Mercado Ético

Mulheres e Sustentabilidade

Isabel Gnaccari, do Mercado Ético

Durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a presidenta Dilma Roussef pretende mostrar ao mundo que as mulheres são um vetor para a sustentabilidade. Em carta a lideranças de todos os setores femininos que discutem a erradicação da pobreza, "economia verde" e a transição para uma sociedade sustentável na Rio+20, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, preparou o terreno fértil no Brasil. Essa pauta foi veiculada na Cúpula das Mulheres, fórum que reuniu líderes e especialistas de todos os setores para reafirmar que a igualdade de gênero e o “empoderamento” das mulheres tem a ver com as dimensões social, econômica e ambiental da sustentabilidade.

Independente de serem agricultoras ou executivas, os dados que o MMA apresenta falam de mães e chefes de família. Mas se direcionam às mulheres da Classe C, agora consideradas “protagonistas nas questões de consumo” pelo governo brasileiro. Em recentes encontros preparatórios foi dito que “além de já integrarem cerca de 50% da força de trabalho e de ingressarem em maior número nas universidades, as mulheres vêm se constituindo em força política que pode ser significativamente transformadora em vários campos”. No caso, o tal “empoderamento” das cidadãs que hoje conseguem comprar mais. Estrategicamente, isso significaria uma latente transformação nos hábitos das crianças e famílias, imprimindo qualidade diferente àquilo que se chama "consumo de massa".

A discriminação em casa e nas ruas levou as mulheres, desde o século 19, a uma luta incansável contra a submissão imposta por uma sociedade machista. Hoje, por todo o mundo, uma grande parte delas domina um universo que é considerado o mais masculino de todos: o mundo do mercado. Isso pode dizer muita coisa - inclusive que, em busca da igualdade entre gêneros, o feminino acabou por se subtrair, rendendo-se aos valores masculinos, que hoje dominam homens e mulheres.

Os opostos e complementares

Em batalhas pela conquista de independência e poder, a mulher acabou usando armas que não são suas. É nisso em que acredita Homero Santos, professor e consultor na UniEthos & Ethos e na Fundação Dom Cabral. Ele explica que não se pode confundir essências com posturas – a primazia do masculino é a da posse, da conquista e do poder (seja consentido, ou forçado!); da satisfação do ego, em suma. Segundo Homero, o mundo insustentável que vivemos tem em sua base esses valores extremados avançando sobre o universo. O desequilíbrio e as crises globais (ambiental, social e econômica) refletem a falta dos valores opostos e complementares do universo feminino. “São eles que poderiam trazer o equilíbrio que desejamos”.

Deixados para trás pelas mulheres, esse caráter feminino gerador, acolhedor, nutridor e permeável é aquele que viabiliza a capacidade de renunciar ao poder. “A mulher tem em si a força oposta e complementar capaz de trazer de volta o que se perdeu”, ensina o professor. A saber, os valores éticos inquestionáveis capazes de romper com a ideia de um crescimento infinito, inesgotável... “um vírus na sociedade”, pontua Homero.

Em consonância com esse pensamento, a ativista do movimento feminista Thais Corral vê na contribuição do mundo feminino o caminho para um outro nível de consciência. “Os valores femininos podem ser adotados por homens e mulheres. Mas a mulher tem isso em sua história de sociabilização. E portanto, cabe a ela transformar”, resume a coordenadora das redes REDEH – CEMINA e do Espaço Sinal do Vale (RJ). Thais acredita que “a sustentabilidade, para acontecer, deverá estar no cerne dos valores sociais; hoje não está!”

Não dá para generalizar

Se a sustentabilidade depende do equilíbrio entre as duas grandes forças criadoras do universo, não há como não ecoar o pensamento da ambientalista Marina Silva. Em depoimento ao Mercado Ético, ela foi enfática: “os valores do feminino contribuem para esse equilíbrio e nem é oposição ao masculino, nem tentativa de supremacia, mas de relações mais equilibradas que respeitem a diversidade, capazes de criar processos includentes, pensar lideranças multicêntricas”.

Para a ex-ministra do Meio Ambiente, o mundo patriarcal nos trouxe até aqui com sua visão desequilibrada entre feminino e masculino, material e simbólico, economia e ecologia... “Só consigo ver luz no fim do túnel quando a compreensão de desenvolvimento sustentável não se resumir à maneira de fazer as coisas, mas significar o questionamento da maneira inadequada de ser. O feminino pode ajudar nessa compreensão. O desafio é liderar pelo exemplo", resume ela.

Nesse sentido, a Plataforma 20, proposta pelo governo chefiado por várias mulheres, deve ser vista como uma campanha de sensibilização com foco no consumo. Esta, apenas uma das chaves do problema. Não dá para colocar toda luz nesse caminho. Nem dá para generalizar.

Não há dúvidas de que a situação é muito diferente entre as mulheres: de um lado aquelas de maior renda e acesso à educação. Do outro, as trabalhadoras do interior ou do campo. Para a ambientalista Suzana Pádua, um exemplo são os grupos de mulheres com quem trabalha em projetos socioambientais – “há aquelas que ainda lutam contra o machismo dos maridos para ganhar independência, como há outras com uma trajetória de lutas, que hoje incorporam em seu universo familiar social os valores da sustentabilidade”. O ambientalismo, para Suzana Pádua, pode ser considerado um terreno de vanguarda na emancipação das mulheres – houve ali a salvaguarda dos objetivos coletivos: “a valorização da vida, das minorias e da diversidade biológica resumem, em certa medida, a ética da sustentabilidade”, ensina a doutora em educação ambiental e presidente do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas.

“Marina Silva tem razão”, diz Suzana. “A mulher tem o senso de nutrição e de cuidado, e pode ajudar a reestruturar o paradigma da humanidade. No mundo do trabalho, por exemplo, a mulher tem opções; já os homens são obrigados a perseguirem o sucesso, ou seja, buscam posses materiais e poder”, vaticina alegremente. Para Homero, “o desafio é o incluir das mulheres, abrir espaço para que o feminino latente e reprimido possa se revelar”.

Não importa se quem decide a compra dos alimentos, casa, carro, bens culturais e viagens de férias são elas. Importa saber que, se a decisão está em mãos femininas, seja ela a portadora da reunificação do ser completo e poderoso – aquele da mitologia grega, um dia separado em dois (andros, o Homem, e gynos, a Mulher) pela espada de Zeus. Importa também esperar que no encontro oficial, “igualdade” signifique mais que um negócio.