertence nem nunca lhe pertencerá. Pertence ao tempo que tudo transformará. Só é seu aquilo que você consegue dar; o beijo que você deu é seu, é seu, é seu beijo… “ (letra de música de Alexandre Leão/Manuca Almeida/Lalado, gravada por Arnaldo Antunes)

(Coletivo Interser/Mercado Ético)

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