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Projeto transforma resíduo venenoso em aliado do ambiente
Natasha Pitts, da Adital
A Comissão Ecumênica dos Direitos da Terra - Cediter, com sede em Feira de Santana, município da Bahia localizado no Recôncavo Baiano, foi uma das 20 contempladas pelo edital de Meio Ambiente da Coordenadoria Ecumênica de Serviço - Cese. Com o projeto agroecológico “Manipueira, um líquido precioso”, a Cediter pretende experimentar e disseminar o potencial da substância tornando-a uma aliada do produtor rural.
A manipueira é o resíduo líquido gerado no processo de prensagem da raiz de mandioca para produção da farinha e da fécula. Suas propriedades venenosas podem ser consideradas nocivas ao meio ambiente por contaminar o solo e matar a vegetação. Contudo, algumas pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em Cruz das Almas constataram que, com a manipulação correta, a substância pode ser muito bem aproveitada.
“Por meio de estudos, a Embrapa constatou que a manipueira, quando tratada, pode ser utilizada como fertilizante para o solo, como alimentação para os animais e como inseticida natural. Assim, ao invés de ser um agente poluidor a substância pode ser uma aliada na preservação do meio ambiente”, explica Ana Lúcia Martins, responsável pelo projeto.
A iniciativa da Cediter será desenvolvida no município baiano de Irará, onde 20% do território são destinados ao plantio da mandioca. A economia da cidade gira em torno da agricultura familiar, sendo o cultivo da mandioca responsável por cerca de 75% da economia local. O município abriga mais de 500 casas de farinha, sendo que 80% delas são mecanizadas e destinadas quase que unicamente à produção de farinha.
Toda manipueira gerada no processo de fabricação deste produto é despejada no fundo das casas de farinhas, o que se constitui como fonte de contaminação do solo e de corpos d’ água da região. Os locais que recebem a substância são salubres e neles é perceptível a morte dos vegetais e o mau cheiro.
Com a implantação do projeto, a Cediter deseja não apenas fazer a destinação responsável deste resíduo, mas também capacitar à população de Irará para compreender as potencialidades do uso da mandioca e expor os problemas ambientais que a raiz pode ocasionar. “Nosso objetivo é capacitar 20 agricultores e 32 jovens por meio de cursos, oficinas, seminários e intercâmbios para difundir os métodos conservacionistas e mostrar na prática a boa utilização da manipueira”, esclarece Ana Lúcia.
Os jovens beneficiados serão escolhidos entre os estudantes da Escola Família Agrícola dos municípios integrados da Região de Irará, que são Coração de Maria, Irará, Ouriçangas e Santanópolis. Cada jovem ficará responsável por acompanhar dez famílias de agricultores familiares do município de origem, multiplicando os conhecimentos adquiridos no decorrer do projeto.
Estão previstas para o decorrer do projeto atividades como o Seminário Regional para Apresentação do Projeto, Curso Sobre a Cadeia Produtiva da Mandioca, Seminário Regional sobre as potencialidades da Manipueira, Oficina sobre inseticida de Manipueira, Oficina sobre como utilizar a manipueira na ração animal, intercâmbios, Cursos sobre Manejo Ecológico do Solo e da Água e Visitas Técnicas aos Jovens e Agricultores.
Outra proposta é a realização do ‘Laboratório do Uso de Manipueira’. Entre os alunos será escolhido um agricultor que possa ceder sua propriedade para o laboratório de experiência do uso da manipueira. Este laboratório será utilizado para produzir e manipular a manipueira como alimentação animal e inseticida natural na agricultura. Dessa forma, os agricultores terão um espaço para visualizar os resultados obtidos durante o projeto.
Para Ana Lúcia, a aprovação do projeto no edital da Cese representa a concretização de uma demanda já solicitada pela população de Irará. “A verba do edital representa a viabilização de algo que já vinha sendo cobrado pelos agricultores há mais de três anos. É um projeto piloto muito importante para a região, por isso estamos procurando parcerias com as secretarias de Agricultura dos municípios e do Estado para difundi-lo e dar continuidade. Nossa intenção é que ele sirva de espelho para outras regiões que passam pelo mesmo problema”.
(Adital)
