19/06/2012 11:19:36
Isabel Gnaccarini, do Mercado Ético
“A agenda da Rio+20 é muito ampla e ambiciosa, mas necessária para redirecionar o atual caminho de desenvolvimento para uma economia que possa ser sustentável a curto e médio prazo.” Essa é a opinião do professor Paulo Eduardo Artaxo Netto, integrante do IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, da ONU.
Segundo ele, não é correto chamar as questões da Rio+20 de “problemas”. Na verdade, Artaxo diz que o ponto é que a humanidade deve mudar a maneira como utiliza os recursos naturais, utilizando-os de maneira mais eficiente e inteligente.
Veja abaixo a entrevista que o professor concedeu ao Mercado Ético.
Mercado Ético – Quais os principais problemas que irão repercutir na Rio+20?
Paulo Artaxo - Eu não chamaria de “problemas” as questões a serem abordadas na Rio+20, pois na verdade temos que mudar a maneira com que utilizamos os recursos naturais de nosso planeta, utilizando estes recursos de maneira mais eficiente e inteligente. Também temos a tarefa de evitar que o aquecimento global atinja níveis que possam comprometer seriamente o clima futuro, entre outras tarefas importantes. A agenda da Rio+20 envolve a construção da chamada “economia verde”, a questão da erradicação da pobreza e as questões ambientais globais. É uma agenda muito ampla e ambiciosa, mas necessária para redirecionar o atual caminho de desenvolvimento para uma agenda que possa ser sustentável a curto e médio prazo.
ME – Foram acertados os eixos de discussão da Conferência? Ou o leque ficou aberto demais?
PA – A Rio+20 tem como meta abordar o desenvolvimento sustentável a partir de três eixos: o social, o econômico e
o ambiental. São questões indissociáveis e, desse ponto de vista, a decisão foi acertada. Mas, para que possamos chegar a resultados concretos, elas precisam ser amplamente discutida em fóruns específicos também. De qualquer modo, devemos olhar a Rio+20 de maneira positiva, como desdobramento do caminho que foi iniciado na Conferência de Estocolmo, em 1972, e teve continuidade na Rio-92. Portanto, a Rio+20 é mais um ponto desta trajetória de tornar o planeta sustentável do ponto de vista econômico, social e ambiental, e isso é muito positivo.
ME – O que você acha do posicionamento que o governo brasileiro tem tomado?
PA - O governo brasileiro, como anfitrião da reunião, em geral tem que representar os anseios “de consenso” dos diferentes interesses envolvidos. Isso significa ter que conciliar posições antagônicas, o que não é facil nestes temas. Claramente os interesses dos países desenvolvidos são diferentes dos interesses dos países em desenvolvimento. A crise econômica européia e global é um ingrediente que dificulta a tomada de resoluções claras e positivas neste momento, mas temos que ter uma visão de longo prazo, em escala temporal das próximas décadas.
ME – O conceito de “desenvolvimento sustentável” será trocado pelo de “economia verde”? A definição de economia verde está clara?
PA - Não se trata de uma “troca” de conceitos de “desenvolvimento sustentável” pelo da “economia verde”. A economia verde, que ninguém sabe direito o que é, envolve um reordenamento econômico, enquanto o desenvolvimento sustentável é um conceito muito mais amplo, tentando garantir a sustentabilidade social, ambiental e econômica de nosso planeta. O desenvolvimento sustentável implica em um modelo de desenvolvimento em que não exploramos os recursos naturais até a exaustão, e não se busca o lucro a curto prazo e a qualquer preço. O desenvolvimento tem que levar em conta também as necessidades sociais tanto quanto o lucro financeiro. Deste modo, temos um desenvolvimento que se sustenta social e ambientalmente no longo prazo.
ME – A questão da crise ambiental ampla está sendo escamoteada com a introdução da ideia de “economia verde”? Ou as Nações Unidas estão tentando aplicar o que os Relatórios de experts vem sugerindo?
PA - A resolução da crise ambiental também passa pela implementação da chamada “economia verde”, pois não se pode ignorar os aspectos econômicos das questões ambientais. A integração entre os temas sociais, econômicos e ambientais é total hoje. Soluções como foco somente no plano econômico estão fadadas ao fracasso, se as questões sociais e ambientais também não forem levadas em conta com o devido peso.
ME – Você concorda com as críticas dos movimentos socioambientais sobre a “mercantilização da natureza”? Qual seu ponto de vista sobre a relação do homem com a natureza?
PA - A mercantilização da natureza existe hoje com ou sem a “economia verde”. Hoje a mercantilização da natureza e a super exploração dos recursos naturais, seja petróleo, minérios, água ou mesmo a atmosfera, ocorre de maneira desordenada e não sustentável. Talvez rediscutindo isso dentro do conceito do desenvolvimento sustentável ou da economia verde possa ser possível desenvolver novos conceitos em relação à sustentabilidade ambiental e econômica de nosso planeta.
ME – Mas para que sejam urgentes, as mudanças, não deveriam ter foco em um dos aspectos?
PA – As mudanças devem ser feitas nos três campos: ambiental, social e econômica. E devem ser feitas visando a
sustentabilidade a longo prazo. A crise econômica de 2008 e em 2012 demonstra que algo de muito errado no sistema de governança em nosso planeta está ocorrendo. É muito urgente que mudanças sejam implementadas nestes três campos, por meio da redução da emissão de gases de efeito estuda, da redução das desiguladades sociais e da erradiação da pobreza. Estes são os três temas da Rio+20.
(Mercado Ético)