17/01/2012 14:20:22
Leonardo Boff *
Há hoje um conflito entre as várias compreensões do que seja sustentabilidade. Clássica é a definição da ONU, do relatório Brundland, (1987) “desenvolvimento sustentável é aquele que atende as necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem a suas necessidades e aspirações”. Esse conceito é correto mas possui duas limitações: é antropocêntrico (só considera o ser humano) e nada diz sobre a comunidade de vida (outros seres vivos que também precisam da biosfera e de sustentabilidade).Tentarei uma formulação, o mais integradora possível:
Sustentabilidade é toda ação destinada a manter as condições energéticas, informaconais, físico-químicas que sustentam todos os seres, especialmente a Terra viva, a comunidade de vida e a vida humana, visando a sua continuidade e ainda a atender as necessidades da geração presente e das futuras de tal forma que o capital natural seja mantido e enriquecido em sua capacidade de regeneração, reprodução, e coevolução.
Expliquemos, rapidamente, os termos desta visão holística:
Sustentar todas as condições necessárias para o surgimento dos seres: estes só existem a partir da conjugação das energias, dos elementos físico-químicos e informacionais que, combinados entre, si dão origem a tudo.
Sustentar todos os seres: aqui se trata de superar radicalmene o antropocentrismo. Todos os seres constituem emergências do processo de evolução e gozam de valor intrínseco, independetente do uso humano.
Sustentar especialmente a Terra viva: a Terra é mais que uma “coisa” (res extensa), sem inteligência ou um mero meio de produção. Ela não contém vida. Ela mesma é viva, se autoregula, se regenera e evolui. Se não garantirmos a sustentabilidade da Terra viva, chamada Gaia, tiramos a base para todas as demais formas de sustentabilidade.
Sustentar também a comunidade de vida: não existe, o meio ambiente, como algo secundário e periférico. Nós não existimos: coeexistimos e somos todos interdependentes. Todos os seres vivos são portadores do mesmo alfabeto genético básico. Formam a rede de vida, incluindo os microorganismos. Esta rede cria os biomas e a biodiversidade e é necessária para a subsistência de nossa vida neste planeta.
Sustentar a vida humana: somos um elo singular da rede da vida, o ser mais complexo de nosso sistema solar e a ponta avançada do processo evolutivo por nós conhecido, pois somos portadores de consciência, de sensibilidade e de inteligência. Sentimos que somos chamados a cuidar e guardar a Mãe Terra, garantir a continuidade da civilização e vigiar também sobre nossa capacidade destrutiva.
Sustentar a continuidade do processo evolutivo: os seres são conservados e suportados pela Energia de Fundo ou a Fonte Originária de todo o Ser. O universo possui um fim em si mesmo, pelo simples fato de existir, de continuar se expandindo e se autocriando.
Sustentar o atendimento das necessidades humanas: fazemo-lo através do uso racional e cuidadoso dos bens e serviços que o cosmos e a Terra nos oferecem sem o que sucumbiríamos.
Sustentar a nossa geração e aquelas que seguirão à nossa: a Terra é suficiente para cada geração desde que esta estabeleça uma relação de sinergia e de cooperação com ela e distribua os bens e serviços com equidade. O uso desses bens deve se reger pela solidariedade generacional. As futuras gerações tem o direito de herdarem uma Terra e uma natureza preservadas.
A sustentabilidade se mede pela capacidade de conservar o capital natural, permitir que se refaça e ainda, através do gênio humano, possa ser enriquecida para as futuras gerações. Esse conceito ampliado e integrador de sustentabilidade deve servir de critério para avaliar o quanto temos progredido ou não rumo à sustentabilidade e nos deve igualmente servir de inspiração ou de idéia-geradora para realizar a sustantabilidade nos vários campos da atividade humana. Sem isso a sustentabilidade é pura retórica sem consequências.
*Autor do livro Sustentabilidade: o que é e o que não é, a sair em fins de janeiro de 2012 pela Editora Vozes.
(Vitae Civilis)
Excelente e oportuna a reflexão que Leonardo Boff faz, convidando a considerar a questão da sustentabilidade sob uma perspectiva mais ampla.
Tal reflexão apenas mostra como ainda estamos distantes de atender às necessidades atuais; afinal estamos discutindo como preservar o que já existe.
Se formos pensar na proposta de enriquecimento do capital natural do planeta, aí sim, podemos perceber o tamanho e a complexidade da tarefa.
Com sua reflexão, Boff mostra como nós, todos, temos muito trabalho pela frente.
É interessante que exista um diálogo e entendimento amplo acerca da preservação do PLANETA AZUL, de sorte a não comprometer sua saúde, já que essa morada conforme propõe lovelook, com sua teoria de que a terra é um ser vivo, e que em outras palavras somos micróbios perniciosos, que estamos ocasionando febre na mesma, e eu fico imaginando que quando a febre é muita alta organismo costuma tremer e delirar.
Sou ruralista e vim conhecer luz elétrica e a cidade com 6 anos de idade e quero dizer que o maior crime ambiental, foi a retirada maciça do “bicho homem”, de seu habitat natural, colocando-o enclausurado nos grandes conglomerados urbanos.
Se imaginarmos hipoteticamente que o homem tenha vivido 800 gerações, foi nas 3 últimas que o mesmo veio a participar da deterioração e destrutividade ampla em pról de uma coisa que elegemos como a suprema condição do desenvolvimento, ou o progresso consumista.
O desatre não vai ser impedido com meras teorias e empilhados de tratados e peças retóricas. O que presenciamos na verdade, no exato momento, é que em nome da sustentabilidade, estão na verdade é tecendo a antípoda da Reforma Agária, donde presenciamos as grandes corporações, notadamente os Usineiros, os banqueiros, barragistas, grandes conglomerados econômicos, dominando o espaço verde, enterrando árvores de Lei em trincheiras, diuturnamente, com suas máquinas operatrizes ao mesmo tempo que aparecem em caras manchetes, como defensores da sustentabilidade.
Então o termo SUSTENTABILIDADE é um termo “chic” e esnobe, que está sendo utilizado, como forma de expulsar o “Jeca Tatú” de sua toca.
Peguemos como exemplo o queijo mineiro, elaborado artesanalmente á mãos caprichosas, pelo homem simples do campo,mercadoria e gênero alimentar, que ganhou recentemente o honorífico título de PATRIMÔNIO GASTRONÔMICO NACIONAL, o primeiro, na categoria, só que sob o pretexto de se assegurar a boa higiene e saúde as Leis vieram no sentido de massacrar, esse pilar de toda uma tradiçao e de uma cultura. Pegam o papel e falam: De acordo com o Artigo tal, inciso isso, parágrafo aquilo, fica vetada, e bla!bla!bla! Então vivemos em um periódo de total inépcia, marasmo e falta de projeto, como propõe Leonardo Boff, de forma Holística…Daí eu fico pensando: Será que o EFEITO ESTUFA, não teria cozinhado os miolos de nossa gente….O Que será…O que será! ACORDEM E PROGRESSO!!! Somos ou não FILHOS DE GAYA!!!