Salas Temáticas > Mudanças climáticas

18/03/2009 - 16:22:36

O papel do Brasil na redução das emissões de gases de efeito estufa

Ricardo Voltolini, da Revista Idéia Socioambiental

Divulgação Envolverde
Quarto maior emissor mundial, com 5% da cota planetária, o Brasil joga um papel importante na medida em que tem potencial para diminuir em 70%, até 2030, suas emissões de gases de efeito estufa com medidas de custos relativamente baixos. Esta é a principal conclusão de estudo apresentado, na semana passada, pela McKinsey & Company, em evento do Planeta Sustentável da editora Abril.

A sopa de números analisados pelos especialistas da consultoria é especialmente alentadora para o Brasil. Na prática, há aqui o que e onde cortar. Ao contrário de alguns países mais ricos, a fonte primeira de emissões se concentra no campo florestal. Apenas o desmatamento, o nosso mais conhecido Calcanhar de Aquiles, responde por 55% dos 2,8 milhões de toneladas de carbono. Estima-se que daqui a 20 anos represente 43%. O que compensa, em parte, o impacto da destruição das florestas são, de um lado, as baixas emissões geradas por uma matriz energética mais limpa (a hidrelétrica) e de outro, a presença marcante do etanol na frota brasileira. Isso coloca o país em situação melhor se comparado ás nações sujonas onde se queima muito carvão e muita gasolina para gerar luz e mover carros.

Ainda assim, emite-se aqui 12 toneladas de carbono por habitante, marca ligeiramente acima das 10 toneladas registradas nos países industrializados. Excluída a dura parte relativa ao setor florestal, ficaríamos bem na fita com moderadas cinco toneladas. Mas como se imagina uma expansão da economia - para depois da crise, é claro - a intensidade de carbono deve subir para 14 toneladas per capita, ou 7,5 toneladas per capita, tirando o peso do desmatamento - ainda um pouco acima da média global.

A primeira constatação do estudo da McKinsey é que o Brasil não só pode - mas deve - reduzir suas emissões para 0,9 milhão de toneladas nos próximos 20 anos, esforço para o qual poderá explorar 120 oportunidades em todos os setores de sua economia. Pela ordem de potencial de abatimento em emissões, os setores florestal, de agricultura, transportes terrestres e resíduos aparecem entre os mais expressivos.

A Amazônia em pé - confirmando o que já se sabia - é um excelente negócio para o futuro do planeta. Corresponde a 72% das oportunidades de abatimento brasileiras. O cálculo se baseia no seguinte raciocínio: para aproveitar ao máximo suas possibilidade de redução de emissões, o País precisa desembolsar R$ 16,5 bilhões nas duas próximas décadas, fazendo investimentos no fortalecimento de instituições, no reforço do controle e fiscalização do Estado, no aumento da produção sustentável de madeira e outros produtos florestais e na geração de empregos e melhoria dos índices de desenvolvimento humano das pessoas que moram em áreas atingidas pelo desmatamento. Parece muito, mas não é, analisando o número sob a perspectiva do PIB nacional de R$ 2,6 trilhões (2007). Melhor ainda: uma parcela importante do investimento poderá advir do mercado internacional de créditos de carbono, um balcão de negócios sustentáveis pouco explorado pelo Brasil.

As atividades de agricultura e pecuária emitem 25% dos gases de efeito estufa brasileiros. Para 2030, projeta-se que cheguem a 30%, ou seja, 820 mil toneladas de carbono. Metade vem da pecuária, mais especificamente de uma combinação explosiva de gás metano e resíduos orgânicos produzidos por um rebanho de 200 milhões. A outra decorre de práticas agrícolas inadequadas, entre as quais as famosas queimadas e o abuso de fertilizantes feitos à base de nitrogênio. O estudo da McKinsey avalia que, com mudanças no modo de plantar e gerir nutrientes e resíduos, mais pesquisa e regulamentação, o Brasil possa diminuir em 14% suas emissões.

Em todo o mundo, o setor de transportes rodoviários lança 13% dos gases, representando a segunda maior fonte de emissões. No Brasil, contribuem com apenas 6%. Considerando o aumento da frota e a expansão da tecnologia flex, com mais uso de gasolina, espera-se que produzam 280 mil toneladas de carbono em 2030. Mas essa projeção pode baixar em 25% com melhorias tecnológicas nos carros e com o aumento do uso de biocombustíveis.

O segundo maior potencial de abatimento, fora os setores ligado à terra, concentra-se nas atividades de tratamento de resíduos sólidos e efluentes., fortemente geradores de metano e óxido nitroso. Com 53 mil toneladas de carbono, o Brasil está entre os 10 maiores emissores neste campo. A redução passa por adotar medidas de reciclagem, compostagem e captação de gases em aterros. Há tecnologia farta. Apesar de terem custo negativo (benefícios associados superiores aos gastos), tais iniciativas esbarram na necessidade de mudanças importantes em hábitos e costumes.

Somados os R$ 16,5 bilhões destinados á conservação da Amazônia com os R$ 23, 2 bilhões para custear o conjunto das iniciativas dos outros setores, o gasto total necessário ficará em torno de 1% do PIB do Brasil. Um valor modesto a julgar os claros benefícios que proporciona para a garantia da perenidade de ecosserviços essenciais à vida como água limpa, ar respirável, solo fértil e clima estável.

No Brasil, emite-se 12 toneladas de carbono por habitante; a média dos países industrializados é de 10 toneladas por habitante

* Ricardo Voltolini é publisher da revista Ideia Socioambiental e diretor da Ideia Sustentável: Estratégia e Conhecimento em Sustentabilidade)

(Envolverde/Revista Idéia Socioambiental)

COMENTÁRIOS

Roberto Rocha 18/03/2009 às 18:21

Haja otimismo!!! A grande questão - e que pouco gente fala - é que “cálculos” não mudam o comportamento das pessoas simplesmente porque estão corretos numa folha de papel. Quer um bom exemplo? Há quanto tempo se fala e se calcula a perda da Mata Atlântica e se preconiza a sua recuperação? Se tudo que está no papel já fosse feito a mata estaria maravilhosa outra vez. E por que será que não está? Não é por falta de cálculos e de previsões! É uma questão comportamental. É uma questão moral!. Ainda há o que cortar? Com certeza. Começamos pela Mata Atlântica e fizemos a proeza de destruir uma das matas mais espetaculares dos trópicos. Mas, não satisfeitos, seguimos na direção do cerrado e abrimos uma imensa clareira nele. As árvores carbonizadas - aquelas que ficam na área (de menor porte) e aquelas que vão para as siderúrgicas (toras) não sequestram mais carbono. É claro que ainda tem muita árvore na Amazônia. Também tinha muita árvore na Mata Atlântica. O cerrado - com “c” - também era “fechado” de árvores. Até que ele foi devidamente derrubado e “serrado” ficou. Cuidado: os rios que viajam pelos céus; e quem saem da Amazônia e caem no sudeste - garantindo a safra anual - também podem secar… É bom que eles resistam, porque os que caminham por terra, pelas bacias hidrográficas, já estão pra lá de afetados. O maior problema é que não podemos plantar árvores nos céus…

Sandra de Cássia Ribeiro 13/05/2009 às 11:48

Sim, os cálculos nos papéis não afetam nem mais nem menos nosso ar que respiramos, nem a água que bebemos, ou não beberemos. Mas são esses estudos que talvez alavanquem a ATITUDE. Atitude para pensar e propor mudanças. Se temos maus hábitos é porque somos ignorantes, mas aprendemos a te-los. Então, estamos aprendendo que precisamos mudar e vamos ter que aprender a ter outros hábitos. Trabalho de formiguinha, mas se somados podem fazer diferença.

Faça o seu comentário

Campos com * são obrigatórios