É a política…

Não chego ao exagero de defender que todos os cidadãos do mundo tenham direito a voto nas eleições realizadas no centro do Império. Mas não preciso também desperdiçar seu tempo listando os motivos pelo qual temos de acompanhar com muita atenção o processo de escolha do novo presidente dos Estados Unidos.

A manchete de hoje (14/1) do Mercado Ético traz link para a reportagem de Paula Scheidt, do CarbonoBrasil, sobre os compromissos que os pré-candidatos democratas e republicanos estão assumindo publicamente de dar dimensão nacional ao enfrentamento das mudanças climáticas. Por qualquer ponto de vista, trata-se de uma notícia animadora, ainda que se resuma ao que é neste momento: promessas de campanha.

Costumamos dar a esta última expressão um tom pejorativo. Somos ingênuos e um tanto prepotentes ao insistir nesse equívoco. Nas democracias midiáticas, os políticos profissionais mobilizam estruturas cada vez mais complexas para produzir discursos capazes de equalizar os interesses sócio-econômicos que buscam representar e as aspirações de públicos-alvo identificados como estratégicos para suas pretensões. Promessas desse tipo são bem mais do que aparentam, se aprendemos a lê-las.

George W. Bush e seus patronos puderam se dar ao luxo, nas duas últimas eleições estadunidenses, de não só ignorar, como tentar desqualificar a questão do aquecimento global. Pelo jeito, os novos aspirantes ao emprego não podem mais fazer isso, ainda que eventualmente queiram. Mais até: estão sendo pautados por seus staffs a abrir a questão logo de saída e não guardá-la para o momento de conquistar a meia-dúzia final de votos que pode decidir seus destinos.

A leitura de quem aprendeu como se fabrica um candidato é óbvia: as antenas milionárias das campanhas captaram o sentimento difuso do eleitorado, o mesmo que vem impelindo as várias instâncias de poder local a afrontar os interesses do comandante-em-chefe e formular políticas públicas cada vez mais focadas no esforço de mitigação. Essa, sim, é a notícia que importa, na minha modesta opinião.

Sem entrar no mérito das propostas, vejo na reportagem a confirmação de que o meio mais eficaz de quebrar a lentidão inercial dos aparelhos burocráticos dos Estados nacionais e das grandes corporações ainda é a mobilização da vontade social, empreendimento a que se dedica, lá no norte, uma vasta rede de cidadãos e organizações que têm em comum o hábito de se intrometer no pas-de-deux que os partidos da ordem e os interesses da velha economia adoram dançar quando estão a sós.

Em pleno século 21, somos instados a constatar que não inventamos nada melhor do que a política – sim, ela mesma, no sentido que aprendemos nos manuais de sociologia e na vida – para fazer o caminho.

A água de Brasília

Declarações um tanto despretensiosas, meio soltas em dois destaques do Mercado Ético de hoje (10/1), reforçam uma sensação que tenho há um bom tempo: Brasília é uma cidade meio esquisita. Nunca me dei bem naquele lugar tão seco - o que, aliás, não quer dizer nada; a gente se habitua até com cidades como São Paulo, onde nasci e (sobre)vivo até hoje.

Mas que tem alguma coisa estranha na nossa capital lá isso tem. Talvez a água… Corre por aí a história de um carioca ressentido, que no final dos anos 50 teria despejado vários tonéis de um alucinógeno poderoso nos mananciais que abastecem o planalto.

Faz sentido. De que outra forma entender o fluxo do pensamento do ministro Nélson Hubner, que considera desnecessário mobilizar a população para economizar energia? A que planeta ele se refere?

Você pode dizer que estou tirando a frase do contexto. Estou mesmo. Com certeza, passavam pela cabeça do ministro temas bem mais prosaicos do que a nossa pegada ecológica e o aquecimento global, por exemplo. Ele emitia aos jornalistas mais um entre tantos palpites disparatados proferidos por nossos especialistas sobre o risco de um apagão ainda este ano, que registramos na reportagem “Energia elétrica: a volta do chove-e-não-molha”.

Mesmo assim: isso lá é coisa que se diga, ministro? A mim soou como um ato falho de um homem público que defende com tanto empenho a retomada do programa nuclear, a construção de Santo Antônio e Jirau, a carbonização de nossa matriz energética com a disseminação de novas usinas térmicas e por aí afora.

Se não bastasse, eis que na matéria ao lado (”Estimativas para a produção de etanol e a safra de grãos”) surge o ministro Reinhold Stephanes, hábil servidor de senhores tão diversos como o general Médici, os presidentes Color, Cardoso e Silva. Em meio a números e projeções sobre o crescimento acelerado da produção e o aumento da produtividade de nossas commodities agrícolas, ele assegurou, taxativo: “Não vejo perigo de impacto para o meio ambiente”.

Que o digam o cerrado e sua biodiversidade declinante, né não ministro? Não tivesse mais o que fazer, recomendaria a ele a leitura do já clássico “Comendo a Amazônia”, publicado pelo Greenpeace em 2006. Ou se ele preferisse fontes menos “suspeitas”, contam-se às dúzias os trabalhos de pesquisadores de instituições como o INPA e o INPE, além dos vizinhos de Esplanada do MMA, que descrevem a coreografia manjada da soja-que-empurra-o-boi-que-empurra-o madeireiro-clandestino cada vez mais para dentro da floresta.

Definitivamente, esta quinta-feira não foi um dia muito feliz. Veio, enfim, da Inglaterra a decisão já mais do que esperada de tornar o mundo um lugar ainda menos seguro, com a liberação de uma nova geração de usinas nucleares, anunciada pelo ministro do Comércio, John Hutton.

Não fosse um tanto pretensioso de minha parte, recomendaria a esse senhor a leitura do artigo “Energia e poder nuclear”, do professor Henrique Rattner, da FEA-USP, que temos o orgulho de publicar. Como não é um filme, posso adiantar a frase final sem prejudicar a fruição da leitura: “Como superar essa irracionalidade que leva a humanidade à beira de destruição total, embora a cada dia surjam novos países “candidatos” a ingressar no clube seleto, ávidos a apropriarem-se dessa tecnologia?”

Energia nova, práticas antigas

De novo a história da boa e da má notícia em nossa manchete de hoje (8/1). Reportagem da IPS registra a perspectiva de avanços significativos na utilização de fontes limpas de energia na Espanha, com investimentos bilionários de corporações como a Iberdrola, a Abengoa e a Endesa em parques eólicos e solares. Pode ser um bom sinal para o Brasil, onde as três empresas têm participação significativa no setor elétrico.

Palmas para as novas campeãs da energia limpa e renovável? Não necessariamente. A matéria traz uma informação inquietante para os que jogam todas as fichas no mercado e na inovação tecnológica para a superação da enrascada socioambiental em que nos metemos. As empresas são acusadas de repassar para o consumidor a conta dos direitos de emissão de CO2 em suas usinas a carvão, que adquiriram para o período 2005/2007. Foram obrigadas pelo governo do PSOE a devolver o dinheiro, mas se recusam a fazê-lo.

O business as usual costuma ser associado de maneira ingênua aos velhos interesses corporativos, que seguem à frente do que Hazel Henderson chama de industrialização primitiva. É a mesma modalidade de auto-engano que atribui à energia limpa e renovável o dom de abrir as portas do paraíso. Para os que assim pensam, recomendo também a leitura do nosso segundo destaque de hoje no Mercado Ético, que trata dos efeitos dos biocombustíveis sobre a saúde humana.

Quem, como eu, vive em São Paulo nem precisa de pesquisa para compreender o impacto de oxidantes fotoquímicos como o ozônio em nossos olhos, narinas, brônquios e pulmões. Basta respirá-los num daqueles dias secos e ensolarados de inverno.

Minha querida Laura Teti, ferrenha defensora do etanol de cana-de-açúcar, costuma apresentá-los como indicador do sucesso do Proconve, o programa rigoroso de controle de emissões de veículos que ajudou a articular nos anos 80. Segundo ela, trocamos a velha poluição do chumbo que impregnava a gasolina antes da adição do álcool e dos particulados emitidos pelo diesel por este ar “de primeiro mundo” que passamos a respirar sob as bençãos do Pró-Álcool.

Claro, foi uma boutade. Mas vale a pergunta: até que ponto, por conta do que vislumbramos hoje como caminho para a sustentabilidade, temos o direito de ignorar velhas práticas como a socialização dos prejuízos corporativos e velhos problemas como a contaminação do ar, em nome das boas relações com nossos novos “companheiros de viagem”?

Energia para 2008 (e 2009, 2010, 2011…)

Parecia uma boa notícia para começar o ano: desde primeiro de janeiro, a adição de dois por cento de biodiesel ao óleo combustível utilizado em todo o Brasil é obrigatória. O clima é de euforia nas agências governamentais, como relata Maurício Thuswohl, da Carta Maior, na reportagem que replicamos hoje (7/1) como manchete. O risco de desabastecimento parece ter sido superado e a capacidade produtiva cresce de tal forma que já se cogita a antecipação do próximo passo, o aumento da mistura para 5%, inicialmente previsto para 2013.

Mas eis que surge a pergunta que não quer calar, vocalizada por dois pesquisadores do Instituto Smithsonian: diante dos impactos socioambientais do modelo que domina a produção atual de biocombustíveis, estamos mesmo fazendo um bom negócio? No artigo publicado pela revista Science, a resposta é não para 12 das 26 alternativas hoje disponíveis, incluídos aí o nosso etanol de cana-de-açúcar e o óleo extraído de plantas como a soja.

A prática da monocultura em áreas extensas, o trabalho precário, a poluição do solo e das águas, o desflorestamento, a perda de biodiversidade, a destruição de cultivos alimentares, entre outros fatores que o estudo levou em conta, fazem com que a relação custo-benefício penda surpreendentemente para o lado dos combustíveis fósseis.

Mais polêmica ainda é a questão da energia nuclear. Espera-se que esta semana o debate acirrado que opõe ambientalistas e nucleocratas em todo o mundo volte para as manchetes, com a possível inclusão de um novo pacote de usinas na matriz energética inglesa, a ser anunciada pelo secretário de Comércio, John Hutton. Enquanto aguardamos, Mercado Ético replica o balanço da nova (e pretensiosa) política nuclear brasileira, produzido por André Campos para o Repórter Brasil.

Energia é que não falta neste início de 2008. Vamos precisar de muita para dar conta da empreitada que nos aguarda nas próximas décadas. Ou alguém pensou que a era do petróleo sairia de cena à francesa, docemente constrangida pelo estrago que provocou no planeta?

Que venha 2008

Aron Belinky habituou-se a medir o tempo pela alternância entre as cerejas e o pinhões nas prateleiras dos mercados. Espantou-se ao vê-los lado a lado em 2007. 
                 
Não foi a única novidade do ano em que a grande midia descobriu o aquecimento global, como nos lembra Luciano Martins Costa. 
                                                         
A mesma midia que até agora não foi capaz de ler o Brasil retratado pelo PNAD, que Ladislau Dowbor nos ajuda a entender. 
                                                              
Um país em que a filantropia cede espaço à responsabilidade social, na visão de Adalberto Marcondes.

Dal, Luciano, Ladislau e Aron são quatro parceiros queridos do Mercado Ético. Têm em comum o hábito de lidar com o tempo e mirar o futuro. Publicá-los nesta última edição do ano é um modo de reafirmar a esperança de que um dia possamos olhar para trás e reconhecer 2007 como o marco zero de nossas novas vidas.

Que sirvam de inspiração e mantenham nossos neurônios aquecidos enquanto nos dedicamos a flanar descalços e civis por aí, ainda que por alguns poucos dias – no nosso caso, até 7 de janeiro, quando retomaremos a trincheira. Até lá, fique com o abraço fraterno de toda a equipe.


José Maurício de Oliveira
editor-chefe do Mercado Ético

PS - Eu sei que está com jeito de promessa de ano novo, mas em 2008 vou me empenhar ao máximo pra convencer Christina, Rosa, Ricardo e Naná a postarem com frequência aqui no blog, que andou bem devagar em 2007.

PS(2) - Os podcasts do Mercado Ético na CBN foram retirados aqui do blog, onde estavam acampados, porque irão para a nova página que estamos construindo.

Bom motivo para salvar o planeta

Não que ele esteja ameaçado. Na verdade, parece que nós é que estamos. Mas se a pior visão neo-apocalíptica associada à nossa pegada ecológica se confirmar, dizem que só sobrarão bactérias surdas e microrganismos afins. E aí dará no mesmo, ainda que o CD “Noites de Gala, Samba na Rua” leve milênios para se dissolver.

O que importa é o seguinte: mesmo aqueles que não vêem lá muitos motivos para salvar o planeta (ou a civilização humana, que seja) hão de concordar que seria um tremendo desperdício largar à própria sina um lugar onde viveram Tom Jobim, Vinícius de Moraes e vivem Chico Buarque, Edu Lobo, Guinga, Nélson Ayres, Paulo Bellinati, Teco Cardoso, Rodolfo Stroeter, Ricardo Mosca e MÔNICA SALMASO!!!

Clique aí embaixo, ouça e… bom fim de semana.

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A opção nuclear e o Ministério do VDM

No auge da crise do mensalão, Chico Buarque de Holanda sugeriu ao governo Lula uma saída para não se meter de novo em enrascadas como aquela: a criação do Ministério do VDM. Não sei se a sugestão chegou ao presidente. Na dúvida, é hora de reapresentá-la com urgência.

A receita buarquista é simples e barata. Prevê não mais do que uma mesa, duas cadeiras e um ministro – de preferência, o homem mais sábio da República. Cada um que apresentasse uma idéia nova ao presidente seria imediatamente encaminhado ao Ministério.

- Companheiro ministro, os partidos estão endividados e o governo sem base de sustentação. Minha proposta é trocar votos no Congresso por cargos públicos que permitam aos indicados arrecadar recursos no bom e velho “por fora”, para pagar as dívidas e bancar as campanhas na próxima eleição.

Do alto de sua Imensa Sabedoria, o ministro coçaria o queixo, olharia para o vazio por alguns segundos e sentenciaria:

- Sei não, Vai Dar M…!

Proposta arquivada, missão cumprida.

Se o presidente Lula topar, seria sensato eleger como primeiro freguês do VDM um delegado eleito pela gerontocracia nuclear brasileira para debater a idéia de terminar a construção de Angra 3 e acrescentar mais algumas usinas novas ao pacote elétrico para a próxima década.

(Antes que me acusem de preconceito ou coisa pior é bom explicar: o termo “gerontocracia” vai por conta do que li numa reportagem publicada em março pela revista Pesquisa FAPESP, em que os próprios nucleocratas admitiram a falta de novos quadros técnicos e gerenciais como um dos obstáculos para a retomada do programa nuclear brasileiro. Boa parte dos que restam está na ativa desde os anos gloriosos em que o Brasil Grande ía pra frente, via na poluição um signo do progresso, usava fardas de tergal e sonhava com uma cadeira cativa no seleto Clubão das Potências Atômicas.)

- Ou vamos de nuclear ou este governo passará para a História como responsável pelo Grande Apagão de 2030 – afiançaria o delegado, após longa e meticulosa exposição técnica.

- Mas, e o custo?

- Uma pechincha! Com a bagatela alguns bilhões de dólares, colocaremos Angra 3 em funcionamento e entregaremos 1.350 MW aos consumidores lá por 2013, mais ou menos.

- Diz o Greenpeace que, com o mesmo dinheiro, dá pra construir bem mais rápido um parque eólico com o dobro da potência.

- Isso é conversa fiada de ambientalistas pouco esclarecidos, como diz nosso querido ministro da Ciência e Tecnologia. O preço por MW nas usinas nucleares é o que mais se aproxima da energia gerada pelas hidrelétricas.

- Pelo que sei, não é bem assim. Há quem diga que o senhor não está incluindo na conta a mineração e seus impactos ambientais, o transporte, o enriquecimento do urânio, o longo e delicado processo de resfriamento após a queima, a estocagem dos rejeitos radiativos por mais de dois mil anos, algo que ninguém conseguiu resolver ainda…

(“Xi, lá vem o cara com a velha história”, pensaria o delegado. “Qual o problema? Em muito menos tempo estaremos todos mortos!”)

- Externalidades, excelência, meras externalidades. Além disso, nestes tempos de aquecimento global, o mundo terá de pagar um pouco mais para usar energia limpa e segura.

(A última palavra detonaria um calafrio na espinha do ministro. Por um segundo, imaginaria um batalhão de Jack Bauers correndo atrás de terroristas com os bolsos cheios de urânio enriquecido no Brasil – sim, o Homem Mais Sábio da República não perdia um episódio de 24 Horas. Ok, sábios não são perfeitos, têm lá suas perversões, mas a liturgia do cargo impunha não admiti-lo de público. Precisava encontrar outro modo de propor a questão…)

- Mas isso não explode? – indagaria de sopetão.

- Claro que não! Isso é coisa do passado, excelência. Aprendemos muito com Chernobyl e outros acidentes, como Three Miles Islands, que não foi uma explosão, mas quase um meltdown. Aperfeiçoamos a tecnologia, aprimoramos os protocolos de operação e segurança.

- Então por que os chamados reatores de água leve como o de Angra 3 são definidos pelos especialistas como inerentemente inseguros?

- É aquela história do pára-quedas, excelência. No começo, costumava-se dizer que um terço dos saltos terminava mal porque ele não abria. Hoje não é mais assim, é só de vez em quando. Nossos técnicos garantem que, a não ser que ocorra uma sucessão improvável de falhas humanas na operação das usinas, não há o menor risco de acidentes.

(“Onde ouvi essa frase?”, pensaria o ministro. Imediatamente lembraria de uma conversa com seu colega do VDM paulista. Algo do tipo teria sido dito a ele poucas horas antes do Metrô-de-Porteira-Fechada afundar no buraco. Mas não, o Homem Mais Sábio da República não tinha o direito de desqualificar o interlocutor com um argumento tão rasteiro…)

- Quantas usinas mesmo os senhores querem construir?

- Fora Angra 3? Pode por aí umas oito. Ainda não acertamos os detalhes com o presidente Lula. Mas ele já está convencido da idéia geral. Vossa excelência deve tê-lo ouvido dizer que, se o Ibama não liberar as hidrelétricas do rio Madeira, vamos semear termelétricas e nucleares pelo Brasil afora.

(“Olhaí o danadinho do Lula usando as técnicas de negociação que aprendeu em São Bernardo”, pensaria o ministro . Estava convencido, assim como eu, de que o presidente inventara uma espécie de bode nuclear para colocar na sala dos ambientalistas. Toparia tirá-lo desde que o deixassem fazer o que realmente era do seu interesse: construir Santo Antônio e Jirau. Só não me perguntem por quê. Dá toda a pinta de ser uma longa história. Fosse eu o presidente, colocaria a ministra Dilma Roussef e o ministro Silas Rondeau - sim, pelo jeito ele vai voltar - sentadinhos na cadeira do VDM…)

- O senhor tem certeza de que é seguro?

- Cem por cento, excelência.

- Então eu posso até aprovar a idéia. Mas com uma condição: todos os que defendem a retomada do programa nuclear terão que morar, com seus filhos, netos e bisnetos, ao lado das usinas. O senhor aceita?

Diante do silêncio que se seguiria à pergunta, o ministro coçaria o queixo, olharia o vazio por alguns segundos e sentenciaria:

- Sei não, vai dar m…!

Tempos bicudos - réquiem por NoMínimo

Nunca vivi a experiência de enterrar uma redação nos meus tempos de jornalista - sim, na carteira de trabalho nunca deixei de ser, mas acabei mudando de ramo no fim de 1988, quando saí da TV Cultura porque minhas filhas estavam perto de completar um ano de idade e me senti no direito de vê-las crescer, algo um tanto incompatível com a rotina doida que era obrigado a compartilhar com um bando de malucos; engraçado que justo agora, que elas já estão por aí por conta própria, tenha pintado o nosso Mercado Ético para ameaçar com mais um volteio a minha identidade profissional…

Como jornalista (ops!!!) não divaga, volto ao ponto. Várias redações por onde passei continuam na ativa – Estadão, Folha, Globo, TV Cultura. Vejo-as, sem querer desmerecer os profissionais que hoje as habitam, como covers delas mesmas, vagas citações do que já foram um dia, algo assim como os Rolling Stones, há muito tempo vivendo da marca e não mais do som.

Outras, velei à distância. Frilei em publicações como o Opinião, o Movimento e, vá lá, o Pasquim (o verdadeiro), que me honrou com a publicação de uma nota curtinha enquanto o censor cochilava. Mas nem esse vínculo efêmero mantinha quando desapareceram. Com algumas não deu tempo de ir além da paquera, como o Beijo, o Ex e o Jornal da República, que morreu com o meu currículo na mesa.

Lembro apenas de uma situação vagamente assemelhada à que hoje devem estar vivendo os profissionais de um dos melhores sites de jornalismo eletrônico que pintou até agora por aqui, o NoMínimo (antes, No.). Foi quando o meu mestre Cláudio Abramo acabou colhido por uma bala perdida num tiroteio entre os militares de plantão e o cronista Lourenço Diaféria, que terminou por ferir de morte o Projeto Folha (o verdadeiro), lá por meados dos anos setenta. Perda sofrida, luto tão insuportável que hoje sou capaz de perceber o quanto ele acabou nos empurrando ao suicídio em massa, na malfadada greve de 1979, aquela em que os patrões (perdão, empresários da comunicação, como se diz hoje) descobriram que não precisavam de jornalistas para fazer jornais.

A morte de NoMínimo lança uma sombra de suspeita sobre as toneladas de palavras lançadas ao vento para saudar as promessas revolucionárias da Internet no campo da comunicação humana. Uma boa e velha pergunta ainda está por ser respondida, neste caso: quem paga a conta? Por favor, não me venham com essa conversinha de funcionário e bailarina – de dia, descolamos um troco em nossos empregos para sobreviver; à noite e nos fins de semana, aí sim, temos tempo livre para “mudar o mundo”. Já vi esse filme. Costuma não acabar bem. Até porque não há mais tanta hora vaga disponível por aí.

NoMínimo pagava salários para jornalistas e escritores cultivarem o olhar crítico de que tanto carecemos nestas bandas coalhadas de entertainers e marqueteiros de si próprios. Dançou por falta de patrocínio. Assim como o teatro independente, o cinema independente, a música de qualidade que já se fez um dia por aqui. É a mesma espada que paira sobre a reflexão acadêmica independente, as organizações sociais independentes…

É duro viver num país que relegou a produção cultural a um modelo de negócios tipo Blanche Dubois, sempre a depender da “bondade de estranhos” – no nosso caso, instalados nas salas refrigeradas dos departamentos corporativos de Marketing. É verdade, não podemos jogá-los todos num mesmo saco. Aprendi, principalmente aqui no Mercado Ético, que há os que professam com convicção a responsabilidade social e são capazes de compreender a demanda urgente por mudanças no nosso modo de produzir, consumir e conviver. Mas não entendo como foram capazes de mosquear tão estupidamente diante da asfixia de um stakeholder de primeira como o NoMínimo.

Nos posts de despedidas daquele timaço de pensadores e olheiros do Brasil (veja a lista aqui), capitaneados por Tutty Vasquez e Xico Vargas, há um aceno de esperança: eles prometem voltar, com outro projeto, com outro nome, algum dia desses. Até lá, muitos de nós terão de viver mais um período de luto. Sinto que devemos a eles algo mais do que elaborar a perda cada um no seu canto - a eles e a tantos outros em situação de risco, como os jornalistas da Carta Maior, que quase fechou há pouco tempo. Temos de honrá-los com um esforço sério para buscar respostas a uma das perguntas-chave do Brasil de hoje: como financiar a reconstrução de nossa inteligência social, em franca deterioração? Ou será que estamos condenados a produzir musiquinhas de celular para divertir os lobistas que pagam gentilmente as pensões dos nossos reis do gado?

Ser Simples é um luxo

Exauridos pelo excesso e rogando pela simplicidade, estamos sendo tragados pelo dragão do desejo, e é ele que tem nos escravizado. Quem pensa que consome é aquele que está sendo consumido. Nada mais sofisticado e destrutivo do que a comercialização da felicidade em dez prestações iguais.

Viver simples tem sido a opção de um crescente número de sobreviventes, que estão escapando dos dentes famintos desse dragão insaciável. Vários grupos se formam em torno de nobres ideais, que em vez de exorcizar o ato de consumir, o que inviabilizaria a vida no Planeta Mercado, propõem uma nova relação com o dinheiro e com os bens que ele faz circular. Se eu preciso de um, para que comprar dois? Se eu tenho muito dinheiro, por que me cercar de muros de concreto? Se eu preciso me satisfazer pela quantidade de lixo que produzo, por que estou ficando com medo de ficar sem água?

Para aprofundar essas e outras questões levantadas pelo Movimento da Simplicidade Voluntária, vale a pena visitar o site do Jorge Dellamora Netto - www.simplicidade.net - pioneiro no Brasil do Movimento da Simplicidade Voluntária, apregoado há anos pelo futurista e ambientalista Duane Elgin - www.simpleliving.net - e disseminado pela escritora best-seller e empreendedora social Vicki Robbin - http://www.newroadmap.org/vrsuccess.asp.

Vicki virá ao Brasil em outubro para o lançamento do seu livro “Your Money orYour Life”. Já vendeu mais de 10 milhões de cópias só nos EUA e a versão em português será publicada pela Editora Cultrix. Está ficando um luxo ser simples.

Dez pessoas na batalha pra mudar o mundo (4)

Que ranzinza que nada, Zé.

Você sabe dançar, como poucos, a deliciosa dança do diálogo, aquilo que faz ressoar na gente a complementaridade do que falta dizer para ficar completo.

Tá muito bom nosso “blogar”. 

Eu louvo a Forbes, não como exemplo a ser seguido. O celofane também tira o meu paladar, querendo sempre  saborear a  complexidade da vida, tão esvaziada pelo velho sistema da mídia.   Esvaziamento à parte, o que louvo é a opção que a Revista fez por estampar um pedaço de positividade num cenário pichado de destruição e desesperança.

Acredito no poder transformador da tecnologia, e reportagens como essa, funcionam como  profecias “auto-realizáveis”, fazendo direcionar os olhares para as soluções, deslocando-os dos problemas.  

Quanto às deficiências da midia mainstream, fica aí um caminho a ser trilhado pelo Mercado Ético, que  é ajudar as pessoas olharem a realidade sistêmicamente, pela teia da vida (tão bem definida pela obra do Capra) e tornar visível e criativa, a relação entre as pessoas  e as máquinas.  Acho que é o que estamos começando a fazer no teclado desse micro e no  toque desse mouse.

Sei lá, acho que não sei parar de sonhar. Como diz o Ricardão, “haja romantismo, Rosa!”

Dez pessoas na batalha pra mudar o mundo (3)

Rosa, como sempre você tem toda razão - aliás, seu comentário estabelece claramente o motivo pelo qual postamos o link para a matéria da Forbes aqui no blog.

Nada contra o seu “homo-technos”, embora não o separe do seu “homo-sapiens”. Sim, eu sei que vivemos um tempo em que ciência e sabedoria andam meio que se estranhando. A propósito, esse é um dos temas da nossa manchete de hoje (7/6) aqui no Mercado Ético, que aponta para entrevista do Fritjof Capra, também brilhantemente garimpada por você.

Mas na minha modesta opinião, o buraco é um pouquinho mais embaixo. Vejo esse estranhamento muito mais como resultado do modo como nossas sociedades articulam a produção institucional do conhecimento e sua apropriação - e não apenas como um conflito entre “modulações de consciência”, embora também não o negue.

No comentário rapidinho que fiz, toquei de passagem no que identifico como uma aliança tácita entre a midia mainstream, que se alimenta da produção compulsiva de novidades e celebridades instantâneas, e o staff das instituições científicas, em sua eterna batalha por verbas para sustentar equipes e projetos de pesquisa.

Isso acaba dando em ondas como a das “Promessas do Genoma”, título do livro escrito pelo Marcelo Leite, editor de Ciências da Folha, que parece tratar do assunto com a complexidade exigida - pois é, ainda não arrumei tempo pra ler; há semanas ele olha pra mim da cabeceira da cama, com ar de provocação…

Aprendi com o tempo a desconfiar do celofane salvacionista que embrulha de maneira tão sedutora esse tipo de pacote digestivo de informação, vendido não só pela Forbes, mas por centenas de irmãzinhas saltitantes pelo mundo afora.

Sei lá, acho que estou ficando velho e meio ranzinza.

Dez pessoas na batalha pra mudar o mundo (2)

Zé, adorei seus comments. Mas quero dar um voto para Forbes.

Na balança entre o determinismo tecnológico dos gringos e a mudança de mentalidade na ponta da curva, já que o mundo está como está, é pegar ou largar tudo o que existe de caminhos alternativos, claro, dentro de uma ordem de princípios.

O tempo está no fim, antes que acabe, e a gente também, o jeito é apostar no “homo-technos” como caminho alternativo e provisório ao que ainda espero ver nascer de verdade: o “homo sapiens”.

Tem muito o que reparar e consertar com a tecnologia. Depois fica a tarefa mais dificil: reinventar o mundo e a vida que o cerca. Só que essa parada só vai encarar quem também puder (e conseguir) se reinventar e redefinir sua relação com a vida.

Um voto de louvor à Forbes e sua reportagem tecno-utópica.

Bem vindos os sinais que iluminam algum tipo de esperança, seja lá qual for.

Dez pessoas na batalha pra mudar o mundo

Essa vai principalmente pra galera que está organizando o coletivo Juventude e Novas Lideranças aqui no Mercado Ético - e pra moçada de outros coletivos em defesa da vida por este mundão afora.

Revolutionaries
Ten People Who Could Change The World
Elisabeth Eaves 05.24.07, 6:00 AM ET

Dêem o desconto de que esse negócio de “lista-disso-lista-daquilo” é um tanto pop demais, puro show-biz, aqui no caso do tipo ciência-espetáculo. O foco é no potencial de produzir inovações breakthrough. Claro que existem outras maneiras de mudar o mundo. Mas é pedir demais para uma revista como a Forbes, né não?

O barato dessa história é que todos os que aparecem na galeria de fotos têm aquele jeitinho das minhas filhas depois do banho, antes de ir pra balada - minha turma era bem mais mal-humorada quando ainda queria chacoalhar o estabelecido.

O link foi garimpado pela Rosa Alegria.

Esquizofrenia social

Para entender a loucura que a assola a humanidade, recomendo fortemente a leitura do livro Esquizofrenia Social, da genial Elza Pádua, doutora em Psicologia Social. O livro nos leva a percorrer a construção da personalidade esquizofrênica, caracterizada pela indiferença narcísica. Mostra o papel da família, da mídia e das relações sociais nessa construção. E abre caminho para o novo ser humano, que tenta “superar a desgraça de um eu centrado em si, em troca de um eu em união com o outro, tentando organizar melhor o que é de todos.”

Esquizofrenia Social joga um imenso facho de luz no mais urgente de todos os temas: o despertar da nova consciência em todos nós. Essa consciência expandida, capaz de abrigar em si ou outro (e todos os outros), é o caminho único para reverter a síndrome genocida (e suicida) que se apoderou de todos os que hoje se submetem ao grande chefe do planeta, esse chefe virtual, imaginário, indiferente e narcísico, que se alimenta da própria esquizofrenia social, o chamado “mercado”.

Era apenas uma criança de 13 anos…

… mas isso não a impediu de dar aos representantes de países de todo o mundo, reunidos no Rio de Janeiro, em 1992, uma lição e um enorme puxão de orelhas.


Beethoven cai no samba e São Paulo vive o encontro entre dois mundos

O mundo sustentável que queremos construir mostrou a cara na Virada Cultural paulistana, neste fim de semana. Na quadra da Vai-Vai, a Orquestra Sinfônica Jovem, regida pelo maestro João Carlos Martins, o coral do Projeto Guri e a bateria nota 10 da escola de samba paulistana deram uma aula de diversidade cultural. Você vai assistir agora um mix do ensaio e da apresentação de gala para saborear melhor o que o Jornal Nacional da Globo mostrou apenas como aperitivo.

Clima: urso polar acha uma saída… E a redação cai na gargalhada

De repente, chega um e-mail enviado pela jornalista Débora Andrade e a questão do aquecimento global assume uma nova face: a do humor sobre um assunto que veio para ficar. Olha só…

Que floresçam as mil flores

Aparentemente, Mao Tsé Tung morreu aos 82 anos sem evoluir, segundo os parâmetros científicos propostos recentemente pelo presidente Lula. Cometeu várias barbaridades ditas “de esquerda” em nome da construção do socialismo na China, que governou por décadas com mão de ferro, na melhor tradição stalinista. Mas deixou para a História várias frases e palavras de ordem bem bacaninhas, como a que dá título a este post que inaugura o Blog do Mercado Ético.

Cito de cabeça, não lembro bem das circunstâncias, mas acho que o velho camarada Mao lançou esse lema no fim dos anos 50, por ocasião do que chamou de Grande Salto para a Frente, um programa de reconstrução econômica e social baseado na coletivização da agricultura, que resultou num tremendo desastre. As mil flores, se floresceram, não foram devidamente colhidas - um equívoco histórico que hoje não podemos nem pensar em cometer.

Temos em comum com a China daqueles tempos a mesma necessidade de reconstrução. A escala é outra, com certeza mais abrangente. O aquecimento global, a perda de biodiversidade, o esgotamento de recursos naturais, a desigualdade social crescente, entre tantos outros efeitos perversos do modo como produzimos, consumimos e convivemos, estão pondo em risco a própria continuidade da vida no planeta. Precisamos de todas as flores do pensamento humano para encontrar novos rumos, retificar nossas ações e deter esse processo, antes que seja irreversível.

Sustentabilidade é a palavra da hora. Traduz uma aposta na capacidade que a espécie humana talvez tenha (sim, talvez; ainda está por demonstrar) de conviver em paz e prover suas necessidades num ambiente de justiça social e igualdade de oportunidades, em parceria com a biosfera e não contra ela, contra tudo o mais que vive e aqui viverá um dia.

Homero Santos, no vídeo de abertura da primeira série temática da nossa TV Mercado Ético (clique aqui para assisti-lo), batizou esse desafio de “construção de uma nova ética planetária”. Esperamos que este blog seja uma ferramenta útil para fazer avançar esse debate.

Como mediador, em decorrência da minha condição de editor-chefe do portal, juro que não pretendo seguir o exemplo do camarada Mao. Tentarei ser o mais liberal e democrático possível na edição de posts e comentários, comprometendo-me a filtrá-los apenas quando violar uma das três regras sagradas deste blog:

1 - não vale calúnia;

2 - não vale injúria;

3 - não vale difamação.

Sei que a linha que separa a liberdade de pensamento e opinião dos três quesitos acima costuma ser um tanto tênue e frequentemente borrada. Mas respeitar as leis vigentes em nosso país é um bom começo para a construção da sustentabilidade.

Fora isso, que floresçam as mil flores. Há urgência em colhê-las.

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