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Que legado deixaremos?
Leticia Freire, do Mercado Ético
Será realizado de 4 a 6 de agosto, no Teatro TUCA, na PUC - Pontificia Universidade Católica de São Paulo, o 3º Congresso Internacional sobre Desenvolvimento Sustentável - Sustentável 2009. O Congresso, que terá o apoio da ONU por meio da UNESCO e do PNUMA- Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, abordará a sustentabilidade na prática: tendências globais, inovações, educação e oportunidade de negócios.
Mas o que há de prático nisso?
Quem responde é Fernando Almeida, presidente executivo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável - CEBDS.
Mercado Ético - Com base no que vem sendo dito em dezenas de congressos, seminários, mesas-redondas e debates realizados nos últimos anos, é possÃvel notar uma adesão crescente no meio empresarial aos princÃpios do desenvolvimento sustentável. Mas na prática, em que medida esse discurso vem atingindo o core-business e os modelos de negócios adotados pelas organizações lideradas por dirigentes que se dizem sensibilizados pelo tema?
Fernando Almeida - De fato, é crescente no meio empresarial e em outros setores da sociedade a adesão ao tema desenvolvimento sustentável. O conceito surgiu tecnicamente em 1987 com a divulgação com o Relatório Brundtland - Nosso Futuro Comum, elaborado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, pela ONU e presidido pela então Primeira-Ministra da Noruega, Gro Harlen Brundtland. De lá para cá, o tema se difundiu muito. Contudo, continua preso à elite e ainda não se enraizou na sociedade como deveria. Esta certamente é uma das mais plausÃveis explicações para que a sustentabilidade não tenha atingido o core-business das empresas e ainda esteja tão distante das polÃticas públicas, apesar do senso de urgência. Há exceções que explicam a regra. Ou seja, temos registros de muitos casos de sucesso, mas os resultados em escala ainda não apareceram. Há uma inquestionável predominância da dimensão econômica sobre as outras duas dimensões da sustentabilidade - a social e a ambiental. Citaria dois exemplos incontestáveis: ainda não conseguimos iniciar a reversão da curva do aquecimento global e tudo que conseguimos avançar em relação ao combate à pobreza retrocedeu em conseqüência da crise financeira mundial.
Mercado Ético - No Brasil, quando se fala em mudanças climáticas, a ideia corrente é a de que basta conter o desmatamento na Amazônia e adotar combustÃveis com melhor balanço de carbono. Sabemos que isso é insuficiente. Qual é a participação da indústria nas emissões brasileiras? O que elas podem fazer para reduzir a pegada de carbono? Estão fazendo?
Fernando Almeida - Esta visão não está totalmente distorcida. O Brasil tem peculiaridades que o diferenciam em relação a praticamente todos os paÃses, desenvolvidos ou emergentes como nós. O nosso inventário constata que 70% das emissões, em especial de CO2 e metano, são provocadas por desmatamento e queimadas. A segunda maior fonte emissão são os veÃculos. A produção de energia elétrica tem origem numa matriz limpa, porque as hidrelétricas respondem por quase 80% da eletricidade que usamos. Mas não estamos conseguindo fazer a nossa parte. Não estamos conseguindo reduzir o desmatamento, missão bem mais fácil do que reformular totalmente a matriz energética, e caminhamos na contramão do bom senso, com o anúncio da construção de novas termelétricas movidas a combustÃveis fósseis.
As empresas que se posicionam num patamar satisfatório em relação à sustentabilidade, estão trabalhando para reduzir seus nÃveis de emissão de gases de efeito estufa. A Câmara Temática de Energia e Mudança Climática do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável) está desenvolvendo um projeto muito interessante para aferir os nÃveis de emissões, por meio da ferramenta GHG Protocol. Mas sabemos que só isso não resolve. É preciso a formulação de polÃticas públicas para facilitar o investimento em novas fontes de energia limpa e renovável, como eólica e solar, bem como enfrentar com eficiência o combate à destruição de florestas.
Mercado Ético - Fala-se muito da necessidade de implantar “novos modelos de negócio”, com a aplicação das tecnologias sustentáveis. Mas a prática mostra-se tÃmida. Quais as forças que podem mover o setor empresarial e industrial a começar a adotar medidas mais ousadas em direção a essas “tecnologias verdes”?
Fernando Almeida - Tenho dito com freqüência que nenhum setor da sociedade, isoladamente, vai resolver esse dramático impasse que estamos vivendo em escola global, ou seja, desenvolver a economia, ampliando para isso a produção de energia, e, ao mesmo tempo reverter a degradação dos serviços ambientais e incluir no mercado dois terços da população mundial que estão na informalidade, sem crédito, sem renda regular, ou na pobreza extrema. Só vamos encontrar efetivamente o caminho do desenvolvimento sustentável quando conseguirmos pavimentar o entendimento entre os principais atores da sociedade, em especial empresas e governos. A implantação do novo modelo de desenvolvimento virá por inovações tecnológicas e, sobretudo, por mudanças de atitude.
Mercado Ético - Com a crise, o discurso sustentável empresarial ficou abalado, principalmente com os cortes precisos e imediatos nas (já enxutas) áreas e departamentos ligados ao desenvolvimento sustentável. Mas a recuperação da economia é esperada dentro de novas condições. Nesse caso, as empresas estão realmente assumindo a sustentabilidade como caminho de recuperação?
Fernando Almeida - Primeiro, é preciso ter clareza de que o cenário de crise é reflexo de um modelo de desenvolvimento predador e insustentável tanto do ponto de vista econômico, como social e ambiental. A falta de transparência, por exemplo, é uma marca incorrigÃvel da economia tradicional. A maquiagem de balanços de grandes instituições financeiras americanas pegou o mundo de surpresa e desencadeou um grau de desconfiança que contaminou todo o mercado.
O enfrentamento dos reflexos da crise financeira mundial tem mostrado o quanto é importante a parceria entre empresas e governos, esses últimos responsáveis pela formulação de polÃticas públicas. Lord Stern, uma das maiores referências mundiais em economia e mudança do clima, constatou que a alternativa de reconstruir o modelo de negócios e o padrão de desenvolvimento, aliando inovações tecnológicas e culturais, significa, numericamente, aplicar 20% do estÃmulo governamental na recuperação dos paÃses na transição da economia tradicional para um modelo com baixo teor de carbono. O especialista britânico cita exemplos expressivos em dois paÃses asiáticos. Dentro do pacote de estÃmulos, os investimentos verdes do governo chinês atingiram 34% do volume total de recursos de US$ 582 bilhões, e a Coréia do Sul, em iniciativa mais ousada, já investiu na linha verde 69% do total de US$ 38 bilhões.
Mercado Ético - O que faz, pessoalmente falando, você trabalhar a favor do desenvolvimento sustentável? O que o inspira?
Fernando Almeida- Nasci em 1952 e fui criado no entorno da Baia de Guanabara, precisamente na Ilha do Governador. Um dos mais rotineiros contatos diretos com a natureza se dava em coletar cavalos marinhos, indicador de alto nÃvel de qualidade ambiental. Divertia-me observando-os e devolvendo-os ao mar. Educado por professora primária, chefe de famÃlia, me formei em engenharia, estudando sempre em escolas públicas. Tanto o cavalo marinho quanto a qualidade das escolas públicas desapareceram do cenário urbano brasileiro. Essas lembranças da infância me estimularam a pensar diante de uma perspectiva mais ampla. Trabalhei como professor, operador do setor público, consultor de empresas privadas e hoje dedico-me à s atividades do CEBDS, proferindo palestras e escrevendo sobre o tema, artigos e livros. Minha maior motivação no momento são meus netos. Que legado deixaremos para esta geração? Ainda não fomos capazes de resolver questões cruciais como clima, água, miséria e direitos humanos.
Mercado Ético - Qual seria seu conselho para a liderança empresarial brasileira na questão do desenvolvimento sustentável?
Fernando Almeida - Que saiba interpretar os indicadores e entender que a sobrevivência da atividade empresarial depende, no longo prazo, dos serviços ambientais e do equilÃbrio das relações sociais. E que saiba se relacionar de forma positiva com seus stakeholders.
COMENTÁRIOS
Espero que os encontros sirvam para mostrar aos empresários que o lucro que obterão será inexoralmente no longo prazo. Portanto aquela visão de toda a ação realizada na empresa terá que presentar resultados imediatos precisa ser revista com urgência. É necessário implantar a cultura da preservação e principalmente compreender que o meio ambiente não é uma terceira pessoa de quem se fala automaticamente, e sim compreender que tudo está de alguma forma interrelacionado com a atividade da organização.
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