No auge da crise do mensalão, Chico Buarque de Holanda sugeriu ao governo Lula uma saída para não se meter de novo em enrascadas como aquela: a criação do Ministério do VDM. Não sei se a sugestão chegou ao presidente. Na dúvida, é hora de reapresentá-la com urgência.
A receita buarquista é simples e barata. Prevê não mais do que uma mesa, duas cadeiras e um ministro – de preferência, o homem mais sábio da República. Cada um que apresentasse uma idéia nova ao presidente seria imediatamente encaminhado ao Ministério.
- Companheiro ministro, os partidos estão endividados e o governo sem base de sustentação. Minha proposta é trocar votos no Congresso por cargos públicos que permitam aos indicados arrecadar recursos no bom e velho “por fora”, para pagar as dívidas e bancar as campanhas na próxima eleição.
Do alto de sua Imensa Sabedoria, o ministro coçaria o queixo, olharia para o vazio por alguns segundos e sentenciaria:
- Sei não, Vai Dar M…!
Proposta arquivada, missão cumprida.
Se o presidente Lula topar, seria sensato eleger como primeiro freguês do VDM um delegado eleito pela gerontocracia nuclear brasileira para debater a idéia de terminar a construção de Angra 3 e acrescentar mais algumas usinas novas ao pacote elétrico para a próxima década.
(Antes que me acusem de preconceito ou coisa pior é bom explicar: o termo “gerontocracia” vai por conta do que li numa reportagem publicada em março pela revista Pesquisa FAPESP, em que os próprios nucleocratas admitiram a falta de novos quadros técnicos e gerenciais como um dos obstáculos para a retomada do programa nuclear brasileiro. Boa parte dos que restam está na ativa desde os anos gloriosos em que o Brasil Grande ía pra frente, via na poluição um signo do progresso, usava fardas de tergal e sonhava com uma cadeira cativa no seleto Clubão das Potências Atômicas.)
- Ou vamos de nuclear ou este governo passará para a História como responsável pelo Grande Apagão de 2030 – afiançaria o delegado, após longa e meticulosa exposição técnica.
- Mas, e o custo?
- Uma pechincha! Com a bagatela alguns bilhões de dólares, colocaremos Angra 3 em funcionamento e entregaremos 1.350 MW aos consumidores lá por 2013, mais ou menos.
- Diz o Greenpeace que, com o mesmo dinheiro, dá pra construir bem mais rápido um parque eólico com o dobro da potência.
- Isso é conversa fiada de ambientalistas pouco esclarecidos, como diz nosso querido ministro da Ciência e Tecnologia. O preço por MW nas usinas nucleares é o que mais se aproxima da energia gerada pelas hidrelétricas.
- Pelo que sei, não é bem assim. Há quem diga que o senhor não está incluindo na conta a mineração e seus impactos ambientais, o transporte, o enriquecimento do urânio, o longo e delicado processo de resfriamento após a queima, a estocagem dos rejeitos radiativos por mais de dois mil anos, algo que ninguém conseguiu resolver ainda…
(“Xi, lá vem o cara com a velha história”, pensaria o delegado. “Qual o problema? Em muito menos tempo estaremos todos mortos!”)
- Externalidades, excelência, meras externalidades. Além disso, nestes tempos de aquecimento global, o mundo terá de pagar um pouco mais para usar energia limpa e segura.
(A última palavra detonaria um calafrio na espinha do ministro. Por um segundo, imaginaria um batalhão de Jack Bauers correndo atrás de terroristas com os bolsos cheios de urânio enriquecido no Brasil – sim, o Homem Mais Sábio da República não perdia um episódio de 24 Horas. Ok, sábios não são perfeitos, têm lá suas perversões, mas a liturgia do cargo impunha não admiti-lo de público. Precisava encontrar outro modo de propor a questão…)
- Mas isso não explode? – indagaria de sopetão.
- Claro que não! Isso é coisa do passado, excelência. Aprendemos muito com Chernobyl e outros acidentes, como Three Miles Islands, que não foi uma explosão, mas quase um meltdown. Aperfeiçoamos a tecnologia, aprimoramos os protocolos de operação e segurança.
- Então por que os chamados reatores de água leve como o de Angra 3 são definidos pelos especialistas como inerentemente inseguros?
- É aquela história do pára-quedas, excelência. No começo, costumava-se dizer que um terço dos saltos terminava mal porque ele não abria. Hoje não é mais assim, é só de vez em quando. Nossos técnicos garantem que, a não ser que ocorra uma sucessão improvável de falhas humanas na operação das usinas, não há o menor risco de acidentes.
(“Onde ouvi essa frase?”, pensaria o ministro. Imediatamente lembraria de uma conversa com seu colega do VDM paulista. Algo do tipo teria sido dito a ele poucas horas antes do Metrô-de-Porteira-Fechada afundar no buraco. Mas não, o Homem Mais Sábio da República não tinha o direito de desqualificar o interlocutor com um argumento tão rasteiro…)
- Quantas usinas mesmo os senhores querem construir?
- Fora Angra 3? Pode por aí umas oito. Ainda não acertamos os detalhes com o presidente Lula. Mas ele já está convencido da idéia geral. Vossa excelência deve tê-lo ouvido dizer que, se o Ibama não liberar as hidrelétricas do rio Madeira, vamos semear termelétricas e nucleares pelo Brasil afora.
(“Olhaí o danadinho do Lula usando as técnicas de negociação que aprendeu em São Bernardo”, pensaria o ministro . Estava convencido, assim como eu, de que o presidente inventara uma espécie de bode nuclear para colocar na sala dos ambientalistas. Toparia tirá-lo desde que o deixassem fazer o que realmente era do seu interesse: construir Santo Antônio e Jirau. Só não me perguntem por quê. Dá toda a pinta de ser uma longa história. Fosse eu o presidente, colocaria a ministra Dilma Roussef e o ministro Silas Rondeau - sim, pelo jeito ele vai voltar - sentadinhos na cadeira do VDM…)
- O senhor tem certeza de que é seguro?
- Cem por cento, excelência.
- Então eu posso até aprovar a idéia. Mas com uma condição: todos os que defendem a retomada do programa nuclear terão que morar, com seus filhos, netos e bisnetos, ao lado das usinas. O senhor aceita?
Diante do silêncio que se seguiria à pergunta, o ministro coçaria o queixo, olharia o vazio por alguns segundos e sentenciaria:
- Sei não, vai dar m…!