16/06/2012 22:13:00
Isabel Gnaccarini, do Mercado Ético
Quando o líder Almir Suruí, do povo Paiter Suruí, esteve em São Francisco (EUA), em 2007, para conversar com o pessoal do Google, foi Rebecca Moore quem o recebeu. Ela é a engenheira responsável pelo Google Earth Outreach. Traduzindo, o Google Earth Solidário é o braço da Google que oferece a organizações públicas e sem fins lucrativos o conhecimento e os recursos para visualizar sua causa para milhões de pessoas.
“Ele nos explicou que um dia os jovens da tribo mostraram a ele a terra Surui vista do céu. Era uma massa verde rodeada por desmatamento. Ele gostaria de mostrar sua luta para o mundo. Não tínhamos como dizer não!”, relembra Rebecca. Surui não foi pedir nada, mas propôs uma parceria, dizendo que queria juntar conhecimentos. O Google, então, deu aos Suruís acesso aos mais recentes computadores do mundo, interligando as aldeias e com o uso do Google Earth.
Hoje, durante o primeiro dia de trabalho do Fórum Global Compact na Rio+20, Rebecca Moore e o chefe Surui, junto com outros membros da tribo, lançaram o Mapa Cultural Surui, um tour interativo da cultura e da história do povo exibido no Google Earth.
O primeiro objetivo do projeto foi dar visibilidade mundial à preocupação desse povo com a manutenção de sua etnia, da riqueza natural e da cultura ancestral de sua tribo. Segundo Almir, suas terras são ameaçadas por madeireiros ilegais.
Mas Rebecca elencou duas outras metas, talvez mais importantes: uma é o empoderamento dos Surui com as ferramentas tecnológicas, facilitando o melhor manejo de suas terras, bem como sua defesa; outra, o fortalecimento de sua cultura com o registro de sua história.
“Os jovens estão sendo capacitados para usar as ferramentas com as quais têm total afinidade para gravar as boas e lendárias histórias que os antigos contam sobre os animais, os espíritos… , colocando tudo isso no mapa”, conta Rebecca. A plataforma contém imagem em 3D da selva onde vivem, assim como narrações animadas de suas tradições e costumes.
Outra coisa é que com o mapeamento de sua riqueza pode atrair investimentos de fora: seus proprietários poderão colocar parte disso no mercado de compensação de carbono. “É um novo tipo de fundo para o povo, diferente de um pedido de ajuda para continuar existindo”, propõe ela. Uma estimativa é de que isso possa render U$ 30 milhões em 30 anos. “A ideia não é documentar uma área com vegetação plantada, mas uma grande reserva de biodiversidade, vida e cultura”, enfatizou.
Parece que a ideia está afinada com os planos feitos por Surui a mais de uma década, quando esse povo começou a buscar parcerias com governos e ONGs para melhorar a qualidade de vida. A independência dos homens brancos é um anseio. Os Suruís querem estar preparados para o futuro com um projeto para 50 anos.
Durante séculos, seus integrantes foram nômades na Amazônia. O primeiro contato com brancos ocorreu em 7 de setembro de 1969. O contato trouxe violência e doenças: das cerca de 5 mil pessoas que ali viviam, o povo chegou a ter somente 250 indivíduos. Hoje, são 1,3 mil pessoas em 25 aldeias na Terra Indígena, uma área de 240 mil hectares no noroeste de Rondônia. E têm uma imagem animada do Google Earth dentro do território brasileiro.
——————-
O Corporate Sustainability Forum: Innovation and Collaboration for the Future We Want – o Global Compact é um evento paralelo à Rio+20 realizado em parceria com a ONU. O Fórum acontece de 15 a18 de junho, no Windsor Barra Hotel, no Rio de Janeiro.
* Acompanhe a cobertura do evento no Especial Mercado Ético Rio+20
(Mercado Ético)