Colunistas
Sim, eu quero acreditar
O slogan mais marcante dos últimos tempos foi o “Yes, we can!” (Sim, nós podemos!, em tradução livre) incessantemente repetido por Barack Hussein Obama em sua campanha vitoriosa para se tornar o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.
Mas será que ele pode mesmo?
Já imagino o Obama apontanto o seu indicador no meu nariz desconfiado e gritando: “Yes, we can!” E eu responderia: “Sim, eu quero acreditar!”
Semanas atrás, o G20, grupo dos paÃses mais ricos e dos principais emergentes, reuniu-se em Londres. O objetivo era definir uma estratégia para combater a crise financeira global. Ao fim do encontro, o anfitrião Gordon Brown, primeiro-ministro do Reino Unido, fez um anúncio em nome de todos os lÃderes participantes da reunião. “Hoje é o dia em que o mundo se juntou para lutar contra a recessão global. Não com palavras, mas com um plano de recuperação e reforma que conta com um esquema claro de trabalho”, disse ele citando vagamente algo sobre a economia verde.
Obama, o carismático (não o bárbaro que estão pintando nos quadrinhos), também falou bonito. “Hoje, os lÃderes responderam com esforço sem precedente”, declarou.
Lula, chamado pelo norte-americano de “o lÃder mais popular da Terra” - o que até faz algum sentido se, primeiramente, descartarmos o mais popular, que é o próprio Obama - também deu sua opinião: “Foi bom não só para o Brasil, mas para a esperança e o futuro da humanidade”.
Será?
Eu quero acreditar! Quero ter fé de que aquele tenha sido mesmo o ponto de virada. Mas será que foi mesmo?
Para ambientalistas do mundo todo, não foi não. Eles estavam desapontados com a falta de comprometimentos mais claros com o ambiente e os empregos verdes.
É difÃcil dar crédito aos polÃticos. Primeiramente, porque já estamos calejados de ouvir discursos bonitos que não se tornam ações concretas. São as retóricas vazias, de que tanto os ambientalistas reclamam.
E parece que eles têm razão. Uma indicação disso foi o fiasco do econtro das Nações Unidas em Bonn, na Alemanha, realizado na semana passada. Mais abrangente do que o G20 de Londres, Bonn recebeu 2.500 representantes de 175 paÃses. Em pauta, estava a criação dos termos de um acordo climático a ser assinado em Copenhagen, na Dinamarca, em dezembro. O documento, se houver algum, deve substituir o Protocolo de Kyoto.
Foi então que o mundo ouviu o primeiro “Não, nós não podemos” (não exatamente com essas palavras) do Obama. Justiça seja feita, é louvável a disposição dos Estados Unidos em participar das discussões sobre o aquecimento global, o que não ocorreu em momento nenhum durante o governo de Bush. Mas Jonathan Pershing, o representante Americano nas discussões em Bonn, disse que os EUA só tomariam as medidas que fossem possÃveis do ponto-de-vista polÃtico, econômico e tecnológico. Isso, de acordo com as propostas apresentadas, significa que os americanos querem baixar suas emissões para os nÃveis registrados em 1990 em um prazo que se estende até 2020.
PaÃses como as Filipinas disseram que os ricos deveriam cortar mais: algo em torno dos 40% entre 2013 e 2017, e mais de 50% entre 2018 e 2022 dos nÃveis registrados em 1990. Isso é mais ou menos o que o Greenpeace defende.
Quero ver até onde o presidente Obama está disposto a ir nessa questão. Se for para fazer, que faça direito.
Enquanto isso, o Brasil, herói até então desconhecido na área de energia limpa, quer investir mais em termoelétricas. Isso significa maior dependência dos combustÃveis fósseis e, consequentemente, mais carbono na atmosfera brasileira. De acordo com o Plano decenal de Energia 2008/2017, o paÃs vai aumentar para 5,7% a geração de energia proveniente dessas fontes sujas. Isso não é bom exemplo de um herói.
Pois é. Eu quero acreditar! Mas está difÃcil.
Henrique Andrade Camargo é jornalista e blogueiro (www.minhalondres.blogspot.com). Já trabalhou para a Gerência de Comunicações do Grupo Abril e colaborou com revistas como Viver Psicologia, VIP e Superinteressante. Nesta última, junto com a equipe da publicação, ganhou medalha de ouro no Prêmio Malofiej 2005, o Oscar da infografia mundial, que é concedido pela Universidade de Navarra, na Espanha.
COMENTÁRIOS
Henrique…
Adoraria ter a mesma crença e dar um voto de confiança para as pessoas que governam o planeta. Mas nao consigo me conformar com reuniões, rodadas de negociação e coisas nesse sentido. Para conversarmos podemos marcar um churrasco (de abobrinhas para vc!!! rs), o resultado final é o mesmo…
Vc já ouviu aquele dito popular, que soa como lição de moral quando somos pirralhos, vindo de nossos pais que diz que querer não é poder? É amigo, ja diria o Galvão Bueno… O conformismo e o jogo de interesses imperam nesse mundo cão. Quer um exemplo prático??? Vc só constroe a sua casa quando deixa de lado aquele discurso de que um dia terá a sua casinha própria e coloca a mão na massa. As grandes conquistas realizadas em nossas vidas só acontecem quando tiramos a bunda da cadeira e construimos o ambiente para tal. Nada cai do céu, nada vem de mao beijada…
No dia que os poderosos colocarem em prática toda essa retorica dita em encontros e rodadas de negociações as coisas acontecerão.
O mundo nao precisa de mais um documento para reger questões controversas, que de tão controversas são incrivelmente simples, o mundo precisa de ações práticas e direcionadas para um denominador comum.
Parabéns Henrique!!!
“Yes, we can!”
O que move as pessoas é a Fé, mesmo que seja em algo ou pessoas que não mereçam tanto assim, seja pelos históricos ou ideáis nada positivos. Sem a fé, por que vou continuar a estudar, trabalhar, acordar, aprender…. Já pensou se o Obama falasse “I’m Sorry” ao invés do “Yes, we can”? Que desastre seria… Cada um de nós temos que correr atrás do que queremos e sonhamos, e não apenas esperarando medidas as vezes pouco práticas e objetivas tomadas por parte dos lÃderes mundiais. Faça sua parte e não fique apenas esperando, como já disse o Rodolfo em outro comentário.
Pode ser que eu pareça mais um utópico no paÃs das maravÃlhas, mas eu continuo acreditando! Yes, we can! Mas eu estou fazendo minha parte para ou poder continuar acreditando.
Caro Henrique,
Concordo tanto com sua vontade de dar um voto de confiança à s atuais negociações polÃticas sobre meio ambiente - e tudo mais que isso envolve - e, é claro, também com seu pé atrás. Só quero levantar mais um detalhe desta grandiosa questão. Quando Barack Obama pronunciou seu já famoso “Yes, we can”, a frase era também um chamamento. E convocava todo cidadão norte-americano a acreditar junto em alguma coisa e… lutar por isso junto, a agir, a crer em algo fazendo por acontecer. Podia ser, naquele momento, ir à s urnas, por exemplo. Mas isto até Obama já sabia (e dizia claramente) que era apenas o começo. Precisamos exigir comprometimento polÃtico dos EUA e, cada um, dos lÃderes polÃticos de seu próprio paÃs. Mas será que estamos também nos importando com o destino polÃtico e ambiental de nossas pequenas aldeias globais? Quem despolui o rio que corta nossa cidade? Quem se importa com os aterros sanitários da cidade (ou com a falta deles)? Quem protege o pouco que sobrou da Mata Atlântica antes mesmo de pensar no destino da Amazônia? Nessa pequena frase proferida por Barack Obama, “Yes, we can”, não seria o “we” o termo mais importante? Sim, nós podemos, ao menos, pensar.
